quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Aulas EAD: um parecer literário

 

Não me deixe só,

Eu tenho medo do escuro,

Eu tenho medo do inseguro,

Dos fantasmas da minha voz.

Vanessa da Mata


Assim que terminei de ministrar umas das minhas primeiras classes online, me veio essa música na cabeça. Achei curioso e me detive em sua letra. Assustada percebi que tudo tinha a ver com a sensação que tive durante a aula, não me leve a mal, elas não foram de todas ruins, mas deu um gosto amargo na boca, que demorei a identificar.

Foi o vazio. Os alunos, muito educados, desligaram suas câmeras e se emudeceram. A atitude oposta torna a classe um verdadeiro caos, como experimentei logo depois com uma turma de pequenos – o intenso movimento das câmeras, o zumbido de conversas e ruídos é de virar o estômago (possível labirintite despontando?). Então o que há de mal em uma sala silenciosa?

Simples, sua inaturalidade. Não existe turma de adolescentes silenciosos. O silêncio ali é irreal, uma turma castrada. No lugar de rostos, vejo uma tela escura tomada por nomes; no lugar de vozes, ouvimos o eco da própria voz e pensamentos. A insegurança dá picos absurdos, a voz vira fantasma, o escuro dá medo – tal qual a canção.

O encerramento dá um corte abrupto nas despedidas. Qualquer falha eletrônica impotencializa. Tudo filmado, tudo gravado, século XXI, bebê. O estômago contorce de angústia.

A carência e a solidão despertam, todos próximos, mas parecem ainda mais distantes. O que tantas mentes pensam e fazem, enquanto emudecidas tecnologicamente. E aqueles que não tem nenhum acesso, silenciados mais ainda estão.

Ora o vazio, ora parece que estou dentro de um táxi chinês: ministrando uma aula tal qual um motorista que dirige rodeado por LED’s de todas as formas – a diferença é que ele assim o faz naturalmente.

Infortúnios da vida pós-moderna, de quem reclama ainda que de barriga cheia.


18/06/2020

Camila Solino

domingo, 12 de abril de 2020

40tena

Está tudo bem.

Está nada bem.

Quarentena é conflito.

Talvez deste relato, você em nada se identifique. Pois muito bem, cada um passa por essa experiência de forma diferente. Uns muito mal, inumeráveis são os cenários ruins dessa situação, mas minha parca imaginação consegue citar duas: faltar os elementos básicos – comida, água, luz, higiene – ou ser atingido pela enfermidade assombrosa.

Me encontro dentre o grupo privilegiado. Família aparentemente em segurança – não sabemos o dia de amanhã, financeiramente estável, casa abastecida e com muita coisa para fazer. Como boa ser humano que sou, sempre me falta algo. Uma casa um tantinho maior, para fazer mil coisa mais, quem sabe?!

Primeiros dias foram, em geral, muito bons. Produtividade máxima. Estudando, aprendendo coisas novas, tudo com horário, “cantinho da leitura”, home office, dança, tv com sinal aberto, séries, filmes, violão. Sensação estranha na barriga, será o ensaio de uma gastrite nervosa? Googlei. Rolou umas mini saídas de casa para caminhada, duas vezes apenas, logo parei. Aí começa o problema. Atingiu um nervo não poder sair, a nova rotina tornou-se efetivamente uma – rotina – e claro, rotina estressa. Pequenas irritabilidades tornaram-se grandes. Escrever, ler, trabalhar, responder mensagens, dançar, comer, ler, dormir cedo, tv, mensagem, série, comer, aaaaa! Frio na barriga aumentando. Lendo cada vez mais, numa competição sem sentido, um livro não basta, quero ler tudo ao mesmo tempo. As manhãs que geralmente são mais produtivas, ficam pequenas para tanta coisa.

Claro que quem se cobra demais, iria fazer até pior nesse período.

Chateação no auge, um pequeno surto. Não quero encontrar um hd externo para colocar filmes. Pre-ci-so encontrar o hd externo. Mesmo sendo noite e tendo asma e alergias e ele provavelmente estar no armário cheio de mofo amazônico (sei lá se isso existe, mas falo da Amazônia, ainda em tempos de chuva e umidade 1000%). Coloquei uma máscara na cara e vasculhei tudo. Resultado: quatro sacos de lixos, uns tantos de roupas para doação e nada de hd. Até que foi terapêutico. No outro dia encontrei-o em outro lugar, rapidinho.

Produtividade caiu, o ânimo ainda mais. Culpa, essa aumentou. Sensação nervosa diminuiu, pelo menos.

Saí. Fomos para o sítio, no meio da tarde. Quebra de regras. Comprei sorvete. Desci do carro uns 500m antes da porteira. Liguei o som do celular. Corri em ziguezague e trotando, e corrida normal, ziguezague de novo. Respirei ar puro. Depois a melancolia bateu. Nada daquilo parecia verdadeiro – felicidade fabricada, não era real a alegria.

De lá posso ver o rio. Na playlist esquisita começou a tocar um jazz, e piegas-mente, estava a olhar a floresta e rio um tanto distantes. Fiquei mais triste.

Mas há alegrias também: jogos, florzinha da castanheira que amo, volta para casa.

Alguns deliveries de comida, fortunas no supermercado.

Insisti em algumas saídas de casa e claro que deu errado. O ar está extremamente carregado, de energia mais que negativa – contagiosa também. Dessa vez do sítio, senti alergias nas dobras do cotovelo, que me voltam todas as tardes. Noutra, saí de bicicleta e fiquei bastante impressionada com um rapaz pilotando uma moto que não parava de espirrar à minha frente. Outra vez, na mesma bicicleta, peguei um temporal na volta e na última, um carro fez uma curva no meio fio e passou por cima do meu pneu traseiro. Definitivamente, não saio mais com ela.

Me chateei com a nova mania das lives. Mas não por elas, propriamente e sim porque cheguei a uma simples conclusão, quando percebi que estava perdendo todas elas: no cotidiano pós-covid, perdia todas as saidinhas, e agora na quarentena, enquanto uns compravam bebidas para ver os shows ao vivo online (as lives) eu só fico sabendo através das fotos no dia posterior – uma eterna desinformada.

Gostaria de ter meu texto escrito, sem escrevê-lo. Queria o livro lido ao começá-lo. Gostaria do corpo de dois anos atrás, mas fico mole nos cinco primeiros minutos do exercício. Queria estar na Espanha agora, mas não nessa, a de dois meses atrás.

Ainda não consegui soltar a mão de minha última viagem, tampouco tive inspiração para escrever sobre ela. Sigo lendo os livros que trouxe, assistindo TVE e ouvindo Cadena 100. Vejo alguns filmes espanhóis e séries, ouço músicas, falo castelhano aqui e ali. O telejornal deles não para de falar do Corona (o nosso também não). As ruas, que nas minhas fotos estavam cheias, agora estão vazias. Uma tristeza completa. Em dia de recordes de mortes, caí na pilha e pensei naqueles que conheci. Entrei nas redes sociais dos albergues que fiquei, aparentemente tudo bem, fechados, mas bem. Conheci uma moça que morava na Itália e foi pra Madrid celebrar o aniversário. Não lembro o nome de sua cidade. Será que aconteceu alguma coisa com ela? Fiquemos sem a resposta.

Dá um vazio, não é?! Também estou sentindo. Dizem que o mundo não voltará a ser como antes. Sou cética. Não imagino as pessoas sendo menos má, egoístas, ambiciosas etc. E se elas continuarem assim, não vejo como o mundo seria melhor. Talvez o fato de continuarmos com um grande exemplo de absurdo e impunidade, que é o nosso presidente como um todo, que consegue ter ainda tantos apoiadores, fazer tanto trabalho, incentiva essa minha incredulidade.

Morreu alguém perto da minha cidade. Ainda ninguém por aqui. Na maioria do tempo não paro para pensar nas vítimas, apesar que essa acendeu uma luzinha vermelha no fim da mente, mas geralmente encaro tudo isso com frieza. Penso que se parar para pensar no sofrimento alheio, irei por um caminho sem volta. Desespero, medo, angústia e ansiedade? Estou evitando, obrigada. Prefiro mergulhar em egoísmo, e me alienar em falsa proteção antes a cair na tristeza que os números, que são vidas, ou melhor, atuais não-vidas, nos mostram.

Se você esperava chegar aqui no final do texto e ter compreendido alguma mensagem, sinto muito. Fiz um relato-desabafo, pois espero que eu não seja a única com esses tipos de pensamentos, reflexões e trapalhadas. Quase um mês de quarentena, dias bons, dias ruins, mas pelo menos dias para trás e pela frente. Esboço de um sorrisinho no canto da boca por tudo que deu para fazer e por estar no fundo tudo bem, porque sabemos o quanto poderia ser pior para a gente, pois está sendo pior para tantos...

Um dia, estava bem focada em tudo o que não consegui fazer. Mas nesse dia aprendi uma canção country que nem em meus melhores sonhos imaginei conseguir tocar. Então se é para deixar alguma mensagem, vou sussurrar aqui – foca nas coisas boas e segue em frente. Digo para vocês, mas principalmente para o meu eu-surtado interior.

