segunda-feira, 29 de maio de 2017

São Paulo cinza


Foto 1: Arredores de Congonhas – 04/2017

Podemos classificar algumas cidades por cores. Como a ensolarada Recife, que parece ter as cores de uma sombrinha de frevo. São Paulo, no entanto, para mim é cinza. Mas não um cinza ruim, tipo mal humor. Seria um cinza mais para Mr. Grey, um lindo bilionário estranho, que a gente logo cria afeição e amor.

Mês passado fui pela terceira vez à essa cidade, que durante minha infância, estava dentre as principais que eu gostaria de visitar algum dia. Ela passou um tempo apagada dessa honrosa lista, durante minha adolescência – mais por um mecanismo de defesa, após ouvir tantos comentários maus direcionados às regiões Norte e Nordeste brasileiras, que me fez criar por muito tempo um bloqueio afetivo contra a região Sudeste do país.

Tudo mudou após uma oportunidade de ir a trabalho para a cidade, duas vezes pelo meu emprego, e outra vez por trabalho acadêmico. Não tive a oportunidade de ir totalmente livre, como uma boa turista, mas ainda sim foi o que bastou para durante os preparativos, e a própria chegada à cidade, as portas do meu coração serem reabertas, e me deixar novamente apaixonada pela paulicéia desvairada.

Na verdade, me pergunto porque demorei tanto para escrever alguma coisa sobre essas viagens que tanto me marcaram, mas espero rabiscar algo aqui que faça jus as experiências vivenciadas.

Lá em cima, chamei São Paulo de cinza porque foi o que me chamou bastante a atenção durante as duas últimas vezes em que a visitei. Por ir sempre no começo ou no final do inverno, gostei muito da sensação de frio agradável que senti, e do tempo sempre fechado – pode parecer loucura minha, mas adoro tempos fechados nas minhas fotos. No último dia que estive lá, abriu o sol logo pela manhã, e agradeci por logo ter ido embora e não dar tempo de manchar a impressão cinza que já estava tão querida por mim.
Foto 2: dia na Av. Paulista- 09/2015. Foto 3: noite nos arredores de Congonhas – 04/2017. Ao anoitecer, acho que São Paulo não escurece, e sim “encinze-se” um pouco mais, ao mesmo tempo em que garoa.

Os passeios que consegui fazer foram os do tradicional Mercadão, com as frutas deliciosas que tive que contrabandear para minha casa (não me entusiasmei pelo sanduíche de mortadela, no entanto pude comer das cerejas que minha professora paulista sempre falou tão apaixonadamente). Conheci, por acidente, o Conjunto Nacional, com a maravilhosa Livraria Cultura, e tive o prazer de passear pela Av. Paulista aproveitando cada pedaço do caminho. Mesmo prazer sentido ao andar pelas ruas do bairro Jardins, que muito me lembraram algumas ruas do Recife, no bairro de Boa Viagem e na Zona Norte ($$$) por causa das árvores e estilo de prédios. Nesses passeios incluem a comilança que fiz, a partir de uma excelente recomendação, na padaria Bella Paulista (que com certeza eu faria um cartão de fidelidade se por ali morasse um dia) e também os passeios e compras pelas ruas Haddock Lobo, Augusta e, pasmem, Oscar Freire – mas essa parte merece um parágrafo separado.

Oscar Freire, famosa rua de compra dos milionários, também cabe no orçamento de uma simples proletária como eu. Tem várias marcas à nossa disposição, por isso, é óbvio que eu não vou comprar nada na concessionária da BMW que tem lá, mas também tem lojas comuns, de departamento, ou de marcas como a Adidas, com promoções e preços bem mais acessíveis do que nas outras lojas que revendem os seus produtos. Assusta, mas não morde. Em contrapartida, visitei as ruas que são famosos locais de compras baratas como a 25 de março e a José Paulino e me decepcionei. Ainda acredito que eu não soube a loja certa para ir lá, porque achei no mínimo estranho ter saído sem nenhuma sacolinha.

Deu tempo para conhecer a Estação da Luz e Linha Amarela, o Museu de Língua Portuguesa junto com um grupo de professoras de Letras (:D) e pouco antes do incêndio – vale notar que já começaram a restauração. Fui na famosa esquina da Av. Ipiranga com a Av. São João tomar uns chopes. Dos shoppings, destaco o Morumbi e o Eldorado, sendo este último onde vi minha primeira peça teatral: “Maria Callas em Master Class” com a Christiane Torloni.

