terça-feira, 23 de abril de 2019

Uma voltinha no Sul

Na UFSM
Quase dez meses de atraso, enfim sento para escrever esse texto. Tive ótimas desculpas, como a conclusão da graduação, seleção do mestrado, busca de emprego... etc. etc.

Tudo balela. Tive mesmo foi medo. Um nervoso só.

Em junho de 2018 viajei pela primeira vez ao Sul do país. Última região do país para mim ainda desconhecida. Mais especificamente fui para o Rio Grande do Sul, passando uma noite em Porto Alegre e alguns dias em Santa Maria.

Entre os meus 10 - 11 anos, li pela primeira vez um livro de crônicas, Um país chamado infância, de Moacyr Scliar. Foi amor à primeira vista. Muitas crônicas lidas depois, tenho um amor incondicional pelos textos desse autor, assim como também pelas do Luís Fernando Veríssimo. Durante minha viagem, conheci outros dois escritores gaúchos – Martha Medeiros e David Coimbra. Como escrever um texto falando sobre a terra de cronistas tão maravilhosos?! Sem pressão alguma.

Essa viagem foi cheia de ineditismos. Pela primeira vez fui: para o Sul; para um lugar frio (e no início do inverno); dormi em um quarto misto de hostel; realizei uma viagem totalmente voltada para o estudo – outras que fui em São Paulo, por exemplo, confesso que fui mais interessada em turistar, e em Recife não conta, é volta para casa, de certa forma.

Porto Alegre 

Depois de cruzar o país de ponta a ponta e passar o dia em aeroportos, cheguei exausta em POA. Pra dar sorte, já fui lendo o livro que me acompanhou durante toda a viagem: Um centauro no jardim, do Scliar. Conversando no Uber sobre escritores de lá, Joel, o motorista super simpático me recomendou o autor Coimbra, além de bares para ir e lugar para comer pasteizinhos que todo mundo aqui parece adorar (achei uns pastéis assadinhos que parecem com a empanada argentina, e prefiro muito mais que os fritos, já tão comuns aqui na minha região).

Aero de POA
Cheguei à noite e logo de manhã cedo teria que pegar o ônibus para o interior. O tempo e a disposição estavam curtos, mas me aventurei pelas ruas geladas até um shopping nas redondezas do hostel que reservei para dormir. Chegando lá, dei um pulo em um mercado, que estava bem lotado. Muita gente comprando vinhos, pinhão e outras coisas que não me lembro mais agora, mas que na hora me deram uma sensação engraçada, de que parecia que todos estavam comprando coisinhas típicas da região só porque eu estava ali os observando, ao contrário de mim, que no meu dia-a-dia quase só como comidas típicas quando tem visita-turista.

Ainda no mercado, ouvindo as vozes das pessoas conversando, toda hora levantava a cabeça para ver se era um conhecido meu. Os sotaques gaúchos não soavam nem um pouco estranhos para mim, já que em Marabá sempre tive amigos e conhecidos de lá, dando a leve impressão que eu nem havia saído da minha cidade. Por ter uma certa facilidade com sotaques, acabei na volta para casa passando o final de semana inteiro falando em gauchês.

Encarei às ruas novamente na volta pro hostel. Que frio!! A rua estava completamente gelada, devia estar em torno de 2ºC, logo eu, recém-saída dos 26ºC durante às noites paraenses. Parecia um guarda-roupa ambulante, com inúmeras peças de roupa, que estupidamente pensei serem suficientes. Lembrei de minhas andanças por São Paulo na mesma época, não podendo se comparar com o clima daqui, mas que já me pareciam tão frias na época. Apesar dos pesares, estava amando andar por um clima diferente, me imaginando num filme de Natal Nova Iorquino, ou algo parecido. Felizmente, ou infelizmente, em 5 minutos cheguei ao hostel e meu caso de amor com o frio tornou-se um pesadelo.

Hostel Rock

Me hospedei no Hostel Rock, pertíssimo da rodoviária. Pela primeira vez fiquei em um quarto misto e com capacidade para 9 pessoas! Um guri simpático, que estava morando provisoriamente por lá conversava alegremente comigo, enquanto eu me organizava no meu beliche. Por dentro estava adorando o papo, mas pena que o cérebro parecia letárgico e aos poucos ia desligando de tudo. Estava em uma situação tão triste, que o rapaz teve dó de mim e me cobriu com um edredom a mais, para ver se eu chegava viva à manhã seguinte. Como era de se esperar, com a minha sorte, atacou a asma, dormi e acordei várias vezes, com pavor de perder o ônibus da manhã seguinte e não conseguia me mexer direito. Nada romântico.

