quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Som (i)legal


   Existem determinadas convenções que todo mundo já conhece : a grama do vizinho é sempre mais verde; se tá a fim de um romance, compra um livro; e que o beijinho no ombro é para o recalque passar longe. Eu conheço uma, que deveria se tornar uma convenção também - ninguém suporta as músicas de seus vizinhos. É difícil encontrar aquele que nunca se sentiu incomodado com a playlist do vizinho, ou pelo menos se incomoda com o volume e principalmente os horários em que ele escolhe para ouvir música.

   É simples, nem sempre o momento que você está a fim de ouvir uma música, é o momento adequado para o outro ouvir também. Pode ser a pessoa mais bisbilhoteira da rua, mas é impossível saber sobre tudo que está acontecendo nas casas naquele exato momento – a não ser que você seja um mutante do X-men, um vampiro leitor de mentes, ou algo que o valha. Não dá pra saber se no momento que alguém decide colocar uma caixa de som na calçada, para o bairro inteiro ouvir, que alguém ali do lado pode estar colocando um neném para dormir, tentando estudar, relaxando em silêncio, escolhendo um filme para assistir, ou até mesmo uma música para ouvir.

   Agora, vamos realizar um experimento : escute alguma música que você não goste. É bem improvável alguém gostar de tudo musicalmente falando. Pode ser um estilo musical - ah mas eu ouço de tudo - artista, banda, enfim, uma música aleatória. Pense naquele seu desafeto musical ( Dica atualizada : Pode ser a da muriçoca-çoca e que pica-pica, que tal ?! ). Imagina ouvir isso, alto e claro, por um período relativamente longo ?! É terrível. O dia perde até um pouco do brilho. Aliás, quando a gente, só de pirraça, não quer ouvir, até mesmo a nossa música preferida se torna um tormento.

   Eu acredito fortemente na teoria de que, muitos dos problemas – da humanidade !! - não existiriam se antes de fazermos algo, nos colocássemos no lugar do outro que está sendo prejudicado. Digo isso, porque no caso das músicas com vizinhos, todos nós sabemos que é sempre pior reclamar, porque em 80% das vezes ou seu pedido vai ser gentilmente ignorado, ou o pessoal da festa vai fazer deboche e provocações, levando esse probleminha a situações beeem complicadas. O jeito, é aguentar calado.

   É impressionante para mim, o poder da música. Essa maravilhosa arte tem um poder de manipulação que não há igual; lembram dos jingles nas propagandas, campanhas políticas ??! Até mesmo na escola e nos cursinhos elas se infiltram – eu, por exemplo, sei até hoje todas as preposições de cor só por causa de uma simples melodia aprendida a 12 anos atrás !!! Fora que as músicas afetam demais o nosso estado emocional : tranquiliza, faz chorar, nos anima, dançamos, traz recordações, excita, deprime...e claro, consegue incomodar muito bem, quando querem. Em todo lugar do mundo, tem sempre alguém levantando polêmica, preconceitos, contra determinado estilo musical, contra bandas, contra os admiradores...


   Já tentei ver o outro lado, mas não deu pra engolir. Nos ônibus, em Recife, vi uma campanha anos atrás, contra ouvir um som sem usar o fone de ouvido. Aí alguns dias atrás, aqui em Marabá, eu estava com fone, escutando no volume máximo, mas só conseguia ouvir a música de uma moça que estava sentada atrás de mim. Reuni toda a coragem do mundo e perguntei para ela porque ela tava ouvindo música sem fone, e ela muito naturalmente me falou que eles incomodavam o seu ouvido, por isso ouvia a música no auto falante. Eu aproveitei essa minha oportunidade inédita, e a questionei com o seguinte : “Ok. E como é que fica se todos decidirem ouvir suas músicas, ao mesmo tempo, sem o fone também?” Porque tava todo mundo usando, menos ela, então acredito que seria um completo caos dentro do ônibus se essa situação tornar-se real. Ela não conseguiu responder. Essa questão pensei em levantar com meus vizinhos também, depois de um domingo particularmente difícil que tive por conta deles, mas como sabia que a conversa nem de longe seria assim civilizada ( de ambas as partes), tive que ficar me roendo em casa mesmo, não há muito o que fazer, porque liguei para a polícia, que me passou o número da SEMA (Secretaria de Estado de Meio Ambiente), e essa por sua vez, não atende fora do horário comercial[...].


 
  

   Essa última situação aconteceu algumas semanas atrás, eu tinha que estudar (na verdade, eu precisava demais), mas não pude por causa da minha vizinhança, e daí me despertei para escrever sobre esse assunto – tema esse, que, na verdade, sempre me intrigou, e já tinha várias filosofias e teorias a respeito. Quando a raiva passou, deixei a temática na quarentena.

   Entretanto, estou lendo um livro, ótimo por sinal, que se passa na favela de Annawadi em Mumbai - Índia; é o “Em busca de um final feliz” de Khaterine Boo, e um trecho me chamou a atenção (infelizmente, tenho que resumir) : em plena semana de provas, ocorre um evento a noite, em um templo hindu, que explode em grito e músicas, após a chegada de um transexual dançarino no local; espalhando medo e fascínio no povo que estava lá, além de atrair mais espectadores. No meio da narração dessa “festa”, ele mostra a cena por outros ângulos.

O aluno mais adiantado de Annawadi, um rapaz de 21 anos chamado Prakash, vivia próximo ao templo. Ele estava em casa com um livro de economia no colo e a cabeça apoiada nas mãos. Duas gotas de lágrimas molhavam seus dedos. Suas provas finais mais importantes, antes do término da faculdade, estavam sendo sabotadas por um transexual contorcionista. Assim que pudesse, ele fugiria para Bangalore, uma cidade que respeitava os estudiosos.
                                                                                                  (KATHERINE BOO, 2013, p.85)

    Me identifiquei com este personagem, do outro lado do mundo !! Sempre me impressiono quando vejo essas situações, que mesmo com outras culturas, idiomas, e tantas diferenças, nós seres humanos, acabamos sendo bem iguais.

   P.S- Antes que me chamem de exagerada, o motivo maior da minha raiva foi porque eles escolheram uma marchinha de carnaval para tocar, seguramente, 30 vezes se-gui-das. Se fosse CD, vinil, fita, tinha estragado. Maldito MP3!