Inicialmente o título desse texto de hoje era para ser “Mochilando pela América hispano falante”, no qual eu começaria falando de detalhes práticos da viagem etc. Após dias sem tocar no texto, percebi hoje que teria que deixá-lo mais emocional, tal como essa viagem foi, e a mudança viria a partir do título. Como toda viagem de volta, foi especialmente difícil dar adeus à essa.
Ainda no começo do ano, quando estava resoluta em finalmente juntar coragem (e cacau) para um mochilão no exterior, parti para a escolha do lugar. Entre as opções que pensei, o país poderia ser de língua inglesa ou espanhola, e por motivos de força maior (sim, dinheiro mesmo) me ative a fazer o tal mochilão pela nossa América do Sul.
La preparación
Alguns fatores foram chave para a escolha do lugar. Queria um lugar lindo, barato, e de certa forma seguro, para que eu, uma mulher, pudesse fazer uma viagem só e um tanto que tranquila. Temos muitas opções ótimas, aqui bem pertinho de nós, e levando em conta minha preferência por uma paisagem mais urbana, todos me recomendaram Buenos Aires. Bom, eu sou um tantinho apaixonada por futebol e sentia uma rivalidade ridícula pela Argentina, de tal forma que tinha até uma certa implicância com o país, mas como este parecia ser o destino ideal para minha viagem, acabei topando passar dez dias lá.
Lá no começo, ao pesquisar o preço das passagens aéreas, descobri que as taxas aeroportuárias são altíssimas para Buenos Aires (que a partir de agora chamarei de BA), o que deixava o preço da passagem aérea um tanto salgado. Então fiz a seguinte jogada: coloquei a ida para lá e a volta por Montevidéu. É claro que nos fins das contas sai mais caro, porque tem a despesa de atravessar o Rio de la Plata, que separa os dois países, a hospedagem mais cara nesse último – no entanto pensei que assim daria pra conhecer dois países de uma só vez, um gasto com prazer, e não com taxas absurdas.
Como eu estaria chegando num ponto, e voltando por outro, recalculei minhas datas para dividir entre as duas cidades. Vendo na
web que BA tinha muito mais pontos turísticos, optei por 6 noites na capital portenha, 3 noites em Montevidéu, e o último dia para o regresso.
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| Bairro da Recoleta, Buenos Aires -ARG |
Alguns compromissos me fizeram escolher novembro, que se mostrou uma data ideal, de clima agradável (primavera), um pouco antes da alta temporada (melhores preços), pontos turísticos menos concorridos, e um grande bônus: os jacarandás ficam com flores violetas, e tem vários espalhados pelas ruas e praças das duas cidades. Lindíssimo!
Apesar de não ter me apaixonado de imediato pelos meus destinos, com o passar dos meses, conforme fui pesquisando mais sobre os lugares e chegando mais perto do dia da viagem, deixei o Brasil tendo certeza que iria adorar conhecer, em especial BA, e já segura de que um dia retornaria lá com minhas amigas (sim, estava ainda no caminho de ida!!).
Conhecendo la cultura
Antes de me aprofundar no texto, gostaria de frisar dois pontos:
O 1º é que o sonho de viajar, para qualquer lugar que seja, parece muito longe da realidade de muitos, mas não é tão difícil assim. Ele requer preparação e dedicação, e conforme mais viajamos, mais fácil fica. Recomendo reservar e pagar o quanto antes as despesas de passagens e hospedagem – no caso, um hostel (albergue) tende a custar uns R$ 30 a R$40 por noite, o que te faz gastar por todas as suas diárias, o mesmo preço de uma em um hotel comum. Para as despesas no local, sugiro estipular um valor para refeições + transporte + compras + gastos emergenciais que você gastaria por dia em uma cidade grande (capital) no Brasil. Se o destino for na América do Sul, dá pra levar real para trocar quando chegar lá; se for mais distante é melhor levar dólar ou euro, para trocá-los pelo dinheiro local quando chegar ao destino.
