O meu primeiro contato com o universo da leitura foi antes mesmo de ingressar na escola, quando apenas aos três anos de idade via as imagens dos gibis da Turma da Mônica, do Maurício de Sousa, enquanto meus pais liam os diálogos para mim. Antes mesmo de aprender a ler, folheava alguns livros infantis, tal como O Menino Maluquinho de Ziraldo (1980), e quando me alfabetizei, pude enfim ler tudo o que via pela frente: outdoors, fachadas, revistas, livros etc.
Em casa, tive um grande incentivo dos meus pais, que compravam para mim revistas (em quadrinho, de variedades ou até mesmo de colorir), e não só os livros que as escolas exigiam, como também os livros que eu optava; liam as histórias quando eu ainda não podia as ler sozinha e estimulavam minhas idas às bibliotecas. Esse apoio familiar, que inclui os outros parentes que emprestam ou presenteiam as crianças com livros, tal como aconteceu comigo, considero fundamental para a formação de um leitor crítico, interessado em buscar novas leituras, desafios, analisando o que está lendo, desenvolvendo capacidades, e sempre aprimorando suas estratégias de leitura.
Há casos, como nas escolas em que estudei, em que se percebe que muitas famílias não incentivavam os seus filhos a lerem, negando-lhes até mesmo os livros de leitura obrigatória da escola – mesmo tendo condições financeiras para comprá-los, o que acaba desestimulando o hábito da leitura nesses jovens. Quando não recebe esses incentivos, ainda assim o indivíduo pode se interessar pela leitura por conta própria, e conseguirá também todo o desenvolvimento falado anteriormente, no entanto vivenciará muito mais dificuldades em seu caminho, pois quanto maior o incentivo do meio em que vive – familiar e escolar – naturalmente terá um amplo acesso à leitura e o que facilitará um maior desenvolvimento. Ao mesmo tempo, em um cenário em que o indivíduo recebe tudo à sua disposição, no entanto rejeita o universo dos livros, ele não conseguirá desenvolver as suas capacidades.
Durante o Ensino Fundamental, o material didático da escola em que estudava continha diversos gêneros textuais, incluindo: letras de músicas populares na época e clássicos da MPB; poesias; contos; fábulas; charges; tirinhas; trechos de romances; artigos jornalísticos etc. Os textos não se limitavam aos livros de Português, Redação e Literatura – também faziam parte do material das aulas das Ciências Humanas e Biológicas, e um tanto mais limitados nos livros das Ciências Exatas, mas ainda presentes. A variedade de gêneros é importante para expandir o conhecimento do aluno, pois assim ele pode ter acesso a materiais que não são comuns ao seu cotidiano, como também pode analisar sob outro ponto de vista aquilo que já lhe é comum.
No ambiente escolar, torna-se fundamental a presença de textos com temáticas que os alunos conheçam previamente, e muito provavelmente gostam, como as tirinhas, mas que o professor consiga aos poucos inserir os estudos necessários no processo de aprendizagem dos alunos através de elementos novos, tais como as poesias e canções poéticas que não ouvimos com frequência, textos jornalísticos etc. Assim consegue motivar o aluno com o que já os atraem, e insere o novo para ele ampliar seus gostos e conhecimentos. Um exemplo disto ocorreu comigo, durante o Ensino Fundamental, quando li o trecho do livro Relato de um náufrago de Gabriel Garcia Márquez (1970) em uma atividade das aulas de Português, e fiquei muito interessada em ler toda a obra, o que veio a acontecer vários anos depois.
A criança precisa aprender a construir, aos poucos, autonomia na escolha de suas próprias leituras – para que essa atividade não fique sempre restrita ao que o professor exige e ele possa fazer dessa atividade um hábito prazeroso. Ao crescer há maior probabilidade do jovem continuar buscando o prazer através da leitura, e não apenas enxergar o livro como um retentor de conhecimentos, rígido, necessário e ao mesmo tempo obrigatório, o que o torna apenas um aborrecimento.