Camila

Marabá, 12 abril de 2020.


terça-feira, 23 de abril de 2019

Uma voltinha no Sul

Na UFSM
Quase dez meses de atraso, enfim sento para escrever esse texto. Tive ótimas desculpas, como a conclusão da graduação, seleção do mestrado, busca de emprego... etc. etc.

Tudo balela. Tive mesmo foi medo. Um nervoso só.

Em junho de 2018 viajei pela primeira vez ao Sul do país. Última região do país para mim ainda desconhecida. Mais especificamente fui para o Rio Grande do Sul, passando uma noite em Porto Alegre e alguns dias em Santa Maria.

Entre os meus 10 - 11 anos, li pela primeira vez um livro de crônicas, Um país chamado infância, de Moacyr Scliar. Foi amor à primeira vista. Muitas crônicas lidas depois, tenho um amor incondicional pelos textos desse autor, assim como também pelas do Luís Fernando Veríssimo. Durante minha viagem, conheci outros dois escritores gaúchos – Martha Medeiros e David Coimbra. Como escrever um texto falando sobre a terra de cronistas tão maravilhosos?! Sem pressão alguma.

Essa viagem foi cheia de ineditismos. Pela primeira vez fui: para o Sul; para um lugar frio (e no início do inverno); dormi em um quarto misto de hostel; realizei uma viagem totalmente voltada para o estudo – outras que fui em São Paulo, por exemplo, confesso que fui mais interessada em turistar, e em Recife não conta, é volta para casa, de certa forma.

Porto Alegre 

Depois de cruzar o país de ponta a ponta e passar o dia em aeroportos, cheguei exausta em POA. Pra dar sorte, já fui lendo o livro que me acompanhou durante toda a viagem: Um centauro no jardim, do Scliar. Conversando no Uber sobre escritores de lá, Joel, o motorista super simpático me recomendou o autor Coimbra, além de bares para ir e lugar para comer pasteizinhos que todo mundo aqui parece adorar (achei uns pastéis assadinhos que parecem com a empanada argentina, e prefiro muito mais que os fritos, já tão comuns aqui na minha região).

Aero de POA
Cheguei à noite e logo de manhã cedo teria que pegar o ônibus para o interior. O tempo e a disposição estavam curtos, mas me aventurei pelas ruas geladas até um shopping nas redondezas do hostel que reservei para dormir. Chegando lá, dei um pulo em um mercado, que estava bem lotado. Muita gente comprando vinhos, pinhão e outras coisas que não me lembro mais agora, mas que na hora me deram uma sensação engraçada, de que parecia que todos estavam comprando coisinhas típicas da região só porque eu estava ali os observando, ao contrário de mim, que no meu dia-a-dia quase só como comidas típicas quando tem visita-turista.

Ainda no mercado, ouvindo as vozes das pessoas conversando, toda hora levantava a cabeça para ver se era um conhecido meu. Os sotaques gaúchos não soavam nem um pouco estranhos para mim, já que em Marabá sempre tive amigos e conhecidos de lá, dando a leve impressão que eu nem havia saído da minha cidade. Por ter uma certa facilidade com sotaques, acabei na volta para casa passando o final de semana inteiro falando em gauchês.

Encarei às ruas novamente na volta pro hostel. Que frio!! A rua estava completamente gelada, devia estar em torno de 2ºC, logo eu, recém-saída dos 26ºC durante às noites paraenses. Parecia um guarda-roupa ambulante, com inúmeras peças de roupa, que estupidamente pensei serem suficientes. Lembrei de minhas andanças por São Paulo na mesma época, não podendo se comparar com o clima daqui, mas que já me pareciam tão frias na época. Apesar dos pesares, estava amando andar por um clima diferente, me imaginando num filme de Natal Nova Iorquino, ou algo parecido. Felizmente, ou infelizmente, em 5 minutos cheguei ao hostel e meu caso de amor com o frio tornou-se um pesadelo.

Hostel Rock

Me hospedei no Hostel Rock, pertíssimo da rodoviária. Pela primeira vez fiquei em um quarto misto e com capacidade para 9 pessoas! Um guri simpático, que estava morando provisoriamente por lá conversava alegremente comigo, enquanto eu me organizava no meu beliche. Por dentro estava adorando o papo, mas pena que o cérebro parecia letárgico e aos poucos ia desligando de tudo. Estava em uma situação tão triste, que o rapaz teve dó de mim e me cobriu com um edredom a mais, para ver se eu chegava viva à manhã seguinte. Como era de se esperar, com a minha sorte, atacou a asma, dormi e acordei várias vezes, com pavor de perder o ônibus da manhã seguinte e não conseguia me mexer direito. Nada romântico.

Hoje, relendo as minhas notas de viagem, encontrei uma pequena nota destacando a água natural que botei na cabeceira da cama e cada vez gelou mais e mais (ainda não me acostumo com a temperatura das bebidas fora da geladeira em cidades frias. Experimenta fazer isso no Norte!), enquanto que nascia em mim um desejo febril de só tomar chá e água fervida por toda a minha estadia aqui.

POA de manhãzinha
Cedinho acordei, tudo escuro. Esperei sair o sol e fui para a rua andar o curto espaço até a rodoviária. Tudo estava conforme o planejado. Menos o frio. Na rua as pessoas falavam e saiam vaporzinho da boca. Um luxo, estava me sentindo na própria Europa.




Tomei café da manhã na Big Mix, uma lanchonete da rodoviária, de mais de 40 anos, com cara de diner Americana. Claro, não botei fé pela minha larga experiência em lanches de rodô. Quebrei a cara, no bom sentido. Tomei um dos melhores cappuccinos, com croissant recheado de chocolate. Comecei minha jornada nos doces maravilhosos gaúchos. Com as passagens já compradas desde o aeroporto de Porto Alegre, parti para Santa Maria.

Na rodô

Santa Maria

Na estrada, vi vapor saindo das águas, a grama esbranquiçada e, mais tarde um pouco, da cor marrom. Muitos pinheiros e gado daquela raça europeia, gordinho e peludo.
Na estrada, tudo descongelando

O motivo da minha viagem foi para participar da Escola Verão-Inverno do PELSE, parceria entre a UFSM, a Universidad de la República Uruguay e a Asociación de Universidades Grupo Montevideo. Assim, minha estada em Santa Maria foi marcada, inteiramente, por dois pontos: estudo e, especialmente, amizade.

Os dias, recheados de risos, passeio pelo centro histórico, shoppings, cafeterias, andanças pela grande e linda universidade, xerox e scanner de livros, fizeram a semana passar em um minuto. Noites curtas de conversas e trabalhos, acabei conhecendo um pouco da história dessa cidade, formada por famílias Belgas, Italianas, Alemãs etc. às vezes com todas essas descendências em uma família só. Tantas línguas e culturas circulando em um só povo, que conservam ainda muitas tradições, apesar do que ficou perdido pelo caminho, o que foi muitas vezes prejudicado por proibições políticas ridículas – como os estrangeiros não poderem falar a sua língua materna, fazendo com que essa herança linguística ficasse perdida para as próximas gerações.

Fotos do Evento
Participando de um congresso de Linguística, não pude deixar de perceber o quanto as línguas estrangeiras circulam com facilidade por ali. Me surpreendi ao ver que o Inglês e Espanhol às vezes parecem ser idiomas básicos e o comuns, acrescentando-se aí diversas outras línguas como o Francês, Alemão, Italiano etc., muito provavelmente pela proximidade geográfica e cultural com os países hermanos, assim como a influências dos primeiros moradores europeus.

Ainda sobre as diferenças que me chamaram à atenção, em um dos passeios que fiz, ao conhecer um antigo teatro da cidade, na hora comparei com os que conheci no Norte-Nordeste. Essas três regiões (N – NE – S) tiveram colonizações tão diferentes, mas um simples teatro nos aponta a história na prática: de um lado, todo o luxo dos grandes prédios frutos do extrativismo (cana, drogas do sertão, borracha, madeira...) mais ao Norte do país, enquanto que no extremo oposto, a simplicidade representa as colônias de povoamento que também chegaram ao país. Resultados dessas diferentes formas de povoamento ficam claros à medida em que comparamos as diferenças culturais, políticas, organizacionais e tantas outras dentre as duas grandes regiões.


UFSM

Por tamanhas diferenças, acabei remetendo, a medida em que conhecia os lugares, a diversas paisagens novas, mas com lembranças de outras terras, em sua maioria estrangeiras. A começar pelo clima, tão estranho à mim, dava a sensação que estava em outro país – mas falando Português! Logo na chegada, vi alguns prédios que eram a cara de Montevideo. – Um pequeno parêntese aqui, pois acho que nem vale comparar o Rio Grande do Sul com a Argentina ou com o Uruguai, até porque eles têm tantas coisas parecidas, que vão desde o hábito de falar tche, o chimarrão, as paisagens, o clima, o pastelzinho, a figura do gaúcho tradicional, os pampas, o gado e por aí vai.

Santa Maria ou HK?!
Das lembranças mais bizarras, juro que recordei de Hong Kong ao chegar em Santa Maria. A cidade é envolta por diversos morros (morro ou serra?! Desculpem minha ignorância geográfica), o que a torna muito fria no inverno e extremamente quente no verão. Essa paisagem de morros me remeteu aos impressionantes que vi e amei na China.