O 2º ponto é que eu, uma típica virginiana (um tanto neurótica), fiz um bom estudo dos lugares e dicas que considerava mais interessantes em BA, separando-os em listas e até mesmo em um cronograma do que visitar. Isso não me atrapalhou em fazer mudanças ao chegar lá, adicionando e cortando lugares, todavia me ajudou a otimizar o meu tempo, verificar os horários e dias de funcionamento de cada lugar, reunindo por localizações o que visitar e não deixar de ver o que mais me interessava – além de ajudar na análise dos mapas. Também ajudou para que eu escolhesse o melhor lugar para me hospedar e
tals. Fica a dica, para quem não quiser ir tão perdido para o seu destino. Em Montevidéu, por exemplo, minha pesquisa foi bem menor, e percebi isso ao chegar na cidade e me encontrar com mais tempo livre.
De um tempo para cá, venho acompanhando o cinema argentino, e vi excelentes filmes deles, tais como: “Un Cuento Chino”; “El Secreto de Sus Ojos”; “Relatos Salvajes” e “Nueve reinas”. Separei alguns para assistir umas semanas antes da viagem, dentre eles o filme brasileiro,“La Vingança”, que parece bobo, mas diverte (e me alertou para pesquisar algumas gírias da Argentina), e o musical “Evita”, que conta a história de Eva Perón, interpretada pela Madonna. O único problema ao ver esse filme, foi que me apaixonei instantaneamente, e acabei não vendo mais nenhum outro. O musical pode não ser tão bom assim, mas me impressionou pela sua história e a paixão dos argentinos por essa figura – que mais à frente irei comentar novamente. Fora que tem três músicas imperdíveis: o ícone
“Don't Cry For Me Argentina”; a linda e premiada “You Must Love Me” e o delicioso bolero
“I'd Be Surprisingly Good For You”.
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| Paseo de la historieta - San Telmo |
É muito legal pesquisar um pouco da história do lugar, personalidades importantes, filmes etc., para criar uma conexão maior com a cidade. Pesquisando sobre a literatura, um nome se destacou, tanto aqui, quanto ao chegar lá: MAFALDA!
Nas ruas de Buenos Aires, três mulheres mandam em todas as banquinhas de artesanato, bancas de revistas, camisetas,
souvenirs e por aí vai: Evita, Mafalda e a mexicana Frida Khalo. Dentre os homens, vi Maradona e um pouco do Messi, mas tive a impressão que as meninas são ainda mais populares.
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| Evita - Av. 9 de Julio, BA - ARG |
El viaje
Primeira parada: BA – Buenos Aires
Chegado o grande dia, parti para minha viagem com um mochilão pesando apenas 8kg, mas com todo o necessário para os 10 dias na América Latina. Peguei um voo para um dos aeroportos de BA, o Aeroparque, que está muito mais próximo do centro, e com uma bela vista do Rio de la Plata, na orla bem à frente. No aeroporto já fiz a troca para os pesos argentinos e peguei um mapa da cidade no Centro de Atenção ao Turista. Peguei um táxi lá, e apesar dos alertas sobre alguns passarem notas falsas e outras malandragens, o que me deixou bem apreensiva na chegada, tive muita sorte: ele era simpático, conversamos, me deu dicas de como me localizar por lá, e me explicou sobre a diferença entre pegar a rota mais rápida e pagar o pedágio, ou ir por outro caminho mais longo e acabar gastando o mesmo, demorando mais.
Escolhi ficar no microcentro, no bairro de San Nicolás, no Hostel Portal del Sur. Nesse ponto, fiquei a alguns passos dos principais pontos turísticos da cidade, tanto que pude fazer tudo que queria, em 6 dias, apenas pegando 3 metrôs, ônibus ida e volta e táxi na chegada e partida – o resto foi andando muuuito!
