quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Fantasias...


Carnaval - Recife antigo

Nunca fui daquelas crianças que vestem uma fantasia, ou uma tiara de princesa, e sai na rua. Apesar de uma imaginação fértil (até demais), as fantasias fizeram parte da minha vida – só que apenas teve vez nas festas de carnaval ou Halloween. O meu eu adulto, uma estranha já totalmente assumida, também foi uma criança bem esquisitinha, o que se refletia nas minhas fantasias, que rapidinho saíram das fofurinhas de crianças, como uma mini passista de frevo até chegar a ser uma metaleira, pirata, ou policial do FBI. O ponto alto da minha adolescência foi quando fui para os bailes e ruas do carnaval (em Recife e Olinda) vestida de “quenga do Moulin Rouge” – engraçado ver nas fotos que apesar do tecido vermelho e meia calça provocante, ainda conservava as bochechas e os “zoião” inocentes do meio da adolescência – o que tiravam toda a coerência da roupa.

Todo esse assunto sobre fantasia começou, não pela proximidade do carnaval – mas antes despertado pela leitura de uma crônica do Ivan Angelo, chamada Homem ou Mulher?, em que o autor vai falar sobre quando durante sua infância, ficou impressionado com um homem que se vestia de mulher durante o carnaval. Ao longo da crônica ele comenta sobre o fascínio que muita gente tem em se transvestir durante essa época do ano, e eu parei pra pensar sobre como nunca tive interesse em fazer isso, apesar de algumas vezes me vestir de personagens que em sua maioria são representados pelo gênero masculino, nunca deixei de acrescentar um toque feminino na caracterização. Foi aí que me lembrei de uma exceção.

Numa festa, que não ocorreu faz muito tempo, tive a brilhante ideia de me vestir de gentleman do século passado. Na verdade, estava sem muitas opções em casa, todas as fantasias já muito surradas, aí vi essa oportunidade ao me lembrar que tenho um chapéu-coco, um coletinho preto e uma gravata borboleta com lantejoulas (da época que fui de quenga). Foi só comprar um bigode, colar na cara e ir. Apesar de colocar um shortinho pra suavizar a caracterização, os pelos na cara estavam cumprindo o seu papel, mas munindo-me de coragem, fui para a festa.

Tudo estava certo, menos o timing da festa. Primeiro, com exceção do aniversariante, ninguém mais foi fantasiado! Segundo, por onde andei, as pessoas desviavam o olhar, desconversavam, e claro, a deslocada era eu, que tinha aparecido em uma festa temática, fantasiada. Ainda mais com algo tão ultrajante. Resisti bravamente e continuei fiel à minha personagem que com tanto carinho escolhi, mas eis que o destino sabiamente me prega uma peça e eu desenvolvo uma alergia aos pelos do fatídico bigode!

Às pressas me desfiz do meu orgulho, digo, bigode e resolvi permanecer insossa, tal como os outros, até essa provação finalmente acabar.

Lendo essa crônica ontem em um ônibus voltando para casa – claro, não há melhor lugar para filosofar do que na janela de um ônibus – entendi que se transvestir, mesmo que um pouco, ainda é um dos grandes tabus da nossa sociedade, como podemos ver que sua leve sugestão em uma conversa corriqueira, causa o furor de algumas (muitas) pessoas. O problema não é a moça colocar um bigodinho, ou o cara colocar uma saia e ir para uma festinha, o problema é que na mente da maioria, o ato deixa de ser uma brincadeira e torna-se sinônimo de declarar no ato a sua sexualidade – o que também ainda é um ENORME problema, sabe-se lá o porquê.

Ando bastante inspirada e orgulhosa dos últimos discursos das mulheres que circulam hoje pelo mundo, e a vontade de permanecer calada contra o que há tanto tempo nos aborrece, hoje, mostra-se nula para mim. Engraçado como as mulheres, desde neném, já estamos cansadas dos abusos e agressões que sofremos da sociedade. Nascemos cansadas, com esse fardo nas costas. Eu não carrego mais ele. Amo os homens, e quero ser amada e respeitada em retorno. Nem que pra isso eu tenha que pregar um bigode na cara e me fazer ser ouvida.
O bigode da resistência, agora colado na prateleira