UFSM
“Viajando” um pouquinho menos longe, ao conhecer a linda Vila Belga, me lembrei na hora da Cidade Alta de Olinda-PE, com as casinhas juntinhas e coloridas, e o calçamento de pedra (já andaram de carro em rua de pedra? Oh barulhinho gostoso!). A própria UFSM me lembrou bastante uma versão maior do campus de Recife da UFPE. A propósito, a Universidade de Santa Maria, que parece um mundo, tem uma árvore mais linda que a outra – e isso é porque eu fui no inverno. Boatos de que na primavera é mais bonito ainda. Achei muito legal as pessoas andando por lá com roupas e objetos contendo o nome/símbolo do curso ou da universidade. Apesar das recordações mais esquisitas, outras nem tanto, só foram sensações de déjà vu boas, em um primeiro momento, que adicionadas ao que eu de fato estava conhecendo, só me fizeram desejar voltar o quanto antes para lá e conhecer as milhares de coisas tão boas e diferentes que têm por todo o estado.


Cuca
Os dias foram regados a chocolate quente, chás, muito vinho (principalmente da região), conversas na lareira, e até experimentei (e gostei) do famoso chimarrão – não estranhei por já estar acostumada ao chá verde. Pinhão na panela de pressão; massas (CANELONE!); tortas; churrasco gaúcho; vegetais saborosos; cuca deliciosa de uva – a cuca é tipo um pãozinho caseiro, tendo as versões doce e salgada. 






 Falando verdades sobre o frio

Na lareira e forno à lenha
Durante esses dias, aprendi a amar verdadeiramente três coisas: aquecedor, cobertor e lareira. Brincadeiras à parte, tive o azar, ou sorte de chegar em uns dias de frente fria. Me surpreendi ao ver os próprios gaúchos reclamando do frio e andando agasalhados. Ufa, não estava sozinha nesta fria. No meio da semana, a temperatura deu uma trégua, e saiu um sol mais quentinho. Não poderia ter tomado uma atitude diferente: deitei no sol, bem lagarto. Inclusive saí botando umas roupas também no sol, para depois vestir tudo quentinho.

Despreparada, no primeiro dia tirei os sapatos e fiquei andando de havaianas e meias pela casa. Na minha cabeça, seria um absurdo andar de tênis. Minha amiga me socorreu, me emprestando uma botinha especial para andar em casa, mas, claro, não saí impune dessa, e resultou na gauchada toda rindo da minha estratégia ruim. Minha habilidade de sobrevivência no frio vai de mal a pior. Uma grande verdade sobre o frio: as roupas são lindíssimas!!E agora já aprendi que só posso usar lá, algo insuportavelmente quente, impensável de se usar no Pará, nem no dia mais frio. Um lado bom da viagem: estava com um piercing querendo inflamar, que ao chegar em POA doeu como um inferno – sim, a inflamação já sabia que iria morrer! O que estava tentando sarar por meses, em dois dias ficou bonzinho. Em compensação, caí de bicicleta algumas semanas antes de viajar, machuquei o joelho e ele piorou muito no tempo frio. Nem tudo é mals – o frio emagrece! Só tem que tomar cuidado com sapato fechado por muito tempo, hidratar muito a pele, boa sorte para lavar o cabelo com a água pelando de quente, e cuidado com qualquer cortezinho que vai te aborrecer muito. Pronto, feito o guia para iniciantes no frio, como eu. Provavelmente você que já é acostumado e está me lendo agora, deve estar só balançando a cabeça, espero que de cima para baixo.

Não comprei nada. Mentira, comprei um mini chimarrão pra me lembrar dos amigos. Foi mesmo uma viagem de estudos. Voltei inspiradíssima e tremendamente produtiva academicamente.

Arrastei os pés para ir embora. Difícil arrumar o mochilão. Ruim a despedida.

Finalizo com um recorte do meu diário de viagem:

“Tenho que escrever um texto bacana sobre aqui, terra de tantos escritores. Não foi viagem turística para conhecer lugares e sim pessoas e culturas”. Amei.


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Redescobrindo Recife

Olinda, com Recife ao fundo - 2015
Ás vezes emperramos em um texto de forma impressionante. Fiquei tão ansiosa em contar sobre minha última viagem, que as indas e vindas nesse texto quase me impediram por completo de um dia publicá-lo. Felizmente e finalmente, hoje ele sai!!

O tal texto, que tanto vos falo (e de onde falo) conta um pouquinho da viagem que fiz com minhas amigas em dezembro do ano passado. Dessa vez, mudei um pouco minhas andanças solitárias e fui com elas, que iam pela primeira vez para a (minha) velha e conhecida Recife – PE. Com a nobre missão de apresentarmos um trabalho acadêmico (tá, parei), passamos seis dias desvendando e (re) desvendando essa cidade pernambucana.


PREPARATIVOS

Como vocês já devem imaginar, Recife é uma grande cidade turística e, para alívio dos turistas, oferece boas informações para os seus visitantes. Como não dá para citar aqui tudo o que tem pra fazer por lá, recomendo vocês a buscarem os pontos que mais interessam antes, e assim que chegarem lá, irem a um Centro de Atendimento ao Turista: tem em vários pontos da cidade, mas é melhor garantir logo uns panfletos e mapas no que fica no aeroporto mesmo.

Feira da Sulanca, Caruaru, 2016.
Dependendo de suas preferências de passeios, é bom conferir o que tem pra fazer na capital e no interior: Recife e Olinda são coladas, assim como as praias do Litoral Sul (que incluem Porto de Galinhas); o interior se divide em Zona da Mata, Agreste e Sertão com diversas opções de passeios, como as rotas de engenhos, de artesanato, etc. Na Páscoa, é legal visitar o espetáculo da Paixão de Cristo na cidade de Nova Jerusalém; no São João (que dura o mês de junho todo), as principais festas são na cidade de Caruaru, e lá você pode ainda conhecer suas grandes feiras. Minhas preferências são pelos produtos artesanais (enfeites, brinquedos) e os acessórios de couro (bolsa, sandália), mas o que movimenta mesmo a economia da cidade são as roupas vendidas a preço de banana na Feira da Sulanca (apenas domingo e segunda) e em outras menores ao longo da semana – grande parte das roupas são produzidas na região, que tem um forte polo têxtil. Na estrada, gosto de comer no Rei das Coxinhas, em Gravatá, e no Norte Bolos, na cidade de Bezerros. Imperdíveis.


Calçadão da praia de Boa Viagem
Do clima, vale notar que para quem quer praia, é bom evitar o período de outono-inverno (mais ou menos de junho a setembro), porque chove, o mar fica mais escuro, e o passeio perde muito a graça. Nessa época, é legal aproveitar o interior do estado, porque a temperatura fica mais baixa, principalmente em cidades como Triunfo, Caruaru e Garanhuns, essa última inclusive, sedia um famoso festival de inverno em julho. No verão, a recomendação se inverte, pois, essas cidades ficam quentes e secas, enquanto que Recife e Olinda são as melhores pedidas, principalmente na época carnavalesca – que já começa depois do Ano Novo.

NOSSA VIAGEM

Saindo do aeroporto, às 5h da manhã, nos deparamos com uma cidade já em movimento e o sol alto no céu (4 e pouca começa a amanhecer). Recife já se mostrava preguiçosamente para nós e a única coisa que pude pensar foi: “Estava com saudades!”.

Pagando de nativa, saí como guia do nosso intrépido grupinho. A praia de Boa Viagem foi a primeira parada, com direito a uma caminhadinha e água de côco no lindo calçadão. Ao contrário do que muita gente fala, pode sim tomar banho nessa praia. A história dos tubarões é verdadeira: reza a lenda que, após a construção do Porto de Suape, os tubarões tiveram o seu habitat natural prejudicado e acabaram por se aproximar da costa e, no caso, dessa praia. No entanto, seguindo algumas regrinhas de convivência, cabe tubarão e todo mundo lá dentro. A praia, em vários trechos, tem uma barreira de arrecifes (daí o nome da cidade) que ajudam a separar o bicho homem do bicho tubas. Só que não pode passar dessa barreira sob nenhuma hipótese, e quando o mar está enchendo ou já cheio, há a possibilidade dos tubarões passarem por cima delas, então tem que ficar no rasinho. Parece complicado, mas não é. É só procurar sempre ficar nas partes rasas, e de preferência escolher o trecho de praia entre a Padaria de Boa Viagem e o Hotel Golden Tulip, pois é um onde se formam as melhores piscinas naturais.
"A" praia
Os shoppings
Para quem gosta de shopping center, está indo para o lugar certo. Ainda não encontrei um shopping melhor do que qualquer um desses dois que vou falar agora. Os principais shoppings da cidade são o Shopping Center Recife e o Rio Mar. O primeiro é um pouco melhor para as compras, porque é “menor” e tem grandes lojas, tal como a americana Forever 21. O Rio Mar é o mais novo e o maior, por isso acaba sendo uma ótima pedida para passear e admirar seu design, principalmente o lindo terraço com vista para o Recife Antigo – também é onde se encontra algumas grifes tais como Valentino e Burberry, além da Livraria Cultura e a sorveteria Freddo. Como vou ao shopping Recife mesmo antes de saber andar, o passeio nele acaba sendo menos sobre consumo e mais afetivo do que qualquer outra coisa.Meu preferido, sem dúvidas.