Para a escolha do hostel foi necessária uma longa pesquisa, porque tem mil opções, e cada um parecia ser melhor do que o outro. Optei por esse, por ter mais pontos que eu considerei importante, além de ter uma aparência bem aconchegante, dos típicos hosteis que você consegue fazer amizade, e pegar muitas dicas na recepção. De ponto negativo, foi que eu contava que teria café da manhã incluso, mas chegando lá me falaram que recentemente mudaram o regulamento, e eu teria que pagar por fora. Um pequeno imprevisto, que teve suas vantagens, pois um dia eu experimentei uma padaria local, noutro comi no mercadão de San Telmo, assim conheci sabores diferentes – em geral comi o café de lá, que era muito muito bom.
Aos meus amigos que não conhecem um hostel, aqui vai uma breve explicação: geralmente é um casarão um tanto moderninho (
hipster), que te dá o café da manhã e uma cozinha equipada para que você possa cozinhar as outras refeições. Tem muitas áreas em comum, com TV e outros atrativos; os quartos podem ou não ter banheiro; você pode escolher se fica em um individual, duplo ou triplo, ou coletivo (em geral de 4, 6 ou 8 camas/beliche). Esses quartos tem sempre um armário para você guardar suas coisas, sem esquecer de levar um cadeado para trancá-las. Ás vezes eles cobram o aluguel de toalhas. O mais importante é que você pode escolher se quer um quarto misto ou apenas feminino.
Eu fiquei muito apaixonada pelas pessoas que conheci lá. Muito simpáticos, e de todas as partes do mundo: França, Colômbia, Uruguai, EUA, Inglaterra, Austrália, Nova Zelândia, Canadá, México, Nicarágua, Alemanha, Holanda, Itália, Brasil – isso para falar só dos que eu conversei com. No começo achei muito difícil conciliar o ato de pensar, falar e viver o espanhol por lá, e ter que usar o inglês com os gringos que não falavam castelhano – a mente embaralhava e saía uma palavra em cada idioma – uma verdadeira torre de babel. Depois de alguns dias, peguei a prática e consegui administrar isso melhor. Um grande alívio.
Vale destacar, aos marinheiros de primeira viagem, que hostel e hotel se diferenciam muito mais do que apenas por um “s”. No hostel, ao dividir o quarto com alguém, você tem que tomar muito cuidado para respeitar o espaço do outro: não espalhar suas coisas, não incomodar com luz e barulho, ser breve no banheiro etc. Cuidado para você não ser o chato do hostel!! Conversando com o pessoal, vi que logo se destacavam aqueles que não falam com ninguém, ou os que são inconvenientes demais no quarto. Fica muito feio, todo mundo percebe, e você acaba perdendo uma das melhores experiências: bater um papo com a galera. Quer privacidade? Todo o conforto e limpeza dos serviços de quarto? Mete a mão no bolso e vai para um hotel mesmo.
Nesse hostel, eles topam serviço voluntário, então tem uma galera muito gente boa que trabalha e mora por lá. Um dos pontos altos da viagem foi conhecê-los e praticar bastante o espanhol com eles. Na cobertura tem um bar muito tranquilo, que você pode frequentar, beber, comer, ou só ir para olhar o pôr-do-sol (quase às 20h) e congelar com o vento frio da noite.
A cidade
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| Pz. de los dos Congresos - BA - ARG |
Cheguei no fim da tarde na cidade, mas já meti a cara na rua. Fiz uma ótima caminhada pelas lindas avenidas e praças até a belíssima livraria
El Ateneo. O centro da cidade é lindo, cheio de placas, polícia, prédios lindos e conservados, sem contar as praças muito vivas – notei que o nativo aproveita muito elas, fazendo piquenique, sentados nos bancos, ou dançando com os amigos. Sempre muito limpas, com belas árvores e flores. É prazeroso andar pela cidade, conhecendo a arquitetura local e um pouco dos hábitos dos argentinos. Pela quantidade de pizzaria, cafeteria e mercadinhos (cheio de morangões) que vi pelos caminhos, acho que me identifiquei bastante com o paladar deles.