Na época do Ensino Fundamental, meu colégio organizava algumas atividades para estimularem a leitura. Quando menor, tinha uma biblioteca itinerante, que passava por cada sala de aula toda semana para escolhermos alguma nova leitura. Os alunos doavam alguns livros, para fazer circular a leitura entre nós, eu inclusive emprestei muitos gibis. O único lado ruim é que muitas vezes os colegas não tinham muito cuidado, e acabavam perdendo o livro do coleguinha.
No ambiente escolar tive contato com as obras de diversas coleções e grandes autores tais como Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Pedro Bandeira e as diversas coleções de livros: Coleção Olho no Lance, Coleção Vaga-Lume, Série Sinal Aberto, Para Gostar de Ler, Descobrindo os Clássicos etc. Muitas dessas obras o primeiro contato foi através de atividades obrigatórias na escola, mas que depois tornaram-se escolhas pessoais. Esse é um efeito desejado pelos professores, que cheios de boas intenções, passam livros para seus alunos, e exigem uma avaliação para “estimular” a leitura, mas no fundo esperam que eles sigam com o hábito de leitura. Infelizmente, a grande maioria dos alunos não criam esse hábito após a imposição realizada pela escola, e acabam por se distanciarem cada vez mais dos mundos dos livros, principalmente dos clássicos.
A coleção Descobrindo os Clássicos, por exemplo, reconta de forma bem diferente os grandes clássicos da literatura, e deveria servir apenas como uma introdução e estímulo para o aluno ler o original no futuro. Não é o que aconteceu comigo na prática. Os professores passaram a leitura, junto com uma atividade avaliativa, para nos preparar para a leitura da obra no futuro. Dessas adaptações que li, não me senti motivada o suficiente para ler nenhuma obra em sua versão original, já me dando por satisfeita com a leitura das adaptações – e, apesar das cobranças da escola/sociedade para eu ler os grandes clássicos, mesmo com as exigências do vestibular, apenas li os livros que me chamaram à atenção, e isso muitos anos depois.
Apesar de muitas vezes criticados negativamente pelos professores, as famosas séries infanto-juvenis (blockbusters) também são importantíssimas para atrair à atenção de jovens leitores, que muitas vezes começam a ler por prazer, através das famosas séries que, em geral, também recebem adaptações para o cinema. Durante toda a infância e a adolescência, segui lendo esses livros paralelamente às leituras recomendadas pela escola, o que apenas acrescentou ao meu processo de aprendizagem, ao invés de prejudicar, como assumem muitos críticos literários rigorosos (e ultrapassados).
A leitura do livro didático na escola, principalmente durante o Ensino Fundamental, algumas vezes foi feita individualmente, mas em sua maioria era realizada em voz alta, com cada um lendo até um ponto ou o parágrafo inteiro: nesse momento, nem os alunos, nem o professor, estavam se preocupando com o conteúdo do texto e as possíveis reflexões que poderíamos fazer, mas sim se sabíamos pronunciar todas as palavras, seguir as pontuações, entonações para afirmações e interrogações, se não estaríamos lendo atropeladamente, dentre outros “erros”. No fim, o aluno fica mais preocupado em fazer bonito do que entender o que está lendo. Não há interpretação e reflexão do texto assim. As perguntas feitas pelos professores ao final dessas atividades, em geral tratam o texto superficialmente. Muitas vezes, nas escolas em que estudei, os alunos eram questionados sobre o que o autor do texto “queria dizer”, como se fosse uma mensagem pronta na qual teríamos que decodificar. Outros professores, principalmente quando nos deixavam fazer uma leitura silenciosa do texto, perguntavam ao final nossa própria interpretação do texto, fugindo um pouco dessa ideia de decodificação apenas.
Quando criança, em um disciplina semelhante a de Filosofia e Sociologia, ministrada pela psicóloga da escola, era feita uma rodinha de leitura na qual líamos um conto d’ O livro das Virtudes para Crianças, de William J. Bennett (1997), e depois discutíamos o que entendemos da historinha. Apesar de não me lembrar do conteúdo dessas discussões, lembro apenas que era uma atividade prazerosa e que me aguça, até hoje, o desejo em ler mais histórias como aquelas que estavam no livro.