Não tem como não engordar indo para São Paulo! E o engraçado é que além de todas as coisas gostosas próprias da cidade, incluindo os docinhos de padarias, e as já famosas pizzas, você pode comer comida do mundo inteiro, inclusive foi minha oportunidade de experimentar as famosas redes de lanchonetes: KFC, Dunkin’ Donuts, Starbucks, Taco Bell. Ir pro States pra quê, né?!

Falando em USA, achei que SP tem uma forte pegada cosmopolita à la New York, e dependendo de onde você anda, não fica difícil você encontrar pessoas falando diferentes línguas estrangeiras – muitas até irreconhecíveis para mim. É muito divertido observar esse mix gritante de culturas. Acredito que nunca antes contei sobre o meu emprego aqui, mas ao falar dessas viagens, não posso deixar de incluir o motivo que me levou até lá, em primeiro lugar. Eu trabalho há três anos como intérprete em uma empresa, fazendo importações etc.; por isso, acabo conhecendo muitas pessoas de diferentes países e culturas; na maioria das vezes apenas por correspondência, mas outras eu encontrei pessoalmente nessas feiras que fui.
Ricky, meu amigo chinês, da primeira vez que nos encontramos - 06/2015

O outro motivo que me levou a São Paulo foi um congresso acadêmico na USP, que tornou-se um divisor de águas na minha trajetória acadêmica. Foi lá que apresentei meu primeiro trabalho em um evento e definitivamente perdi toda vergonha de falar em público. Na mesma ocasião fiquei em um albergue e me inspirei para a vida mochileira.

Apesar de vivenciar várias experiências encantadoras, não se preocupem, não sou marinheira de primeira viagem, e sei o quão exigente pode ser uma cidade como essa, logo após perdermos o status de turista, e virarmos moradores. Tudo que a cidade lhe oferece, tem um alto preço, que nem sempre é pago apenas com dinheiro. Se pudermos inserir cenas do cotidiano nas artes, diria que o fluxo de pessoas nos corredores do metrô formam uma dança sincronizada, que só tem beleza quando estamos lá a passeio. Há também uma sinfonia bastante orquestrada em uma fábrica que visitei, formada pelo abre e fecha, desce e sobe, das máquinas e mãos dos operários que ali trabalham – sons percebidos após eu puxar os protetores auriculares e realmente ouvi-los fora da névoa (ou de um oco) que os tampões provocam na audição. Também não sei definir quando fiquei mais hipnotizada/aérea: se foi quando estava com os ouvidos tapados, ou quando retirei os protetores e me perdi no ritmo cadenciado que por ali tocava. Não conseguia parar de pensar em como seria trabalhar assim, logo eu que me ponho bastante ansiosa com exercícios repetitivos.

Estou lendo o livro de Dostoiévski, “O Crocodilo e Notas de Inverno Sobre Impressões de Verão”. No segundo texto que compõem esse livro, o autor conta suas impressões durante sua primeira viagem à Europa, e acabei encontrando um trecho interessante:
Pus-me a tratar de toda essa gente que busca na Europa um cantinho aprazível e, realmente, pensei que se sentissem melhor ali. E, no entanto, que angústia em seus rostos... Pobrezinhos! E que intranquilidade permanente há neles, que mobilidade doentia, angustiosa! Todos andam munidos de guias, e em cada cidade correm avidamente a ver coisas raras e, realmente, fazem isto como que por obrigação, como e continuassem a prestar serviços à pátria [...] (DOSTOIÉVSKI, 2011, p. 102).

Ás vezes os guias e todos esses preparativos de uma viagem muito aguardada, acaba por nos prender em grandes expectativas e obrigações, pois não dá para deixar de conhecer um ponto tão famoso de determinado lugar por pura negligência – guias, mapas e roteiros.....ter ou não tê-los?! Mocinhos ou vilões? Fato é, dicas e sugestões nunca são demais para quem vai para um lugar desconhecido, e independentemente do seu esforço, expectativas serão frustradas, tanto quando você não consegue conhecer o que gostaria, como também quando você conhece e se decepciona. Só nos restando ter muita experiência e maturidade para conseguir equilibrar essa balança, para podermos tirar a cara dos manuais e realmente aproveitarmos cada vez mais as viagens que fazemos (ou quem sabe indo mais vezes também acelera o processo hehehe).