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| El Ateneo |
Essa livraria,
El Ateneo, fica em um antigo teatro, conservando a sua estrutura, e conta com uma cafeteria bem no seu palco. Lá comi minha primeira empanada, típico pastelzinho da região, com vinho. Livro mesmo só comprei na ótima
Livreria Cúspede – o que não falta na cidade são livrarias, tanto em BA quanto Montevidéu – dando de 10 a 0 no Brasil (e também na China, que era difícil achá-las!).
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| Sabores portenhos |
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Dos alfajores, famoso doce de lá, aprovei o famoso Havana, e também o Jorgito. Das empanadas, a melhor foi a do restaurante
El Sanjuanino. Para almoçar, andando por San Telmo, dá para encontrar restaurantes
self-service, mas sugiro que comam numa pizzaria. Nelas, além dos pratos serem deliciosos e de bom preço, também não cobram nenhuma taxa extra. Indico o ravióli do
La Continental e o filé do
Pétalo Pizzeria. Claro, a estrela argentina é o famoso doce de leite. No café do hostel, no primeiro dia, pedi para o pessoal servir o doce porque ao invés de achar ele, só estava vendo na mesa um brigadeiro. Pois é meus amigos, o tal brigadeiro, era o doce de leite!!Para vocês entenderem o tanto que o bicho é escuro. E delicioso, lógico. Guardei o nome da marca que comi nesses cafés, a
Ilolay, e corri num supermercado para comprá-lo. O sorvete
Freddo, é ótimo mesmo. A bebida local,
fernet com coca-cola, é terrível. Tem gosto de remédio e não engana: é remédio!
Apesar de que viajava sozinha, eu tinha a opção de sair com o pessoal que conheci no hostel para a noite, mas optei por não fazê-lo. Não posso falar da noitada
porteña, mas o que sei é que 2h da manhã é uma boa hora para chegar na festa! Deve ser por isso que a cidade começa tão tarde: o café da manhã era servido às 9h, e se você sair às 8h, provavelmente vai encontrar um monte de lojas ainda fechadas. Pelo lado bom, as tardes são bem longas por causa do anoitecer que demora a chegar.
Fora do centro, mas ainda perto, os bairros La Boca e Recoleta são bons para ir de transporte público. Basta comprar o cartão
sube e carregá-lo sempre que preciso. As passagens são baratas e o transporte tranquilo. Detalhe, para ter noção dos preços de lá, basta dividir o valor em peso por 10, depois multiplicar por 2. Assim terá a quantia em real. Apesar de termos o dinheiro que vale 5 vezes mais, basicamente gastei o mesmo que gastaria no Brasil.
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| El caminito -La Boca - BA - ARG |
A cidade tem uma atenção incrível aos turistas, com os principais museus sendo de visita gratuita e vários passeios guiados de graça (cobram gorjeta) por ruas ou prédios históricos. O único passeio guiado que fiz foi o do bairro La Boca. Lá aprendi várias histórias sobre as origens da cidade, as principais personalidades (Eva, Gardel, Maradona, el Gauchito Gil), e dentre elas a mais emocionante: as “abuelas de la Plaza de Mayo”, mulheres que sofrem até hoje procurando os desaparecidos da ditadura militar.
O passeio incluiu uma visita à frente do estádio
La Bombonera. Nessa hora engoli em seco e fiquei quietinha, sem revelar para ninguém o tanto que desgosto desse estádio e do time do Boca Juniors – retrato de uma infância vendo jogos de futebol e quase infartando toda vez que o Brasil jogava por lá e passava sufoco com as trapaças do futebol argentino.