Nas idas às bibliotecas, eu seguia como estratégia pegar os livros de autores que eu já tinha gostado, ou outros livros que fossem das mesmas coleções que eu já aprovava – nessa época poderia reconhecer facilmente as cores e larguras dos livros, achando-os com facilidade na estante. Muitas vezes a bibliotecária censurava alguns livros, como as crônicas, alegando que era necessário estar em uma determinada série na escola, para poder ler o livro. Esta mesma bibliotecária costumava fechar a biblioteca durante o dia, para que os alunos não fossem buscar nada lá: proibindo que fossemos durante o horário de aula (nesse momento aberta), mas fechando-a na hora do intervalo e na saída. Nunca foi explicado o porquê dessa atitude dela, que teoricamente estaria seguindo uma ordem para fechar a biblioteca e impedir ao máximo o seu acesso (o que acho pouco provável). O resultado foi que os alunos desinteressados, cada vez mais evitavam pegar algum livro para ler, e os que gostavam, aos poucos também desistiam de ir até lá para encontrar quase sempre as portas fechadas. Em outra escola, era ainda pior, pois as estantes de livros ficavam dentro de uma sala de estudo, atrás de um balcão no qual nenhum aluno poderia entrar e teríamos que pedir para um colaborador da escola pegar o livro que desejávamos: assim eliminava o prazer de podermos olhar cada estante e escolher à vontade a próxima aventura. Nessa época, o ambiente era quase que totalmente frequentado por alunos pré-vestibulandos solicitando apenas livros didáticos das disciplinas que caem nas provas de vestibulares.
Como parte das minhas estratégias de leituras, eu preciso ler o texto individualmente para conseguir compreendê-lo (não funcionando aquela tática de leitura em voz alta das salas de aulas). Dependendo da densidade dos conteúdos em um texto, acabo escrevendo palavras-chaves ao lado do parágrafo; quando me disperso, começo a reler o trecho em que parei, até retomar o foco e muitas vezes elaboro uma explicação (em voz alta) do que compreendi até aquele ponto. Faço isso desde criança, e funciona até hoje estudando na graduação. A partir do terceiro ano, percebi que me concentro muito mais na leitura quando ouço música, assim como vários amigos que tem essa mesma estratégia.
No Ensino Médio, explorei novos caminhos literários, conhecendo obras do Barroco e Arcadismo e me surpreendi ao ler um livro clássico do Romantismo Brasileiro, o Cinco Minutos de José de Alencar (1856) e pela primeira vez senti prazer em ler uma obra clássica. Aos poucos fui rompendo minha resistência com essa literatura, e me envolvendo com textos diferentes da minha zona de conforto, começando com as peças teatrais de Ariano Suassuna, até aos poucos chegar nas obras originais de Clarice Lispector, Machado de Assis, Jorge Amado, Aluísio Azevedo, Ernest Hemingway, dentre outros. Também foi a partir do Ensino Médio que comecei a ler textos estrangeiros escritos originalmente em Inglês – a busca por textos escritos no idioma original, que mantém sua essência, passaram a se tornar um hábito para mim.
A República, escrito pelo filósofo Platão (século IV a.C.) foi uma das piores leituras obrigatórias da minha época escolar. A professora exigiu a leitura e pediu um trabalho avaliativo sobre o livro. No entanto, os alunos não leram, e cada um usou uma estratégia diferente para trapacear; eu mesma li trechos do livro, pulava vários parágrafos, e escrevia um pouco sobre as partes que lia. A professora tinha uma boa intenção, mas fingiu não perceber que não daria certo esse tipo de leitura para alunos de 14, 15 anos – pelo menos não dessa forma e com essa “motivação”. Nem sempre o planejamento do professor funciona na prática se não houver adaptações e uma maior integração da turma com as propostas didáticas.