P.S.: Tardiamente percebi que ao chamar São Paulo de cinza eu estava fazendo um trocadilho com a polêmica Doria, por pintar os grafites de cinza e deixar a cidade, literalmente, ainda mais acinzentada. Não foi proposital, mas aproveitando a deixa, eu senti falta dos grafites que vi pelo caminho do aeroporto ao hotel e que tanto me encantaram na minha primeira vez na cidade. Cidade Linda deu errado, tá feio assim.


Mini álbum
Av. Ipiranga e Av. São João - 06/2015

Mercadão de SP - 06/2015

Hostel Paulista - 09/2015 - Lista mais do que inspiradora na escadaria de entrada; 90% desses livros lidos, e/ou dos filmes assistidos. Ótimos!
Fachada de prédio - 06/2015
Estação da Luz e Museu de Língua Portuguesa - 09/2015
Tive que apresentar na frente de todos um resumo do meu trabalho. Apenas. - 09/2015

Galera de Letras em habitat natural - 09/2015

Dia de teatro, bebê. - 09/2015
Metrô <3 - 04/2017

quinta-feira, 25 de maio de 2017

E foi uma longa jornada!






      Sabe quando você aprende uma nova palavra e começa a usá-la o tempo todo, muito provavelmente errando o contexto, mas usando-a mesmo assim por puro prazer? Pois, estou com a sensação que aprendi a palavra “jornada” ontem – o que explicaria o fato de eu não me cansar de pensar nela.

          Uma longa leitura de um livro, uma viagem particularmente cansativa, dentre outras ocupações do meu cotidiano, a meu ver, tomaram, recentemente, uma nova forma para mim e passei a encará-las como pseudo-jornadas emocionais.

        Tudo começou há uns dois meses quando eu reservei um domingo inteiro para assistir um seriado, apesar de todos os compromissos e deveres pendentes. O tal se chama Big Little Lies (não, não é Pretty Little Liars!), e além da promessa de ser muito bom, soube que em apenas 8h eu poderia ver toda a primeira, e última, temporada. Elogios à parte, que não vem ao caso neste texto (É ÓTIMO GENTE, ASSISTAM!), quando acabei, fiquei com aquela sensação de vazio após a leitura de um bom livro. Toda a história e desenvolvimento dos personagens se tornam tão profundos que parecia inacreditável que tudo o que vi foi em apenas um dia. Só consegui identificar meu sentimento quando a tal palavra surgiu em minha mente e representou bem o que eu sentia: eu e todas àquelas personagens passamos por uma longa jornada, e não tem como voltar ao ponto de partida da mesma forma que a deixamos.

         Desde então, ao passar por experiências transformadoras (mesmo que pequenas), que mudam, ou pelo menos abalam a minha percepção, me imagino tendo acabado de cruzar um longo caminho, e fica até engraçado quando me recordo de uma fato que aconteceu num passado tão próximo (tipo, ontem), mas que permanece aquela sensação de que ocorreu a bastante tempo.

         Saindo um pouco dessas ideias viajadas e confusas, daqui para a frente trarei um papo um tanto mais exemplificado, para que vejamos se eu sou louca sozinha, ou se mais alguém sente essas vibes por aí.

          Para quem tem o dia-a-dia corrido, tente imaginar o que almoçou no dia das Mães, ou ainda no Domingo de Páscoa, que tal?!Parece distante? Muita coisa aconteceu de lá pra cá, não é verdade? Ou que tal os desdobramentos na política nos últimos dois meses? Será que faz tanto tempo assim, ou é só a nossa percepção de tempo que está ligeiramente abalada pelos tombos da rotina caótica?