Eu, vó e vô no reflexo do shop. Rio Mar, com Recife ao fundo.
SUPER TOUR EXPRESS

Como tínhamos muito pouco tempo para conhecer a cidade, fizemos um tour compacto pelo centro. Minhas amigas, coitadas, estavam com a pior guia turística do mundo! Porque ao mesmo tempo em que eu era guia, eu também era uma turista saudosista, e acabei levando elas para lá, sem as pompas de um passeio turístico, e sim seguindo os passos dos locais (ou os meus antigos passos): sempre na pressa nervosa dessa cidade grande, saltando por entre estações de metrôs, ônibus, integrações, calçadas e atravessando ruas correndo – as pessoas com essa mania de querer ganhar tempo, só não sabemos para o quê mesmo!

Fonte na pça. Maciel Pinheiro - Foto by: Nycacia Delmondes
Começando pelo centro comercial, não consigo descrever a sensação boa de andar por essas ruas tão tumultuadas, sujas e fedidas. Os prédios antigos, já descascados, para mim, montam um cenário tão bonito, que fica difícil explicar. Andei várias vezes por essas ruas no tempo em que morei na cidade, muito para resolver problemas, mas outras tantas para passear, ou brincar carnaval. Minha mãe, recifense, estudou em escolas por lá e sempre contou histórias de idas ao Cinema São Luís, das ruas, dos passeios e compras nas lojas – e acabei me apropriando dessas memórias e também me identificando com o lugar. Tive minhas próprias lembranças quando passeava por entre aquelas ruas, acumulando boas memórias de banhos de chuva, sessões de cinema, compra de filmes e jogos piratas (opa!), as esperas pelos ônibus ou metrôs, conhecendo praças e prédios históricos, ou comendo um cachorro-quente na conveniência de posto. Falando bem a verdade, eu nasci, mais precisamente, no Hospital do Exército, na Rua do Hospício, bairro da Boa Vista – mais centrão do que isso, impossível. Será que vem daí esse amor todo?!

Mapinha
Em nossa visita, conseguimos percorrer as principais ruas do centro comercial e histórico do Recife. Prepare as pernas para andar muito! Primeiro, saindo da estação central do metrô, exercitamos os quadris desviando de uma verdadeira muvuca de pessoas e vendedores ambulantes. Passamos pela antiga Estação Central de trem, que foi transformada em museu (visita legal) e logo em frente já começamos a ver as estátuas que fazem parte do Circuito da Poesia: essa primeira é a de Luiz Gonzaga.

Em seguida fica a Casa da Cultura, que fica na antiga prisão da cidade. Muito bom para fazer compras de coisas regionais. O prédio conserva ainda a estrutura da cadeia, onde cada cela é uma lojinha – e apenas uma das celas ficou preservada.

Esq. pra dir. Nyc, Paulina e eu, na Imperatriz
Recife, conhecida como Veneza brasileira, tem seu apelido por causa do centro da cidade, que parece uma ilha, ligado por inúmeras pontes (se não me engano, sete), muitas ainda construídas durante o governo holandês. A primeira que atravessamos, e minha preferida, é a ponte da Boa Vista. Dessa ponte feita de ferro podemos ver um pouco do mangue, tão característico de Recife, depois atravessamos a famosa Rua da Aurora e saímos direto na Rua da Imperatriz. Essa última, uma rua de comércio que não deixa vez para carros, abriga a ótima Livraria da Imperatriz (que me salvou duas vezes esse ano, quando procurei livros de Milton Hatoum e de Jorge Amado, ouviu essa Saraiva e Cultura?!) e a Padaria Imperatriz – imperdível comer a sua fatia de pizza de mussarela. Ao final da rua, na Praça Maciel Pinheiro, tem a estátua da Clarice Lispector – pena que essa região está muito descuidada, mas ainda valeu a pena lutar com mil pombos para conseguir tirar uma foto com ela.
Estátua de Clarice, em frente a sua antiga casa - Foto by: Nycacia Delmondes
Liv. Imperatriz e eu <3. Foto by: Nycacia Delmondes
Na Rua da Aurora, uma das mais famosas da cidade, segue em funcionamento o clássico Cinema São Luís; tem uma estátua do caranguejo gigante – evocando o movimento Manguebeat e, também tem o Museu de Arte Moderna – que eu nunca havia visitado, e além de ser legal, é gratuito. É bom conhecer nessa região as Igrejas barrocas, especialmente a Capela Dourada, o Mercado de São José e o Teatro de Santa Isabel, que segue funcionando. Algumas pontes depois, já no Bairro do Recife, destaco a Igreja Madre de Deus e o seu antigo convento, que hoje é o Shopping Paço Alfândega – que além de bonito, tem o Café São Braz, tradicional da cidade e no seu último andar, um terraço com uma linda vista do rio e do mar. Ao lado, tem uma Livraria Cultura, que também vale a visita.

Science, Chico.
A Rua da Moeda é um dos pontos principais do cenário alternativo recifense – boa para visitar os seus barzinhos durante a noite, e principalmente no carnaval. Aqui encontra-se a estátua do Chico Science, representando bem a cara da rua. Encerrando o passeio no Marco Zero, temos ainda o novo Cais de Santa Rita (parecido com as docas de Belém) com ótimos bares e o Centro de Artesanato. Essa região fica bem legal nos finais de semana, principalmente mais próximo do carnaval, quando se tem vários ensaios de maracatu por essas ruas e aos poucos começam as prévias de carnaval. Acredite quando eu falo que esses lugares citados aqui, não formam nem um terço do que se tem para visitar, considerando só o centro da cidade!

Fotos by: Nycacia Delmondes
Guiar alguém numa cidade na qual você não mora, ou morou pouco é algo muito curioso e engraçado. Tirando as coisas novas que abriram e você não sabe, têm também alguns lugares importantes, que você já visitou tanto, que aos poucos vai perdendo o interesse e não quer mais ir. Outro ponto é quando você reconhece um prédio, sabe que ali têm mil histórias, mas não se lembra de nenhuma para contar na hora – muitas vezes não lembra nem o nome dele: “Então é isso gente, aquele é um prédio muito fodão mesmo, mas só olhem de fora e não me façam perguntas! ”. E dirigir então?! Recife foi onde tirei minha habilitação e onde melhor já dirigi, mas é frustrante pegar o volante, saber todos os caminhos e de repente, confundir as entradas, não lembrar o nome das ruas, nem como chegar nelas, fora as constantes modificações no trânsito e uma série de pequenas chatices. Só que isso é apenas no impacto inicial! Logo logo, já estou em forma novamente, com a mão sentada na buzina, costurando os carros e xingando todo mundo, como uma boa recifense.
"Então gente, ali é uma ponte."

Em contrapartida, quando estamos acompanhadas por novos visitantes, também é uma oportunidade de rever o que mais gostamos, relembrarmos as histórias e descobrirmos de novo o porquê de amarmos tanto aquilo tudo. Apresentamos tudo com orgulho, que só aumenta quando vemos o outro lentamente, começando a se apaixonar, assim como foi com você um dia.

Sobre Olinda, só tenho uma dica: vá para a Cidade Alta – o centro histórico – e deixe acontecer naturalmente.

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De volta a Boa Viagem, separe uma noite para conhecer a Pracinha de Boa Viagem, tanto para comer (pastel do China – a maior fila da feira; tapioca redonda; queijo assado, ou até mesmo acarajé) quanto para comprar tudo o que você imaginar em brincos, colares, pulseiras, bolsas e artesanatos.

Falando em noite, chega a ser cansativo só de pensar em citar todos os artistas bons que tem por lá, os bares e restaurantes – porque em Recife, isso é levado muito a sério: poucos bares ficam abertos por muito tempo, a população é muito exigente e enjoa rapidamente dos lugares, o que faz os bares se dedicarem muito, desde a estética de seus drinks, pratos e da própria decoração, como até mesmo dos banheiros. Dos cantores que tocam nos barzinhos, recomendo dois: a dupla sertaneja Felipe & Gabriel, que não falo aqui porque o Felipe é meu primo, mas sim pelo ótimo show para quem quer dançar e se divertir muito; o outro é a banda de pop e rock Papaninfa, que tem como cantor o Rafael Furtado, que já participou do The Voice, e é simplesmente incrível.

Paulina, Nyc, eu e Laura - a recifense (e chef) que sabe fazer os melhores pedidos!

Para conhecer um pouco sobre essa cidade, sem sair de casa, vale assistir aos filmes e documentários feitos por lá. Recife tem uma ótima produção cinematográfica, inclusive tem o curso de Cinema na UFPE (um dos poucos no Brasil). Conta com exemplos como: Lisbela e o Prisioneiro, Aquarius, Que horas ela volta?, Boi Neon, O som ao redor, A Febre do Rato, Amarelo Manga, a ótima série Amores Roubados etc. Recomendo os documentários que assisti no youtube mesmo (exceto o último): Um lugar ao sol (sobre os moradores de cobertura); Recife Frio (curta de ficção e humor); Guia prático, histórico e sentimental da cidade do Recife (baseado no livro de Gilberto Freyre) e o Rio doce CDU, que mostra uma nova perspectiva da cidade, incluindo aí a periferia, através de uma das mais longas linha de ônibus da cidade.
Escrevendo no aeroporto. Flagra by: Nycacia Delmondes

FAMÍLIA
Foto esq. Duda e eu. Foto dir. Sophia, Bia, Duda, Laura e yo.