No colégio, uma atividade que funcionou foi quando fizemos algumas peças teatrais de algumas leituras clássicas realizadas, como das obras Auto da Índia, de Gil Vicente (1509) e O Alienista, de Machado de Assis (1882). No terceiro ano, principalmente, tem as leituras obrigatórias do vestibular que ninguém lê (nem tanto por falta de vontade, mais pela falta de tempo por causa do estudo de todas as disciplinas), então os professores costumam passar resumos dessas obras para os seus alunos. A minha professora de literatura, sabia conduzir bem essas aulas, pois fazia todo o resumo do livro, como se estivesse contando um conto – seduzindo os alunos para a história, explicando alguns elementos da obra, contextualizando, e comparando com outras histórias. Essa atividade não substituiu a leitura, no entanto serviu para eu fazer a prova e criou o interesse para no futuro ler esses livros.
A partir do último ano do Ensino Médio (incluindo os primeiros anos de faculdade), a quantidade de conteúdo a ser estudado limitou todas as minhas atividades extraclasses, fazendo com que eu abandonasse quase por total a leitura de livros por alguns anos. No entanto, substituí esse hábito pelo da leitura de fanfics (ou fanfictions) – textos online, postados em capítulos de 1.200 a 5.000 palavras, em que qualquer pessoal pode escrever, e postar na frequência que desejar, histórias que variam de originais a adaptações de livros, filmes, seriados ou mangás. Por essa inconstância da data de postagem de cada autor faz com que os leitores passem a acompanhar mais de uma fanfic ao mesmo tempo. Quando eu lia uma fanfic, acabava fazendo uma leitura mais despretensiosa, saltando parágrafos que considerava desinteressante e até desistindo de algumas histórias. Acabei me acostumando com esse tipo de leitura virtual, e ao voltar pra leitura de livros, me sentia impaciente e muito ansiosa para continuar seguindo uma leitura tradicional, sem pular nenhum trecho, e curiosa em saber o que aconteceria mais à frente naquela história.
Durante o estudo para o vestibular, aperfeiçoei a estratégia de leitura em que se realiza um scanner de informações no texto, tal como já praticava antes para responder as questões de interpretação de textos do colégio, assim poderia ler cada vez mais rápido para obter sucesso nas provas do ENEM. Ainda hoje utilizo muito essa técnica durante as leituras de textos teóricos na universidade, para procurar as informações que mais preciso. Esse scanner é feito basicamente procurando determinadas palavras-chaves que indicam aonde a informação desejada se encontra.
Na graduação que fiz em Engenharia da Computação, a leitura se limitava aos resumos dos conceitos nas apresentações em Power Point dos professores – havia livros didáticos, no entanto serviam apenas como uma rápida consulta (ou nem isso). A escrita se limitava aos códigos computacionais, e aos resumos que eu fazia para estudar o conteúdo teórico. A falta da leitura e escrita nesse período foi um dos fatores que me fizeram trocar de curso.
Sobre as estratégias de escrita, ainda na escola, desde o começo do Ensino Fundamental até estudando para o vestibular, eu costumava fazer um resumo de todas as disciplinas para estudar para as provas, através de tópicos e curtos parágrafos, quase como um fichamento do conteúdo visto em sala de aula. Apesar de não utilizar mais essa estratégia por não ser mais necessário estudar assim, transferi sua adaptação para a produção textual de textos acadêmicos, nos quais escrevo em tópicos os pontos que precisarei abordar ao longo do texto. Essa escrita acaba por ser uma forma de organizar os pensamentos. Da mesma forma, a utilizo sempre no dia-a-dia, no formato de listas sobre o que preciso fazer, ou na organização de quaisquer dados.