Hoje, relendo as minhas notas de viagem, encontrei uma pequena nota destacando a água natural que botei na cabeceira da cama e cada vez gelou mais e mais (ainda não me acostumo com a temperatura das bebidas fora da geladeira em cidades frias. Experimenta fazer isso no Norte!), enquanto que nascia em mim um desejo febril de só tomar chá e água fervida por toda a minha estadia aqui.

POA de manhãzinha
Cedinho acordei, tudo escuro. Esperei sair o sol e fui para a rua andar o curto espaço até a rodoviária. Tudo estava conforme o planejado. Menos o frio. Na rua as pessoas falavam e saiam vaporzinho da boca. Um luxo, estava me sentindo na própria Europa.




Tomei café da manhã na Big Mix, uma lanchonete da rodoviária, de mais de 40 anos, com cara de diner Americana. Claro, não botei fé pela minha larga experiência em lanches de rodô. Quebrei a cara, no bom sentido. Tomei um dos melhores cappuccinos, com croissant recheado de chocolate. Comecei minha jornada nos doces maravilhosos gaúchos. Com as passagens já compradas desde o aeroporto de Porto Alegre, parti para Santa Maria.

Na rodô

Santa Maria

Na estrada, vi vapor saindo das águas, a grama esbranquiçada e, mais tarde um pouco, da cor marrom. Muitos pinheiros e gado daquela raça europeia, gordinho e peludo.
Na estrada, tudo descongelando

O motivo da minha viagem foi para participar da Escola Verão-Inverno do PELSE, parceria entre a UFSM, a Universidad de la República Uruguay e a Asociación de Universidades Grupo Montevideo. Assim, minha estada em Santa Maria foi marcada, inteiramente, por dois pontos: estudo e, especialmente, amizade.

Os dias, recheados de risos, passeio pelo centro histórico, shoppings, cafeterias, andanças pela grande e linda universidade, xerox e scanner de livros, fizeram a semana passar em um minuto. Noites curtas de conversas e trabalhos, acabei conhecendo um pouco da história dessa cidade, formada por famílias Belgas, Italianas, Alemãs etc. às vezes com todas essas descendências em uma família só. Tantas línguas e culturas circulando em um só povo, que conservam ainda muitas tradições, apesar do que ficou perdido pelo caminho, o que foi muitas vezes prejudicado por proibições políticas ridículas – como os estrangeiros não poderem falar a sua língua materna, fazendo com que essa herança linguística ficasse perdida para as próximas gerações.

Fotos do Evento
Participando de um congresso de Linguística, não pude deixar de perceber o quanto as línguas estrangeiras circulam com facilidade por ali. Me surpreendi ao ver que o Inglês e Espanhol às vezes parecem ser idiomas básicos e o comuns, acrescentando-se aí diversas outras línguas como o Francês, Alemão, Italiano etc., muito provavelmente pela proximidade geográfica e cultural com os países hermanos, assim como a influências dos primeiros moradores europeus.

Ainda sobre as diferenças que me chamaram à atenção, em um dos passeios que fiz, ao conhecer um antigo teatro da cidade, na hora comparei com os que conheci no Norte-Nordeste. Essas três regiões (N – NE – S) tiveram colonizações tão diferentes, mas um simples teatro nos aponta a história na prática: de um lado, todo o luxo dos grandes prédios frutos do extrativismo (cana, drogas do sertão, borracha, madeira...) mais ao Norte do país, enquanto que no extremo oposto, a simplicidade representa as colônias de povoamento que também chegaram ao país. Resultados dessas diferentes formas de povoamento ficam claros à medida em que comparamos as diferenças culturais, políticas, organizacionais e tantas outras dentre as duas grandes regiões.


UFSM

Por tamanhas diferenças, acabei remetendo, a medida em que conhecia os lugares, a diversas paisagens novas, mas com lembranças de outras terras, em sua maioria estrangeiras. A começar pelo clima, tão estranho à mim, dava a sensação que estava em outro país – mas falando Português! Logo na chegada, vi alguns prédios que eram a cara de Montevideo. – Um pequeno parêntese aqui, pois acho que nem vale comparar o Rio Grande do Sul com a Argentina ou com o Uruguai, até porque eles têm tantas coisas parecidas, que vão desde o hábito de falar tche, o chimarrão, as paisagens, o clima, o pastelzinho, a figura do gaúcho tradicional, os pampas, o gado e por aí vai.