Ainda falando sobre o turismo, consegui uma infinidade de mapas, cada um mais detalhado do que o outro, e nos centros do governo, espalhados pelos principais pontos turísticos, recebi um ótimo atendimento, com direito a ganhar café, chá, acesso à internet, tomadas, bebedouro e uma garrafa d’água ecológica perfeita, que está inteirinha até hoje. As pessoas ajudam bastante na rua, perguntei bastante e sempre fui bem recebida – apesar da péssima fama de boçais e arrogantes que me alertaram, os argentinos não poderiam ter me tratado melhor! Encantadíssima.
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| Centro de Atenção ao Turista com vista panorâmica em Puerto Madero |
Para não ficar maçante eu citando os pontos turísticos, vamos ao resumão: é bom ir na região da Casa Rosada e do Obelisco, além do bairro de San Telmo, onde vai encontrar basicamente tudo o que é legal visitar. Não estava a fim de entrar nos prédios históricos, tinha muita energia para queimar andando, mas para quem tem mais paciência, as visitas são gratuitas e geralmente valem à pena para conhecer a história local. A feira de San Telmo aos domingos é um absurdo de grande e parada mais do que obrigatória! As ruas, que já tem a cara de Olinda no seu dia-a-dia, ficam ainda mais parecidas, porque parece uma grande festa de carnaval. Ruas lotadas, muuuuuita arte linda, e ótimas comidinhas.
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| E->D: Casa Rosada, Obelisco, Centro Cultural, Catedral |
Aos católicos, vale conhecer a lindíssima Igreja de Maria Auxiliadora y San Carlos, onde o papa Francisco foi batizado, e a Catedral da Plaza de Mayo. Assisti uma missa nessa Igreja, antes de ir para a feira de domingo, e foi uma experiência incrível. Adoro Igrejas históricas! Também vale a pena conhecer aos domingos (15h30), a Igreja Ortodoxa Russa, que fica em San Telmo. Conheci não só o lindo prédio, como também bastante sobre essa religião e a diferença entre ela e a Igreja Católica Romana (a minha).
BA é um lugar caro, que deve ser horrível de morar se você não tem grana. Assim como qualquer outro lugar que temos mil opções do que fazer, mas nenhum tostão no bolso. Em compensação, parece ser ótimo se você tem uma boa renda: achei tranquilo para uma grande cidade; organizada; limpa e não achei violenta. Impressões de turistas são ingênuas mesmo, me perdoem.
Um dos passeios mais famosos da capital portenha, é a visita ao Cemitério da Recoleta. Tirei um sábado para andar pelo bairro, conhecer o cemitério, a igreja ao lado, comer no
El Sanjuanino, ir ao Museu de Belas Artes e a grande feira de artesanato. Fui a um shopping, mas não deu muito certo, porque apesar de ter uma grande paixão por shoppings, toda vez que entrava em um por lá, tinha a sensação que estava perdendo meu tempo, pois ao invés de estar na rua, estava vendo algo familiar até demais.
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| "À memória do meu inesquecível esposo e a ti. Oh! DEUS meu... DEUS meu...meu coração e minha eterna pregação" |
O cemitério, merece um comentário a parte. Um passeio peculiar desses, muito facilmente cria um desconforto em seus visitantes. No meu caso, não tive medo de almas penadas, ou qualquer coisa do tipo. O que me deixou mal foi olhar as expressões das estátuas e ler alguns obituários, tão tristes, mais tão tristes, que não conseguia parar de pensar no sofrimento das pessoas que prestaram homenagens tão bonitas aos seus entes queridos. As esculturas são verdadeiras obras de artes, e lá nada mais é do que um museu à céu aberto – daí a sua popularidade nas visitas. Mas olhar as fotos das pessoas em alguns túmulos, ver alguns caixões à mostra, além daqueles paredões de gavetas, foi sinistro demais para mim em um determinado momento, aí foi uma luta desvendar o labirinto que o lugar é, e ir embora rapidinho. Nesse passeio, observei as estátuas que ia vendo pelo caminho, mas rumei para dois túmulos em especial: o de Evita (claro!) e o da moça vestida de noiva com o seu cachorro: conta a história, que essa moça morreu durante sua viagem de lua de mel, e o cachorro morreu ao mesmo tempo, em casa.