Esse hábito de listas começou durante a quinta série do EF (hoje sexto ano), após uma escola exigir que os alunos tivessem uma agenda escolar para anotar o que precisávamos fazer. Tive uma ótima adaptação à essa proposta da escola, e todo ano, até hoje, compro uma agenda com esse intuito. Também nessa época, utilizei a escrita para fazer um diário pessoal: no começo eu colava mais fotos de revistas, do que propriamente escrevia algo. Ao ter muita dificuldade e ansiedade em reunir todos os detalhes do dia em apenas uma página, acabei por abandonar essa prática por um tempo, retomando novamente ao final da adolescência, e agora esse diário se encontra o oposto de como eram feitos os primeiros: todas as páginas são preenchidas por relatos pessoais, e praticamente sem imagens.
No Ensino Fundamental I, a escola passava deveres de casa diários, e exigia que tínhamos que copiar as perguntas e textos no caderno, além da resposta. Essa prática que, provavelmente, esperava que aumentasse o nosso hábito de escrever, era odiada por todos os alunos, pois achávamos totalmente inútil perdermos tempo reescrevendo tudo que já estava impresso, ao invés de apenas respondermos as questões. Há formas mais criativas e menos aborrecidas de fazer os alunos escreverem, e muito mais atrativas, ao invés desta que pode afastar cada vez mais o estudante da prática.
Quando eu era criança e escrevia os trabalhos da escola, às vezes precisava seguir a seguinte estratégia: escrevia o que eu sabia, mas para complementar o texto, copiava o conteúdo encontrado na internet e disfarçava mudando a ordem que os assuntos eram abordados, substituído as palavras por sinônimos e escrevendo os resumos dos parágrafos do texto original. No Ensino Médio as atividades de classe não precisavam deste recurso, os professores pediam poucas pesquisas, e no terceiro ano não existiam mais os “deveres de casa”. Estudando Letras, a escrita é com base em diversos textos teóricos, que são selecionados para dar suporte ao texto, e são propriamente citados. A escrita desses textos universitários é sempre feita de forma irregular: eu prefiro escrever diversos tópicos que preciso abordar no texto, depois disserto sobre cada um deles, adaptando de acordo com o gênero textual exigido. Hoje em dia não consigo escrever textos de forma manuscrita, pois é recorrente a mudança na ordem dos parágrafos, na ordem das ideias apresentadas no texto, troca de palavras, acréscimo ou exclusão de citações etc. Para o meu texto ficar pronto, ainda recebe algumas releituras e reformulações. Pelo hábito maior de escrita, cada vez mais se torna mais rápida sua produção, e cada vez mais longos.
Quando ingressei no curso de Letras Português, aumentou a quantidade e qualidade de minha produção escrita e de leituras realizadas. Parte das leituras foram realizadas obrigatoriamente, de textos literários e teóricos, mas uma boa parcela foi realizada por prazer e para uma ampliação de conhecimento, que com o passar do tempo foram se mostrando necessárias para um estudo continuado: conforme se estuda mais profundamente a linguística e literatura, textos que antes pareciam supérfluos, tornaram-se interessantes e me motivaram a sua leitura, como o que aconteceu com a leitura dos livros clássicos. Aos poucos, senti uma maior maturidade literária que me permitiu ampliar novos horizontes e conhecer autores de outras partes do mundo como Dostoiévski, e literaturas de outras culturas, como a árabe; mas sem deixar de ler também os livros blockbusters. Livros que integram a literatura infanto-juvenil também continuam sendo lidos, no entanto, agora com um olhar crítico e reflexivo. A escrita também sofreu uma mudança nesse período, tornando-se mais consciente das responsabilidades de usar uma base teórica, citá-la corretamente, abordar temáticas interessantes e tomar cuidado com a linguagem utilizada, e por fim, exercitando a escrita fora do ambiente estudantil, na produção de um blog com pequenas crônicas de casos cotidianos. :)
Há casos, como nas escolas em que estudei, em que se percebe que muitas famílias não incentivavam os seus filhos a lerem, negando-lhes até mesmo os livros de leitura obrigatória da escola – mesmo tendo condições financeiras para comprá-los, o que acaba desestimulando o hábito da leitura nesses jovens. Quando não recebe esses incentivos, ainda assim o indivíduo pode se interessar pela leitura por conta própria, e conseguirá também todo o desenvolvimento falado anteriormente, no entanto vivenciará muito mais dificuldades em seu caminho, pois quanto maior o incentivo do meio em que vive – familiar e escolar – naturalmente terá um amplo acesso à leitura e o que facilitará um maior desenvolvimento. Ao mesmo tempo, em um cenário em que o indivíduo recebe tudo à sua disposição, no entanto rejeita o universo dos livros, ele não conseguirá desenvolver as suas capacidades.