Santa Maria ou HK?!
Das lembranças mais bizarras, juro que recordei de Hong Kong ao chegar em Santa Maria. A cidade é envolta por diversos morros (morro ou serra?! Desculpem minha ignorância geográfica), o que a torna muito fria no inverno e extremamente quente no verão. Essa paisagem de morros me remeteu aos impressionantes que vi e amei na China.


UFSM
“Viajando” um pouquinho menos longe, ao conhecer a linda Vila Belga, me lembrei na hora da Cidade Alta de Olinda-PE, com as casinhas juntinhas e coloridas, e o calçamento de pedra (já andaram de carro em rua de pedra? Oh barulhinho gostoso!). A própria UFSM me lembrou bastante uma versão maior do campus de Recife da UFPE. A propósito, a Universidade de Santa Maria, que parece um mundo, tem uma árvore mais linda que a outra – e isso é porque eu fui no inverno. Boatos de que na primavera é mais bonito ainda. Achei muito legal as pessoas andando por lá com roupas e objetos contendo o nome/símbolo do curso ou da universidade. Apesar das recordações mais esquisitas, outras nem tanto, só foram sensações de déjà vu boas, em um primeiro momento, que adicionadas ao que eu de fato estava conhecendo, só me fizeram desejar voltar o quanto antes para lá e conhecer as milhares de coisas tão boas e diferentes que têm por todo o estado.


Cuca
Os dias foram regados a chocolate quente, chás, muito vinho (principalmente da região), conversas na lareira, e até experimentei (e gostei) do famoso chimarrão – não estranhei por já estar acostumada ao chá verde. Pinhão na panela de pressão; massas (CANELONE!); tortas; churrasco gaúcho; vegetais saborosos; cuca deliciosa de uva – a cuca é tipo um pãozinho caseiro, tendo as versões doce e salgada. 






 Falando verdades sobre o frio

Na lareira e forno à lenha
Durante esses dias, aprendi a amar verdadeiramente três coisas: aquecedor, cobertor e lareira. Brincadeiras à parte, tive o azar, ou sorte de chegar em uns dias de frente fria. Me surpreendi ao ver os próprios gaúchos reclamando do frio e andando agasalhados. Ufa, não estava sozinha nesta fria. No meio da semana, a temperatura deu uma trégua, e saiu um sol mais quentinho. Não poderia ter tomado uma atitude diferente: deitei no sol, bem lagarto. Inclusive saí botando umas roupas também no sol, para depois vestir tudo quentinho.

Despreparada, no primeiro dia tirei os sapatos e fiquei andando de havaianas e meias pela casa. Na minha cabeça, seria um absurdo andar de tênis. Minha amiga me socorreu, me emprestando uma botinha especial para andar em casa, mas, claro, não saí impune dessa, e resultou na gauchada toda rindo da minha estratégia ruim. Minha habilidade de sobrevivência no frio vai de mal a pior. Uma grande verdade sobre o frio: as roupas são lindíssimas!!E agora já aprendi que só posso usar lá, algo insuportavelmente quente, impensável de se usar no Pará, nem no dia mais frio. Um lado bom da viagem: estava com um piercing querendo inflamar, que ao chegar em POA doeu como um inferno – sim, a inflamação já sabia que iria morrer! O que estava tentando sarar por meses, em dois dias ficou bonzinho. Em compensação, caí de bicicleta algumas semanas antes de viajar, machuquei o joelho e ele piorou muito no tempo frio. Nem tudo é mals – o frio emagrece! Só tem que tomar cuidado com sapato fechado por muito tempo, hidratar muito a pele, boa sorte para lavar o cabelo com a água pelando de quente, e cuidado com qualquer cortezinho que vai te aborrecer muito. Pronto, feito o guia para iniciantes no frio, como eu. Provavelmente você que já é acostumado e está me lendo agora, deve estar só balançando a cabeça, espero que de cima para baixo.

Não comprei nada. Mentira, comprei um mini chimarrão pra me lembrar dos amigos. Foi mesmo uma viagem de estudos. Voltei inspiradíssima e tremendamente produtiva academicamente.

Arrastei os pés para ir embora. Difícil arrumar o mochilão. Ruim a despedida.

Finalizo com um recorte do meu diário de viagem:

“Tenho que escrever um texto bacana sobre aqui, terra de tantos escritores. Não foi viagem turística para conhecer lugares e sim pessoas e culturas”. Amei.