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| Las abuelas de la plz de Mayo |
Na feira, confirmei uma coisa que notei todos esses dias pelas ruas de Buenos Aires: a grande manifestação política. Vi tudo com olhos um tanto poéticos, é verdade, mas não deixei de achar lindo a força da manifestações deles – nada parecidos com a papagaiada feita no Brasil com direito a camisa da seleção, bonequinhos e pato gigante. As frases pintadas nas ruas, acampamentos nas praças, camisetas dos artistas locais, murais pintados, e até mesmos as esculturas nas ruas, me passavam uma grande impressão de luta e força, como que representando as classes mais pobres, avançando em defesa de seus ideais. Conversei com algumas pessoas nas ruas, gente nova ou de mais idade e, coincidência ou não, só encontrei pessoas com uma linha de raciocínio voltada para o fim das desigualdades. Isso inclui até mesmo os canadenses, franceses e americanos que encontrei (e por aí vai).
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| "Nos organizamos para voltar" |
Evita também tem que ter um parágrafo a parte. Sem falar do que não sei, apenas do que vivi e senti por lá, vi que o amor por ela ainda é muito forte – como entreouvi de uma guia no cemitério, seu túmulo é o único que recebe flores. Um prédio do governo que fica na Av. 9 de Julio tem o seu rosto estampado, uma homenagem muito bonita, que não cansei de admirar e que me foi muito útil por sinal, para localizar a minha rua. Seu rosto, retratado em camisetas e bolsas (e notas de 100 pesos), não parece ser algo somente para turistas, mas sim para o próprio consumidor local. Não podia sair de lá sem trazer um pouco dela comigo. Muito emocionante a sua força e pelo que lutava.
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| Tango na Feira de San Telmo |
Uns dois dias antes da minha viagem para Montevidéu, caí na besteira de ouvir uma das músicas do filme da Evita, e já comecei a sentir o aperto no peito de saudades da cidade. Tentei aproveitar ao máximo o que restava, mas não conseguia parar de pensar em quando poderia voltar e conhecer tudo de novo. No último dia, percebi que já não precisava tanto do mapa para andar, também já estava segura que vi todos os lugares que queria e poderia fazer dessa vez, por isso apenas aproveitei para fazer um
tour pelas principais ruas e praças que conheci, e rever meus cartões-postais preferidos, tudo em clima de despedida. A melancolia já estava batendo forte, e não me via preparada para ir embora dessa cidade charmosa, deixar as pessoas que conheci para trás, os hábitos que já estavam rotineiros, como tomar chá no terraço enquanto escrevia e segurava os papéis para não voarem com o vento congelante e furioso do anoitecer, ou o de demorar quase uma hora para comer um “simples” café da manhã todos os dias. Não estava nem um pouco pronta para voltar para casa e não ouvir mais o som maravilhoso do espanhol, pior ainda ter que me despedir dos amigos, com um nó na garganta. Apesar de não querer deixar BA, era um alívio saber que ainda teria Montevidéu pela frente, para arrastar o castelhano um pouco mais, e continuar saboreando as longas caminhadas em terras estrangeiras.
Próxima parada: Montevidéu
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| Praia de Pocitos |
Para chegar nesse novo destino, peguei um barco (o da empresa Buquebus), que já tinha comprado pela internet (usem o site Uruguaio, que sai mais barato do que o Argentino) a passagem de Buenos Aires a Colonia del Sacramento, depois integrado com um ônibus direto e da mesma empresa, de Colonia a Montevidéu.