Como a metade (materna) da minha família é de Recife, a cidade torna-se familiar em todos os sentidos da palavra. Viajar para Recife, significa voltar para a casa da vovó, rever primas, tias e mais uma galera – afinal, a família é enorme! Em especial, vovó, vovô e minhas tias-primas, que me acompanham nessas aventuras, e que tornam cada vez mais difícil a saída da cidade, e cada vez mais feliz, o meu retorno.
Sente o cheiro do pão! - Foto by: Nycacia Delmondes
Muitos lugares evocam as lembranças. E às vezes, elas aparecem através dos cheiros, alguns até mesmo peculiares! Recife é conhecido pela sua fedentina (“Num dia de sol Recife acordou. Com a mesma fedentina do dia anterior” – A cidade, Science C.), que é a mais pura verdade: o cheiro do mangue, do canal que corta a cidade, as ruas sujas do centro. Mas quem sou eu para reclamar, pois logo quando chego, inspiro bem forte e se Recife não estiver fedendo, algo está errado.

Ela também tem cheiros maravilhosos, como o do sal da praia no calçadão de Boa Viagem; o cheiro único do cinema UCI do shopping Recife (coração das minhas férias escolares); o perfume da vovó, ou o da comida dela e da tia Laura. O queijo coalho assado da praia, o cheiro de balinhas do Planeta Bombom...




Recife e Olinda são cidades históricas, artísticas e lindíssimas. Onde o velho, o moderno e a natureza se encontram. Nem sempre em harmonia, mas sempre com muita paixão. Ás vezes penso em um dia faltar às minhas visitas anuais, e conhecer novos lugares – mas não dá. Entre tapas e beijos, o amor fala mais alto e é a saudade quem sempre me traz pelo braço.


Família





quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Fantasias...


Carnaval - Recife antigo

Nunca fui daquelas crianças que vestem uma fantasia, ou uma tiara de princesa, e sai na rua. Apesar de uma imaginação fértil (até demais), as fantasias fizeram parte da minha vida – só que apenas teve vez nas festas de carnaval ou Halloween. O meu eu adulto, uma estranha já totalmente assumida, também foi uma criança bem esquisitinha, o que se refletia nas minhas fantasias, que rapidinho saíram das fofurinhas de crianças, como uma mini passista de frevo até chegar a ser uma metaleira, pirata, ou policial do FBI. O ponto alto da minha adolescência foi quando fui para os bailes e ruas do carnaval (em Recife e Olinda) vestida de “quenga do Moulin Rouge” – engraçado ver nas fotos que apesar do tecido vermelho e meia calça provocante, ainda conservava as bochechas e os “zoião” inocentes do meio da adolescência – o que tiravam toda a coerência da roupa.

Todo esse assunto sobre fantasia começou, não pela proximidade do carnaval – mas antes despertado pela leitura de uma crônica do Ivan Angelo, chamada Homem ou Mulher?, em que o autor vai falar sobre quando durante sua infância, ficou impressionado com um homem que se vestia de mulher durante o carnaval. Ao longo da crônica ele comenta sobre o fascínio que muita gente tem em se transvestir durante essa época do ano, e eu parei pra pensar sobre como nunca tive interesse em fazer isso, apesar de algumas vezes me vestir de personagens que em sua maioria são representados pelo gênero masculino, nunca deixei de acrescentar um toque feminino na caracterização. Foi aí que me lembrei de uma exceção.

Numa festa, que não ocorreu faz muito tempo, tive a brilhante ideia de me vestir de gentleman do século passado. Na verdade, estava sem muitas opções em casa, todas as fantasias já muito surradas, aí vi essa oportunidade ao me lembrar que tenho um chapéu-coco, um coletinho preto e uma gravata borboleta com lantejoulas (da época que fui de quenga). Foi só comprar um bigode, colar na cara e ir. Apesar de colocar um shortinho pra suavizar a caracterização, os pelos na cara estavam cumprindo o seu papel, mas munindo-me de coragem, fui para a festa.

Tudo estava certo, menos o timing da festa. Primeiro, com exceção do aniversariante, ninguém mais foi fantasiado! Segundo, por onde andei, as pessoas desviavam o olhar, desconversavam, e claro, a deslocada era eu, que tinha aparecido em uma festa temática, fantasiada. Ainda mais com algo tão ultrajante. Resisti bravamente e continuei fiel à minha personagem que com tanto carinho escolhi, mas eis que o destino sabiamente me prega uma peça e eu desenvolvo uma alergia aos pelos do fatídico bigode!

Às pressas me desfiz do meu orgulho, digo, bigode e resolvi permanecer insossa, tal como os outros, até essa provação finalmente acabar.

Lendo essa crônica ontem em um ônibus voltando para casa – claro, não há melhor lugar para filosofar do que na janela de um ônibus – entendi que se transvestir, mesmo que um pouco, ainda é um dos grandes tabus da nossa sociedade, como podemos ver que sua leve sugestão em uma conversa corriqueira, causa o furor de algumas (muitas) pessoas. O problema não é a moça colocar um bigodinho, ou o cara colocar uma saia e ir para uma festinha, o problema é que na mente da maioria, o ato deixa de ser uma brincadeira e torna-se sinônimo de declarar no ato a sua sexualidade – o que também ainda é um ENORME problema, sabe-se lá o porquê.

Ando bastante inspirada e orgulhosa dos últimos discursos das mulheres que circulam hoje pelo mundo, e a vontade de permanecer calada contra o que há tanto tempo nos aborrece, hoje, mostra-se nula para mim. Engraçado como as mulheres, desde neném, já estamos cansadas dos abusos e agressões que sofremos da sociedade. Nascemos cansadas, com esse fardo nas costas. Eu não carrego mais ele. Amo os homens, e quero ser amada e respeitada em retorno. Nem que pra isso eu tenha que pregar um bigode na cara e me fazer ser ouvida.
O bigode da resistência, agora colado na prateleira

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Quando é hora de dizer adeus (ou até breve)

Playa Ramírez - Mtvd., URU
Inicialmente o título desse texto de hoje era para ser “Mochilando pela América hispano falante”, no qual eu começaria falando de detalhes práticos da viagem etc. Após dias sem tocar no texto, percebi hoje que teria que deixá-lo mais emocional, tal como essa viagem foi, e a mudança viria a partir do título. Como toda viagem de volta, foi especialmente difícil dar adeus à essa.

Ainda no começo do ano, quando estava resoluta em finalmente juntar coragem (e cacau) para um mochilão no exterior, parti para a escolha do lugar. Entre as opções que pensei, o país poderia ser de língua inglesa ou espanhola, e por motivos de força maior (sim, dinheiro mesmo) me ative a fazer o tal mochilão pela nossa América do Sul.

La preparación

Alguns fatores foram chave para a escolha do lugar. Queria um lugar lindo, barato, e de certa forma seguro, para que eu, uma mulher, pudesse fazer uma viagem só e um tanto que tranquila. Temos muitas opções ótimas, aqui bem pertinho de nós, e levando em conta minha preferência por uma paisagem mais urbana, todos me recomendaram Buenos Aires. Bom, eu sou um tantinho apaixonada por futebol e sentia uma rivalidade ridícula pela Argentina, de tal forma que tinha até uma certa implicância com o país, mas como este parecia ser o destino ideal para minha viagem, acabei topando passar dez dias lá.

Lá no começo, ao pesquisar o preço das passagens aéreas, descobri que as taxas aeroportuárias são altíssimas para Buenos Aires (que a partir de agora chamarei de BA), o que deixava o preço da passagem aérea um tanto salgado. Então fiz a seguinte jogada: coloquei a ida para lá e a volta por Montevidéu. É claro que nos fins das contas sai mais caro, porque tem a despesa de atravessar o Rio de la Plata, que separa os dois países, a hospedagem mais cara nesse último – no entanto pensei que assim daria pra conhecer dois países de uma só vez, um gasto com prazer, e não com taxas absurdas.

Como eu estaria chegando num ponto, e voltando por outro, recalculei minhas datas para dividir entre as duas cidades. Vendo na web que BA tinha muito mais pontos turísticos, optei por 6 noites na capital portenha, 3 noites em Montevidéu, e o último dia para o regresso.
Bairro da Recoleta, Buenos Aires -ARG

Alguns compromissos me fizeram escolher novembro, que se mostrou uma data ideal, de clima agradável (primavera), um pouco antes da alta temporada (melhores preços), pontos turísticos menos concorridos, e um grande bônus: os jacarandás ficam com flores violetas, e tem vários espalhados pelas ruas e praças das duas cidades. Lindíssimo!

Apesar de não ter me apaixonado de imediato pelos meus destinos, com o passar dos meses, conforme fui pesquisando mais sobre os lugares e chegando mais perto do dia da viagem, deixei o Brasil tendo certeza que iria adorar conhecer, em especial BA, e já segura de que um dia retornaria lá com minhas amigas (sim, estava ainda no caminho de ida!!).