         O que me despertou para escrever esse texto de hoje – e muito obrigada por isso, que eu já não aguentava mais de saudade daqui – foi uma leitura particularmente longa que eu fiz do livro “Eat Pray Love” (Comer, Rezar, Amar) de Elizabeth Gilbert. Antes de chegar nas últimas cinco páginas do livro, a palavrinha jornada (de novo ela) não parava de gritar na minha mente. Tudo nesse livro respira jornada. Definitivamente as viagens geográficas, emocionais e espirituais que a autora relata no livro, não receberiam melhor definição do que serem interpretadas como uma verdadeira jornada/aventura. No entanto, apesar de ser em proporção menor, para mim também foi. Mesmo já tendo o livro há um bom tempo na estante, resolvi começar a lê-lo em torno do dia 19 de maio, de 2016! Ou seja, ao encerrar suas últimas linhas ainda há pouco, levei um pouco mais de um ano para finalizá-lo. Parando dois segundos para recordar tudo o que eu vivi nesse período, e imagino que vocês também, é indiscutível dizer que todos nós passamos por uma boa e longa jornada. Nada mais justo para o livro que exala essa atmosfera, e que enfim conseguiu me deixar com a mesma sensação em mãos.

        Voltando ao livro aqui em questão, o coitado foi abandonado algumas vezes e trocado por outros livros, o que justifica a minha looonga leitura. Dividido em três partes, a história se passa na Itália (comer), na Índia (rezar), na Indonésia (amar) e nas memórias da autora. Ambas a primeira e última partes são uma delícia de se ler, porém a Índia tem passagens muito densas que exploram as temáticas principais dessa história: a espiritualidade da autora, a sua reconstrução e desenvolvimento emocional. A leitura dessa etapa pode ser uma tarefa insuportável, ou proveitosíssima, depende do humor de quem está lendo, de suas crenças e do momento certo. Demorei, mas gostei muito de ter lido levando esse tempo necessário, assim consegui extrair o máximo de significado das palavras da autora. Recomendo a leitura, e espero poder dizer o mesmo do filme, que enfim poderei assistir.

        Pensando mais uma vez no livro, posso destacar um grande ponto: YOGA. Esta prática, que permeia a trajetória da autora, aliada a prática de meditação, também entrou na minha vida, só que através de uma aplicativo de celular, no começo do ano passado. Apesar de eu não ter conseguido manter uma prática regular, como no começo, ela continua bem presente e já posso dizer que consegui desenvolver pontos que antes não achava possível: como quando me vi capaz de realizar (graças à muito treino de alongamento, pilates e jiu-jitsu,) cambalhotas para frente e para trás (meu trauma de infância) e posições invertidas assim: 
 
         Praticamente não sei nada sobre Yoga, e lendo o livro vi que sei ainda menos, mas não consegui deixar de acreditar nem por um minuto em toda a transformação que ocorre na vida dela graças à essa prática, além da própria medicina oriental. Do pouco que sei, me permito pensar que a yoga trabalha com o nosso corpo e pode sim ser capaz de melhorar nossa saúde, alongando e desenvolvendo músculos, controlando a respiração, regulando nossos sistemas e fazendo corpo e mente funcionarem em perfeito estado e harmonia. Acredito, pois vejo resultados na saúde e disposição diária; na minha prática de esportes; e principalmente, ando experimentando sensações de bem estar e desestresse, mesmo quando o dia não colabora, desde que comecei a realizar breves práticas de meditação (imagina se eu fizesse mais?!). Parece difícil de acreditar, mas também não sei se há explicações lógicas o suficiente para explicar o funcionamento de nosso corpo e cérebro, abrindo espaço para acreditarmos, por exemplo, que às vezes trocamos um abraço que nos deixa super feliz, e outros com personas non gratas que te deixam, logo após, a noite toda com dor de cabeça?! Fica difícil não acreditar em energias negativas/positivas circulando pelas pessoas, e que elas podem muito bem serem descarregadas no chão durante as práticas de meditação, ou recolhidas quando boas. Um amigo, há muito tempo me alertou para não fazer massagem sem ter os dois pés no chão, para a energia fluir e não sobrecarregar você. Como não irei acreditar?!

*Jornada jornada jornada jornadas*

         Ufa! Com essa palavra berrando em nossos ouvidos e nos lembrando de sua presença, na trajetória pessoal que percorremos diariamente, não posso deixar de me atentar para o fato de que ela parece estar na minha cabeça só para me alertar que ainda há muito caminho a ser percorrido esse ano, que coincidentemente ou não, está se transformando em um ano recheado de grandes viagens para mim. Dessas futuras jornadas, só espero que me rendam muitos frutos fotográficos e escritos à serem compartilhados com vocês.


Namastê