sábado, 2 de janeiro de 2016

O mar


O mar é mesmo um lugar fascinante. Já há tanto tempo explorado, consegue ainda preservar praticamente todos os seus mistérios e segredos. Travamos diversas batalhas com essa imensidão azul, só para descobrir todas às vezes, o quanto somos frágeis e pequeninhos perto dele.

Conheci o mar na praia de Boa Viagem, em Recife – PE. Essa mesma, que é famosa pelos tubarões. Na verdade só se torna perigosa para quem não segue os alertas para o banho de mar, perdendo uma experiência deliciosa e que é um dos meus programas preferidos na cidade. Apesar do medo normal e saudável de toda criança, sempre fiquei maravilhada com a água e os bichinhos que encontramos de vez em quando (peixinho, água-viva, recifes de corais); fazia coleção de conchinhas e também castelinhos de areia. Toda vez que me pego olhando o mar, sonho em um dia atravessá-lo, ver o que tem na linha do horizonte, e principalmente conseguir ver todos aqueles animais que só vejo em vídeo: arraia, baleia, golfinho, tubarão...enfim, ainda me falta a oportunidade e muita coragem para tanto. 


Cartão postal de 1950 
http://www.novomilenio.inf.br/rossini/contegra.htm
Coragem essa que não faltou a minha vó materna, que viajou de Lisboa ao Rio de Janeiro a bordo do Conte Grande (1959), um navio italiano no qual ela bem se lembra o tanto que se empanturrou de massas e do garçom que a ensinou a comer o macarrão enrolando no garfo (cortar jamais!). Em determinado trecho da viagem o perigo era tal que eles precisavam vestir o colete salva-vidas, e o pós-tensão era comemorado efusivamente com uma festinha de carnaval. Muito da viagem já lhe falta à memória, mas o azul e a imensidão do mar são inesquecíveis. 

  Umas duas semanas atrás, fui com a minha mãe ao cinema assistir o novo filme do Thor (Chris Hemsworth), No coração do mar, depois de esperar um bom tempo para vê-lo – lembro de ver o pôster do filme no cinema, um ano atrás, e por algum motivo que desconheço, foi adiada a estreia por todo este tempo. 
Ainda bem que não aguardei tão ansiosamente assim, porque na verdade, o filme diverte, mas não encanta. Quando acabou, fiquei esperando muito mais dele. Puxando rapidinho da memória, me lembrei de outros filmes que assisti nos últimos tempos com a temática oceânica: Até o fim (All is lost, 2013), Invencível (Unbroken, 2014), A Aventura de Kon-Tiki (Kon-Tiki, 2012), As Aventuras de Pi (Life of Pi, 2012), para dizer alguns. 
 
Invencível se diferencia dos demais porque não é uma história de naufrágio. Nele, o rapaz passa por tantas coisas que é difícil rotular do quê exatamente ele sobreviveu. De campeão olímpico à militar náufrago e capturado pelos forças inimigas, acho que o filme é sobre ser invencível mesmo. Valeu o ingresso. 




Kon-Tiki, encontrei um tanto ao acaso quando via vídeos de tubarão no youtube. Me chamou a atenção porque pareceu bem fantasiosa e exagerada a cena do filme, no entanto pesquisando, vi que era uma aclamada produção norueguesa, que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (2013). Este foi além das minhas expectativas, pois mostra uma aventura real que faz com que passemos o tempo todo esperando chegar o momento em que tudo vai dar errado. 
Depois de um ano estudando e trabalhando em um projeto de Iniciação Científica na minha universidade, de cara me identifiquei com este filme. Logo eu, que antes acreditava apenas na prática, aprendi bastante neste ano não só alguns estudos teóricos como a sua real importância. Então, a ideia do filme é construído basicamente de teorias e práticas de um estudioso norueguês que vê a única oportunidade de provar a sua tese se a realizar ao pé da letra, por mais extremada que fosse. No fim das contas, Thor Heyerdahl o “cientista malucão”, escreveu o livro que originou o filme, e vou parar por aqui para não estragar o enredo para vocês.