Conhecendo la cultura

Antes de me aprofundar no texto, gostaria de frisar dois pontos:

O 1º é que o sonho de viajar, para qualquer lugar que seja, parece muito longe da realidade de muitos, mas não é tão difícil assim. Ele requer preparação e dedicação, e conforme mais viajamos, mais fácil fica. Recomendo reservar e pagar o quanto antes as despesas de passagens e hospedagem – no caso, um hostel (albergue) tende a custar uns R$ 30 a R$40 por noite, o que te faz gastar por todas as suas diárias, o mesmo preço de uma em um hotel comum. Para as despesas no local, sugiro estipular um valor para refeições + transporte + compras + gastos emergenciais que você gastaria por dia em uma cidade grande (capital) no Brasil. Se o destino for na América do Sul, dá pra levar real para trocar quando chegar lá; se for mais distante é melhor levar dólar ou euro, para trocá-los pelo dinheiro local quando chegar ao destino.

O 2º ponto é que eu, uma típica virginiana (um tanto neurótica), fiz um bom estudo dos lugares e dicas que considerava mais interessantes em BA, separando-os em listas e até mesmo em um cronograma do que visitar. Isso não me atrapalhou em fazer mudanças ao chegar lá, adicionando e cortando lugares, todavia me ajudou a otimizar o meu tempo, verificar os horários e dias de funcionamento de cada lugar, reunindo por localizações o que visitar e não deixar de ver o que mais me interessava – além de ajudar na análise dos mapas. Também ajudou para que eu escolhesse o melhor lugar para me hospedar e tals. Fica a dica, para quem não quiser ir tão perdido para o seu destino. Em Montevidéu, por exemplo, minha pesquisa foi bem menor, e percebi isso ao chegar na cidade e me encontrar com mais tempo livre.

De um tempo para cá, venho acompanhando o cinema argentino, e vi excelentes filmes deles, tais como: “Un Cuento Chino”; “El Secreto de Sus Ojos”; “Relatos Salvajes” e “Nueve reinas”. Separei alguns para assistir umas semanas antes da viagem, dentre eles o filme brasileiro,“La Vingança”, que parece bobo, mas diverte (e me alertou para pesquisar algumas gírias da Argentina), e o musical “Evita”, que conta a história de Eva Perón, interpretada pela Madonna. O único problema ao ver esse filme, foi que me apaixonei instantaneamente, e acabei não vendo mais nenhum outro. O musical pode não ser tão bom assim, mas me impressionou pela sua história e a paixão dos argentinos por essa figura – que mais à frente irei comentar novamente. Fora que tem três músicas imperdíveis: o ícone “Don't Cry For Me Argentina”; a linda e premiada “You Must Love Me” e o delicioso bolero “I'd Be Surprisingly Good For You”.

Paseo de la historieta - San Telmo
É muito legal pesquisar um pouco da história do lugar, personalidades importantes, filmes etc., para criar uma conexão maior com a cidade. Pesquisando sobre a literatura, um nome se destacou, tanto aqui, quanto ao chegar lá: MAFALDA!

Nas ruas de Buenos Aires, três mulheres mandam em todas as banquinhas de artesanato, bancas de revistas, camisetas, souvenirs e por aí vai: Evita, Mafalda e a mexicana Frida Khalo. Dentre os homens, vi Maradona e um pouco do Messi, mas tive a impressão que as meninas são ainda mais populares.
Evita - Av. 9 de Julio, BA - ARG
El viaje

Primeira parada: BA – Buenos Aires


Chegado o grande dia, parti para minha viagem com um mochilão pesando apenas 8kg, mas com todo o necessário para os 10 dias na América Latina. Peguei um voo para um dos aeroportos de BA, o Aeroparque, que está muito mais próximo do centro, e com uma bela vista do Rio de la Plata, na orla bem à frente. No aeroporto já fiz a troca para os pesos argentinos e peguei um mapa da cidade no Centro de Atenção ao Turista. Peguei um táxi lá, e apesar dos alertas sobre alguns passarem notas falsas e outras malandragens, o que me deixou bem apreensiva na chegada, tive muita sorte: ele era simpático, conversamos, me deu dicas de como me localizar por lá, e me explicou sobre a diferença entre pegar a rota mais rápida e pagar o pedágio, ou ir por outro caminho mais longo e acabar gastando o mesmo, demorando mais.

Escolhi ficar no microcentro, no bairro de San Nicolás, no Hostel Portal del Sur. Nesse ponto, fiquei a alguns passos dos principais pontos turísticos da cidade, tanto que pude fazer tudo que queria, em 6 dias, apenas pegando 3 metrôs, ônibus ida e volta e táxi na chegada e partida – o resto foi andando muuuito!

Para a escolha do hostel foi necessária uma longa pesquisa, porque tem mil opções, e cada um parecia ser melhor do que o outro. Optei por esse, por ter mais pontos que eu considerei importante, além de ter uma aparência bem aconchegante, dos típicos hosteis que você consegue fazer amizade, e pegar muitas dicas na recepção. De ponto negativo, foi que eu contava que teria café da manhã incluso, mas chegando lá me falaram que recentemente mudaram o regulamento, e eu teria que pagar por fora. Um pequeno imprevisto, que teve suas vantagens, pois um dia eu experimentei uma padaria local, noutro comi no mercadão de San Telmo, assim conheci sabores diferentes – em geral comi o café de lá, que era muito muito bom.

Aos meus amigos que não conhecem um hostel, aqui vai uma breve explicação: geralmente é um casarão um tanto moderninho (hipster), que te dá o café da manhã e uma cozinha equipada para que você possa cozinhar as outras refeições. Tem muitas áreas em comum, com TV e outros atrativos; os quartos podem ou não ter banheiro; você pode escolher se fica em um individual, duplo ou triplo, ou coletivo (em geral de 4, 6 ou 8 camas/beliche). Esses quartos tem sempre um armário para você guardar suas coisas, sem esquecer de levar um cadeado para trancá-las. Ás vezes eles cobram o aluguel de toalhas. O mais importante é que você pode escolher se quer um quarto misto ou apenas feminino.

Eu fiquei muito apaixonada pelas pessoas que conheci lá. Muito simpáticos, e de todas as partes do mundo: França, Colômbia, Uruguai, EUA, Inglaterra, Austrália, Nova Zelândia, Canadá, México, Nicarágua, Alemanha, Holanda, Itália, Brasil – isso para falar só dos que eu conversei com. No começo achei muito difícil conciliar o ato de pensar, falar e viver o espanhol por lá, e ter que usar o inglês com os gringos que não falavam castelhano – a mente embaralhava e saía uma palavra em cada idioma – uma verdadeira torre de babel. Depois de alguns dias, peguei a prática e consegui administrar isso melhor. Um grande alívio.

Vale destacar, aos marinheiros de primeira viagem, que hostel e hotel se diferenciam muito mais do que apenas por um “s”. No hostel, ao dividir o quarto com alguém, você tem que tomar muito cuidado para respeitar o espaço do outro: não espalhar suas coisas, não incomodar com luz e barulho, ser breve no banheiro etc. Cuidado para você não ser o chato do hostel!! Conversando com o pessoal, vi que logo se destacavam aqueles que não falam com ninguém, ou os que são inconvenientes demais no quarto. Fica muito feio, todo mundo percebe, e você acaba perdendo uma das melhores experiências: bater um papo com a galera. Quer privacidade? Todo o conforto e limpeza dos serviços de quarto? Mete a mão no bolso e vai para um hotel mesmo.

Nesse hostel, eles topam serviço voluntário, então tem uma galera muito gente boa que trabalha e mora por lá. Um dos pontos altos da viagem foi conhecê-los e praticar bastante o espanhol com eles. Na cobertura tem um bar muito tranquilo, que você pode frequentar, beber, comer, ou só ir para olhar o pôr-do-sol (quase às 20h) e congelar com o vento frio da noite.

A cidade

Pz. de los dos Congresos - BA - ARG
Cheguei no fim da tarde na cidade, mas já meti a cara na rua. Fiz uma ótima caminhada pelas lindas avenidas e praças até a belíssima livraria El Ateneo. O centro da cidade é lindo, cheio de placas, polícia, prédios lindos e conservados, sem contar as praças muito vivas – notei que o nativo aproveita muito elas, fazendo piquenique, sentados nos bancos, ou dançando com os amigos. Sempre muito limpas, com belas árvores e flores. É prazeroso andar pela cidade, conhecendo a arquitetura local e um pouco dos hábitos dos argentinos. Pela quantidade de pizzaria, cafeteria e mercadinhos (cheio de morangões) que vi pelos caminhos, acho que me identifiquei bastante com o paladar deles.

El Ateneo
Essa livraria, El Ateneo, fica em um antigo teatro, conservando a sua estrutura, e conta com uma cafeteria bem no seu palco. Lá comi minha primeira empanada, típico pastelzinho da região, com vinho. Livro mesmo só comprei na ótima Livreria Cúspede – o que não falta na cidade são livrarias, tanto em BA quanto Montevidéu – dando de 10 a 0 no Brasil (e também na China, que era difícil achá-las!).