A viagem de barco é ótima! O Rio de la Plata separa os dois países, parecendo um mar de água. Não notei nenhum balanço, nem incômodo do tipo. As bagagens são despachadas e os assentos não são marcados – por isso, se quiser ficar na janela, tem que ir cedo para a fila. Lá dentro tem uma lanchonete, loja e casa de câmbio. A cotação é terrível lá dentro, fiquei muito feliz em ter esperado para trocar meu dinheiro na estação de Tres Cruces, já em Montevidéu.
A parada em Colonia é
vapt-vupt, não dá para ver nada da cidade. Para quem quer passear por lá, sugiro comprar a passagem de barco só até Colonia, e depois pegar outro ônibus lá. Quem quiser também pode pegar o barco direto, BA – Mtvd, só paga um pouco a mais, chega mais rápido, mas perde o passeio pelo interior do país.
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| Orla de Pocitos - Montevidéu- URU |
Montevidéu é quase como uma cidade praiana. A orla é muito extensa, se não me engano, uns 20km ininterruptos. A água é escura, mas tem toda pinta de mar, com ondas, me deixando em dúvida até o último dia, se a água era de rio ou de mar. A única pista é que ela não tinha o cheiro de sal, e dito e feito: uma local me confirmou que era rio, mas com influências do mar.
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| Praia Ramírez - Mtvd - URU |
O ritmo da cidade é bem diferente da qual eu estava. Apesar de ser a capital do Uruguai, não parece ser violenta, e aparenta ser bem tranquila. Aqui, fiquei no Medio Mundo Hostel, no bairro Rodó, a poucos metros do Parque Rodó e da Playa Ramírez. Deu para fazer tudo o que queria andando, mas a cidade parece ser gostosa para pedalar, principalmente na enorme orla.
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| Praia Ramírez - Mtvd - URU |
Quando cheguei, estava enfrentando uma onda de calor desde o penúltimo dia em BA. Estava tão quente, que no dia seguinte caiu uma tempestade com direito a chuva de granizo! Aproveitei que por aqui também escurece tarde, e saí logo no primeiro dia para conhecer os arredores. Vi um lindo pôr-do-sol na praia, mas tão longo que deu tempo de ir andando até o shopping Punta Carretas, depois voltar para a orla novamente e ver o restinho do sol.
Algumas pessoas me alertaram que aqui era mais caro, mas confesso que achei basicamente a mesma coisa de BA. Aqui se usa o peso uruguaio, que é só calcular dividindo por 10, para saber o valor em real. Como não fiz tantos passeios, peguei um ritmo mais leve, consequentemente gastei menos, dificultando a comparação de gastos. Nesse hostel, o café da manhã estava incluso, e tinha uma geleia de morango e bolo de chocolate surpreendentes. A estrutura é bem mais moderna do que a do outro, mas por ser menor, tem alguns inconvenientes. Outra dica sobre hostel é a de tentar buscar por um que tenha áreas de convivência externas (principalmente no telhado) – com isso, há menos riscos de ser incomodado com o barulho de conversas ou cheiro de cigarro entrando dentro do quarto.
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| Av. 18 de Julio - Mtvd- URU |
Andei bastante pela cidade, que não tinha longas distâncias, e pude conhecer o seu centro histórico (
casco viejo) – muito gostoso de andar, com suas ruas de pedra e lojas de artesanato lindinhos. Planejei voltar ao hostel pela orla, para conhecê-la por inteiro, mas a tarde tava com o maior sol e não tem árvores na beira da praia. Não foi uma boa ideia, por isso deixei para andar pelo bairro de Pocitos e por toda a sua praia em uma manhã.
A internet recomendava comer o churrasco no Mercado del Puerto, mas chegando lá algumas pessoas falaram que não valia a pena, porque era caro e só para se aproveitar dos turistas. Vou dizer aqui, acho que vale a pena sim! Esse mercado, diferente do que eu pensei, é basicamente só de restaurantes, não vende frutas como imaginei, e com muito pouco artesanato. A bebida oficial do mercado é o delicioso Medio y Medio, que é uma mistura de espumante com vinho. Me apaixonei. Vale a pena comer lá, não só pelo sabor, como todo o ambiente.