Hoje vim especialmente para falar do Pi. Depois de um pedido especial de uma amiga (nada melhor para quem escreve do que ouvir a interação de vocês aí do outro lado #apenas #dizendo ;D), pensei na melhor forma de falar deste, que está com muito carinho no top list de todo mundo aqui em casa. Para se apaixonar não foi muito difícil. O filme recebeu ainda 11 indicações ao Oscar, vencendo direção, fotografia, efeitos visuais e trilha sonora.
Falando esteticamente do filme, não podemos dizer um ai. É um espetáculo. Cores, luzes, tudo dá um aspecto de magia ao filme, que vale a pena ser visto, mesmo que você não goste do roteiro. Fora os efeitos especiais, principalmente do Richard Parker, o tigre. Quanto ao enredo, tudo começa com Pi Patel já mais maduro, contando a um escritor sua história que se inicia em um zoológico na Índia pertencente à família dele, a qual decide se mudar para o Canadá e tendo que fazer essa viagem de navio levando com eles os animais. A aventura começa quando Pi sobrevive ao naufrágio em um bote acompanhado do mais inesperado: um tigre de bengala, uma hiena, uma zebra e uma orangotango. 
O filme todo é a interação em alto mar entre Pi e os animais selvagens - tanto da balsa, quanto fora dela. Só que ao final, o personagem já em terra firme dá o depoimento do acontecido a dois fiscais japoneses do navio, que ao não acreditarem na história, faz com que Pi narre uma outra em que os bichos da balsa na verdade eram apenas metáforas representando pessoas reais, ex-tripulantes do navio, cometendo os atos selvagens que vimos no filme como se fossem os animais. Fica em aberto ao espectador, em qual versão acreditar. 


A ilha tem a forma de um corpo humano! Eu em!!
O personagem, Pi, é um garoto muito religioso. Tanto que ele é hindu, católico e muçulmano!! O filme mostra ao que veio logo no começo, abordando a religião como um de seus pilares, e promete que a história fará com que acreditemos em Deus. Pelo que eu entendi, Pi só conseguiu sobreviver a todas as privações e desventuras no mar, porque teve fé e esperança, sempre fazendo com que permanecesse lutando pela sua vida. Um dos exemplos, foi a ilha misteriosa que o garoto encontra em alto mar quando já estava nas suas últimas forças, e que para mim não passou de uma alucinação. 
Ao que tudo indica, o que realmente aconteceu foi a história que o Pi conta como mentira, no qual os tripulantes da balsa eram humanos, mas que por vergonha ele prefere não acreditar. No embate entre realismo e religião, que Pi vivencia desde a infância com o pai, cada um escolhe a versão que mais lhe convêm. Eu acreditei na do tigre. 
De forma melhor e mais bem detalhada, este texto da internet trata do assunto http://dois-e-meio.blogspot.com.br/2013/02/voce-realmente-entendeu-as-aventuras-de.html 

Por último, e fugindo um pouco da linha de filmes, este ano tive a oportunidade de ler um livro muito especial para mim. Em uma das minhas provas de português durante o ensino fundamental, uma professora no qual confesso não ter muitas lembranças boas, colocou na prova o trecho de um livro que me perseguiu por muitos anos. O trecho foi do: “Relatos de um náufrago”, de Gabriel García Marquez (1970), e falava de uma parte crítica do livro – o náufrago, que estava esperançoso ao ver uma gaivota voando ao seu lado, achou que estavam próximos ao porto, porém com o passar do tempo se deu conta de que na verdade ela estava perdida e seguindo ele. Não tive paz depois que li, só sosseguei quando muitos anos depois (já no último ano do Ensino Médio) encontrei o livro na biblioteca. 
Das histórias de naufrágio, está é uma das melhores e mais angustiantes que já vi, só não sei ainda se foi real ou não. Bom, até que não importa tanto assim, como no Pi, optei por acreditar e claro, saborear a história. Ano passado achei uma edição do náufrago, em espanhol, e finalmente pude ler tal qual o autor a escreveu. Nada mal, para o meu primeiro livro em espanhol. Acho que começar por Márquez deve dar algum tipo de boa sorte ou benção, talvez.