Sabores portenhos

Dos alfajores, famoso doce de lá, aprovei o famoso Havana, e também o Jorgito. Das empanadas, a melhor foi a do restaurante El Sanjuanino. Para almoçar, andando por San Telmo, dá para encontrar restaurantes self-service, mas sugiro que comam numa pizzaria. Nelas, além dos pratos serem deliciosos e de bom preço, também não cobram nenhuma taxa extra. Indico o ravióli do La Continental e o filé do Pétalo Pizzeria. Claro, a estrela argentina é o famoso doce de leite. No café do hostel, no primeiro dia, pedi para o pessoal servir o doce porque ao invés de achar ele, só estava vendo na mesa um brigadeiro. Pois é meus amigos, o tal brigadeiro, era o doce de leite!!Para vocês entenderem o tanto que o bicho é escuro. E delicioso, lógico. Guardei o nome da marca que comi nesses cafés, a Ilolay, e corri num supermercado para comprá-lo. O sorvete Freddo, é ótimo mesmo. A bebida local, fernet com coca-cola, é terrível. Tem gosto de remédio e não engana: é remédio!

Apesar de que viajava sozinha, eu tinha a opção de sair com o pessoal que conheci no hostel para a noite, mas optei por não fazê-lo. Não posso falar da noitada porteña, mas o que sei é que 2h da manhã é uma boa hora para chegar na festa! Deve ser por isso que a cidade começa tão tarde: o café da manhã era servido às 9h, e se você sair às 8h, provavelmente vai encontrar um monte de lojas ainda fechadas. Pelo lado bom, as tardes são bem longas por causa do anoitecer que demora a chegar.

Fora do centro, mas ainda perto, os bairros La Boca e Recoleta são bons para ir de transporte público. Basta comprar o cartão sube e carregá-lo sempre que preciso. As passagens são baratas e o transporte tranquilo. Detalhe, para ter noção dos preços de lá, basta dividir o valor em peso por 10, depois multiplicar por 2. Assim terá a quantia em real. Apesar de termos o dinheiro que vale 5 vezes mais, basicamente gastei o mesmo que gastaria no Brasil.

El caminito -La Boca - BA - ARG
A cidade tem uma atenção incrível aos turistas, com os principais museus sendo de visita gratuita e vários passeios guiados de graça (cobram gorjeta) por ruas ou prédios históricos. O único passeio guiado que fiz foi o do bairro La Boca. Lá aprendi várias histórias sobre as origens da cidade, as principais personalidades (Eva, Gardel, Maradona, el Gauchito Gil), e dentre elas a mais emocionante: as “abuelas de la Plaza de Mayo”, mulheres que sofrem até hoje procurando os desaparecidos da ditadura militar.

O passeio incluiu uma visita à frente do estádio La Bombonera. Nessa hora engoli em seco e fiquei quietinha, sem revelar para ninguém o tanto que desgosto desse estádio e do time do Boca Juniors – retrato de uma infância vendo jogos de futebol e quase infartando toda vez que o Brasil jogava por lá e passava sufoco com as trapaças do futebol argentino.

Ainda falando sobre o turismo, consegui uma infinidade de mapas, cada um mais detalhado do que o outro, e nos centros do governo, espalhados pelos principais pontos turísticos, recebi um ótimo atendimento, com direito a ganhar café, chá, acesso à internet, tomadas, bebedouro e uma garrafa d’água ecológica perfeita, que está inteirinha até hoje. As pessoas ajudam bastante na rua, perguntei bastante e sempre fui bem recebida – apesar da péssima fama de boçais e arrogantes que me alertaram, os argentinos não poderiam ter me tratado melhor! Encantadíssima.

Centro de Atenção ao Turista com vista panorâmica em Puerto Madero
Para não ficar maçante eu citando os pontos turísticos, vamos ao resumão: é bom ir na região da Casa Rosada e do Obelisco, além do bairro de San Telmo, onde vai encontrar basicamente tudo o que é legal visitar. Não estava a fim de entrar nos prédios históricos, tinha muita energia para queimar andando, mas para quem tem mais paciência, as visitas são gratuitas e geralmente valem à pena para conhecer a história local. A feira de San Telmo aos domingos é um absurdo de grande e parada mais do que obrigatória! As ruas, que já tem a cara de Olinda no seu dia-a-dia, ficam ainda mais parecidas, porque parece uma grande festa de carnaval. Ruas lotadas, muuuuuita arte linda, e ótimas comidinhas.
E->D: Casa Rosada, Obelisco, Centro Cultural, Catedral

Aos católicos, vale conhecer a lindíssima Igreja de Maria Auxiliadora y San Carlos, onde o papa Francisco foi batizado, e a Catedral da Plaza de Mayo. Assisti uma missa nessa Igreja, antes de ir para a feira de domingo, e foi uma experiência incrível. Adoro Igrejas históricas! Também vale a pena conhecer aos domingos (15h30), a Igreja Ortodoxa Russa, que fica em San Telmo. Conheci não só o lindo prédio, como também bastante sobre essa religião e a diferença entre ela e a Igreja Católica Romana (a minha).


BA é um lugar caro, que deve ser horrível de morar se você não tem grana. Assim como qualquer outro lugar que temos mil opções do que fazer, mas nenhum tostão no bolso. Em compensação, parece ser ótimo se você tem uma boa renda: achei tranquilo para uma grande cidade; organizada; limpa e não achei violenta. Impressões de turistas são ingênuas mesmo, me perdoem.

Um dos passeios mais famosos da capital portenha, é a visita ao Cemitério da Recoleta. Tirei um sábado para andar pelo bairro, conhecer o cemitério, a igreja ao lado, comer no El Sanjuanino, ir ao Museu de Belas Artes e a grande feira de artesanato. Fui a um shopping, mas não deu muito certo, porque apesar de ter uma grande paixão por shoppings, toda vez que entrava em um por lá, tinha a sensação que estava perdendo meu tempo, pois ao invés de estar na rua, estava vendo algo familiar até demais.

"À memória do meu inesquecível esposo e a ti. Oh! DEUS meu... DEUS meu...meu coração e minha eterna pregação"

O cemitério, merece um comentário a parte. Um passeio peculiar desses, muito facilmente cria um desconforto em seus visitantes. No meu caso, não tive medo de almas penadas, ou qualquer coisa do tipo. O que me deixou mal foi olhar as expressões das estátuas e ler alguns obituários, tão tristes, mais tão tristes, que não conseguia parar de pensar no sofrimento das pessoas que prestaram homenagens tão bonitas aos seus entes queridos. As esculturas são verdadeiras obras de artes, e lá nada mais é do que um museu à céu aberto – daí a sua popularidade nas visitas. Mas olhar as fotos das pessoas em alguns túmulos, ver alguns caixões à mostra, além daqueles paredões de gavetas, foi sinistro demais para mim em um determinado momento, aí foi uma luta desvendar o labirinto que o lugar é, e ir embora rapidinho. Nesse passeio, observei as estátuas que ia vendo pelo caminho, mas rumei para dois túmulos em especial: o de Evita (claro!) e o da moça vestida de noiva com o seu cachorro: conta a história, que essa moça morreu durante sua viagem de lua de mel, e o cachorro morreu ao mesmo tempo, em casa.

Las abuelas de la plz de Mayo
Na feira, confirmei uma coisa que notei todos esses dias pelas ruas de Buenos Aires: a grande manifestação política. Vi tudo com olhos um tanto poéticos, é verdade, mas não deixei de achar lindo a força da manifestações deles – nada parecidos com a papagaiada feita no Brasil com direito a camisa da seleção, bonequinhos e pato gigante. As frases pintadas nas ruas, acampamentos nas praças, camisetas dos artistas locais, murais pintados, e até mesmos as esculturas nas ruas, me passavam uma grande impressão de luta e força, como que representando as classes mais pobres, avançando em defesa de seus ideais. Conversei com algumas pessoas nas ruas, gente nova ou de mais idade e, coincidência ou não, só encontrei pessoas com uma linha de raciocínio voltada para o fim das desigualdades. Isso inclui até mesmo os canadenses, franceses e americanos que encontrei (e por aí vai).

"Nos organizamos para voltar"
Evita também tem que ter um parágrafo a parte. Sem falar do que não sei, apenas do que vivi e senti por lá, vi que o amor por ela ainda é muito forte – como entreouvi de uma guia no cemitério, seu túmulo é o único que recebe flores. Um prédio do governo que fica na Av. 9 de Julio tem o seu rosto estampado, uma homenagem muito bonita, que não cansei de admirar e que me foi muito útil por sinal, para localizar a minha rua. Seu rosto, retratado em camisetas e bolsas (e notas de 100 pesos), não parece ser algo somente para turistas, mas sim para o próprio consumidor local. Não podia sair de lá sem trazer um pouco dela comigo. Muito emocionante a sua força e pelo que lutava.