No mercado, chama à atenção os funcionários convidando os clientes em português/portunhol, ou até mesmo sendo brasileiros. Com o apelo grande dos turistas brasileiros, eles estão bem preparados para nos agradar. No hostel, por exemplo, além de vários funcionários vindos do Brasil, basicamente 90% dos hóspedes também eram meus conterrâneos. No começo, fiquei um pouco chateada, porque estava numa puta dor de corno, me perdoem a expressão, pela minha saída de Buenos Aires e acabava vendo em Montevidéu, como os últimos resquícios desse universo hispanofalante. Chegar nessa cidade e me deparar com tanta familiaridade e conversas em português, me pareceram uma volta um tanto que precoce ao Brasil. Enquanto queria viver um pouco mais da cultura de lá, saborear um
grapamiel e praticar o idioma, recebi propostas de “pode falar em português mesmo” e “quer beber? tenho uma pinga de minas ali”. Era como se jogassem mais uma pá de terra.
Como uma grande amante do cinema que eu sou, ao entrar no shopping center tive uma enorme vontade de ir ao cinema uruguaio. Vi o cartaz do filme argentino: “Yo soy así, Tita de Buenos Aires” e apesar de parecer ser bem interessante a história, temi que não seria uma boa ideia cutucar meus sentimentos pela cidade portenha novamente. Bom, foi maravilhoso assistir ao filme! A história da Tita, uma cantora de tango, além de ser interessante, contava com canções e danças lindíssimas tornando a experiência o melhor possível. O final foi emocionante até demais, que me fizeram derramar lágrimas pela cena, mas já misturadas de saudade.
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| Praia Ramírez |
Montevidéu, mesmo recebendo um papel injusto de coadjuvante na minha viagem, finalmente começava a ser vista com olhos mais carinhosos. Andando pelas ruas do bairro de sandália havaiana à la praísta, tomando um sorvetão de doce de leite e creme de avelã, indo na direção da praia para esperar pelo pôr-do-sol, tinha um sabor de despedida bem mais agradável e satisfeito do que a anterior. Montevidéu é calma e passa essa
vibe tranquila e acolhedora. Um alívio para o turbilhão de emoções dos argentinos meio “italianados” que conheci. Fiz as pazes com a cidade, enquanto esperava o sol descer, quase às 20h, de casaco fechado e com os pés (congelando) na areia dessa praia tão peculiar.
Vamos aos finalmentes
A hora de dizer adeus chegou em pequenas parcelas. Na saída de Buenos Aires, ou melhor, nos últimos passeios que por lá realizei, já tinham o gostinho de despedida. Toda a viagem por Montevidéu, o ressentimento pela partida ainda marcante, incluindo quando tive a ideia “genial” de ver o filme da Tita.
Na saída de Montevidéu, já em um clima diferente – de antecipação pela volta para casa – só fez adormecer o sentimento que muito em breve retornaria.....na abertura da bagagem e vendo as recordações, por exemplo. Por alguns dias, as músicas, fotos e sabores que vieram junto com a mala, trariam novamente à tona a saudade por essa viagem. As leituras dos livros que trouxe prolongaram um pouco o sentimento, e até mesmo durante momentos em que buscava esquecer, como quando fui ao cinema ver o filme nacional “Entre irmãs” e me toca justamente um tango de Gardel no meio do longa!
Na minha universidade, teve por esses dias um evento internacional com a visita de estrangeiros sul-americanos e hispanofalantes, onde pude continuar ouvindo e falando um pouquinho dessa língua que aprendi a amar por esses dias.
Hoje, duas semanas depois da chegada, vejo que já não há mais porque prolongá-la, e sinto que estou pronta para realmente dizer adeus. Na verdade, adeus não. Um até breve é bem melhor!
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| Montevidéu - URU |