Tango na Feira de San Telmo
Uns dois dias antes da minha viagem para Montevidéu, caí na besteira de ouvir uma das músicas do filme da Evita, e já comecei a sentir o aperto no peito de saudades da cidade. Tentei aproveitar ao máximo o que restava, mas não conseguia parar de pensar em quando poderia voltar e conhecer tudo de novo. No último dia, percebi que já não precisava tanto do mapa para andar, também já estava segura que vi todos os lugares que queria e poderia fazer dessa vez, por isso apenas aproveitei para fazer um tour pelas principais ruas e praças que conheci, e rever meus cartões-postais preferidos, tudo em clima de despedida. A melancolia já estava batendo forte, e não me via preparada para ir embora dessa cidade charmosa, deixar as pessoas que conheci para trás, os hábitos que já estavam rotineiros, como tomar chá no terraço enquanto escrevia e segurava os papéis para não voarem com o vento congelante e furioso do anoitecer, ou o de demorar quase uma hora para comer um “simples” café da manhã todos os dias. Não estava nem um pouco pronta para voltar para casa e não ouvir mais o som maravilhoso do espanhol, pior ainda ter que me despedir dos amigos, com um nó na garganta. Apesar de não querer deixar BA, era um alívio saber que ainda teria Montevidéu pela frente, para arrastar o castelhano um pouco mais, e continuar saboreando as longas caminhadas em terras estrangeiras.


Próxima parada: Montevidéu 

Praia de Pocitos

Para chegar nesse novo destino, peguei um barco (o da empresa Buquebus), que já tinha comprado pela internet (usem o site Uruguaio, que sai mais barato do que o Argentino) a passagem de Buenos Aires a Colonia del Sacramento, depois integrado com um ônibus direto e da mesma empresa, de Colonia a Montevidéu.

A viagem de barco é ótima! O Rio de la Plata separa os dois países, parecendo um mar de água. Não notei nenhum balanço, nem incômodo do tipo. As bagagens são despachadas e os assentos não são marcados – por isso, se quiser ficar na janela, tem que ir cedo para a fila. Lá dentro tem uma lanchonete, loja e casa de câmbio. A cotação é terrível lá dentro, fiquei muito feliz em ter esperado para trocar meu dinheiro na estação de Tres Cruces, já em Montevidéu.

A parada em Colonia é vapt-vupt, não dá para ver nada da cidade. Para quem quer passear por lá, sugiro comprar a passagem de barco só até Colonia, e depois pegar outro ônibus lá. Quem quiser também pode pegar o barco direto, BA – Mtvd, só paga um pouco a mais, chega mais rápido, mas perde o passeio pelo interior do país.

Orla de Pocitos - Montevidéu- URU

Montevidéu é quase como uma cidade praiana. A orla é muito extensa, se não me engano, uns 20km ininterruptos. A água é escura, mas tem toda pinta de mar, com ondas, me deixando em dúvida até o último dia, se a água era de rio ou de mar. A única pista é que ela não tinha o cheiro de sal, e dito e feito: uma local me confirmou que era rio, mas com influências do mar.

Praia Ramírez - Mtvd - URU
O ritmo da cidade é bem diferente da qual eu estava. Apesar de ser a capital do Uruguai, não parece ser violenta, e aparenta ser bem tranquila. Aqui, fiquei no Medio Mundo Hostel, no bairro Rodó, a poucos metros do Parque Rodó e da Playa Ramírez. Deu para fazer tudo o que queria andando, mas a cidade parece ser gostosa para pedalar, principalmente na enorme orla.

Praia Ramírez - Mtvd - URU
Quando cheguei, estava enfrentando uma onda de calor desde o penúltimo dia em BA. Estava tão quente, que no dia seguinte caiu uma tempestade com direito a chuva de granizo! Aproveitei que por aqui também escurece tarde, e saí logo no primeiro dia para conhecer os arredores. Vi um lindo pôr-do-sol na praia, mas tão longo que deu tempo de ir andando até o shopping Punta Carretas, depois voltar para a orla novamente e ver o restinho do sol.

Algumas pessoas me alertaram que aqui era mais caro, mas confesso que achei basicamente a mesma coisa de BA. Aqui se usa o peso uruguaio, que é só calcular dividindo por 10, para saber o valor em real. Como não fiz tantos passeios, peguei um ritmo mais leve, consequentemente gastei menos, dificultando a comparação de gastos. Nesse hostel, o café da manhã estava incluso, e tinha uma geleia de morango e bolo de chocolate surpreendentes. A estrutura é bem mais moderna do que a do outro, mas por ser menor, tem alguns inconvenientes. Outra dica sobre hostel é a de tentar buscar por um que tenha áreas de convivência externas (principalmente no telhado) – com isso, há menos riscos de ser incomodado com o barulho de conversas ou cheiro de cigarro entrando dentro do quarto.

Av. 18 de Julio - Mtvd- URU
Andei bastante pela cidade, que não tinha longas distâncias, e pude conhecer o seu centro histórico (casco viejo) – muito gostoso de andar, com suas ruas de pedra e lojas de artesanato lindinhos. Planejei voltar ao hostel pela orla, para conhecê-la por inteiro, mas a tarde tava com o maior sol e não tem árvores na beira da praia. Não foi uma boa ideia, por isso deixei para andar pelo bairro de Pocitos e por toda a sua praia em uma manhã.

A internet recomendava comer o churrasco no Mercado del Puerto, mas chegando lá algumas pessoas falaram que não valia a pena, porque era caro e só para se aproveitar dos turistas. Vou dizer aqui, acho que vale a pena sim! Esse mercado, diferente do que eu pensei, é basicamente só de restaurantes, não vende frutas como imaginei, e com muito pouco artesanato. A bebida oficial do mercado é o delicioso Medio y Medio, que é uma mistura de espumante com vinho. Me apaixonei. Vale a pena comer lá, não só pelo sabor, como todo o ambiente.

No mercado, chama à atenção os funcionários convidando os clientes em português/portunhol, ou até mesmo sendo brasileiros. Com o apelo grande dos turistas brasileiros, eles estão bem preparados para nos agradar. No hostel, por exemplo, além de vários funcionários vindos do Brasil, basicamente 90% dos hóspedes também eram meus conterrâneos. No começo, fiquei um pouco chateada, porque estava numa puta dor de corno, me perdoem a expressão, pela minha saída de Buenos Aires e acabava vendo em Montevidéu, como os últimos resquícios desse universo hispanofalante. Chegar nessa cidade e me deparar com tanta familiaridade e conversas em português, me pareceram uma volta um tanto que precoce ao Brasil. Enquanto queria viver um pouco mais da cultura de lá, saborear um grapamiel e praticar o idioma, recebi propostas de “pode falar em português mesmo” e “quer beber? tenho uma pinga de minas ali”. Era como se jogassem mais uma pá de terra.

Como uma grande amante do cinema que eu sou, ao entrar no shopping center tive uma enorme vontade de ir ao cinema uruguaio. Vi o cartaz do filme argentino: “Yo soy así, Tita de Buenos Aires” e apesar de parecer ser bem interessante a história, temi que não seria uma boa ideia cutucar meus sentimentos pela cidade portenha novamente. Bom, foi maravilhoso assistir ao filme! A história da Tita, uma cantora de tango, além de ser interessante, contava com canções e danças lindíssimas tornando a experiência o melhor possível. O final foi emocionante até demais, que me fizeram derramar lágrimas pela cena, mas já misturadas de saudade.

Praia Ramírez
Montevidéu, mesmo recebendo um papel injusto de coadjuvante na minha viagem, finalmente começava a ser vista com olhos mais carinhosos. Andando pelas ruas do bairro de sandália havaiana à la praísta, tomando um sorvetão de doce de leite e creme de avelã, indo na direção da praia para esperar pelo pôr-do-sol, tinha um sabor de despedida bem mais agradável e satisfeito do que a anterior. Montevidéu é calma e passa essa vibe tranquila e acolhedora. Um alívio para o turbilhão de emoções dos argentinos meio “italianados” que conheci. Fiz as pazes com a cidade, enquanto esperava o sol descer, quase às 20h, de casaco fechado e com os pés (congelando) na areia dessa praia tão peculiar.

Vamos aos finalmentes

A hora de dizer adeus chegou em pequenas parcelas. Na saída de Buenos Aires, ou melhor, nos últimos passeios que por lá realizei, já tinham o gostinho de despedida. Toda a viagem por Montevidéu, o ressentimento pela partida ainda marcante, incluindo quando tive a ideia “genial” de ver o filme da Tita.

Na saída de Montevidéu, já em um clima diferente – de antecipação pela volta para casa – só fez adormecer o sentimento que muito em breve retornaria.....na abertura da bagagem e vendo as recordações, por exemplo. Por alguns dias, as músicas, fotos e sabores que vieram junto com a mala, trariam novamente à tona a saudade por essa viagem. As leituras dos livros que trouxe prolongaram um pouco o sentimento, e até mesmo durante momentos em que buscava esquecer, como quando fui ao cinema ver o filme nacional “Entre irmãs” e me toca justamente um tango de Gardel no meio do longa!

Na minha universidade, teve por esses dias um evento internacional com a visita de estrangeiros sul-americanos e hispanofalantes, onde pude continuar ouvindo e falando um pouquinho dessa língua que aprendi a amar por esses dias.

Hoje, duas semanas depois da chegada, vejo que já não há mais porque prolongá-la, e sinto que estou pronta para realmente dizer adeus. Na verdade, adeus não. Um até breve é bem melhor!

Montevidéu - URU