Durante o Ensino Fundamental, o material didático da escola em que estudava continha diversos gêneros textuais, incluindo: letras de músicas populares na época e clássicos da MPB; poesias; contos; fábulas; charges; tirinhas; trechos de romances; artigos jornalísticos etc. Os textos não se limitavam aos livros de Português, Redação e Literatura – também faziam parte do material das aulas das Ciências Humanas e Biológicas, e um tanto mais limitados nos livros das Ciências Exatas, mas ainda presentes. A variedade de gêneros é importante para expandir o conhecimento do aluno, pois assim ele pode ter acesso a materiais que não são comuns ao seu cotidiano, como também pode analisar sob outro ponto de vista aquilo que já lhe é comum.
No ambiente escolar, torna-se fundamental a presença de textos com temáticas que os alunos conheçam previamente, e muito provavelmente gostam, como as tirinhas, mas que o professor consiga aos poucos inserir os estudos necessários no processo de aprendizagem dos alunos através de elementos novos, tais como as poesias e canções poéticas que não ouvimos com frequência, textos jornalísticos etc. Assim consegue motivar o aluno com o que já os atraem, e insere o novo para ele ampliar seus gostos e conhecimentos. Um exemplo disto ocorreu comigo, durante o Ensino Fundamental, quando li o trecho do livro Relato de um náufrago de Gabriel Garcia Márquez (1970) em uma atividade das aulas de Português, e fiquei muito interessada em ler toda a obra, o que veio a acontecer vários anos depois.
A criança precisa aprender a construir, aos poucos, autonomia na escolha de suas próprias leituras – para que essa atividade não fique sempre restrita ao que o professor exige e ele possa fazer dessa atividade um hábito prazeroso. Ao crescer há maior probabilidade do jovem continuar buscando o prazer através da leitura, e não apenas enxergar o livro como um retentor de conhecimentos, rígido, necessário e ao mesmo tempo obrigatório, o que o torna apenas um aborrecimento.
Na época do Ensino Fundamental, meu colégio organizava algumas atividades para estimularem a leitura. Quando menor, tinha uma biblioteca itinerante, que passava por cada sala de aula toda semana para escolhermos alguma nova leitura. Os alunos doavam alguns livros, para fazer circular a leitura entre nós, eu inclusive emprestei muitos gibis. O único lado ruim é que muitas vezes os colegas não tinham muito cuidado, e acabavam perdendo o livro do coleguinha.
No ambiente escolar tive contato com as obras de diversas coleções e grandes autores tais como Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Pedro Bandeira e as diversas coleções de livros: Coleção Olho no Lance, Coleção Vaga-Lume, Série Sinal Aberto, Para Gostar de Ler, Descobrindo os Clássicos etc. Muitas dessas obras o primeiro contato foi através de atividades obrigatórias na escola, mas que depois tornaram-se escolhas pessoais. Esse é um efeito desejado pelos professores, que cheios de boas intenções, passam livros para seus alunos, e exigem uma avaliação para “estimular” a leitura, mas no fundo esperam que eles sigam com o hábito de leitura. Infelizmente, a grande maioria dos alunos não criam esse hábito após a imposição realizada pela escola, e acabam por se distanciarem cada vez mais dos mundos dos livros, principalmente dos clássicos.
A coleção Descobrindo os Clássicos, por exemplo, reconta de forma bem diferente os grandes clássicos da literatura, e deveria servir apenas como uma introdução e estímulo para o aluno ler o original no futuro. Não é o que aconteceu comigo na prática. Os professores passaram a leitura, junto com uma atividade avaliativa, para nos preparar para a leitura da obra no futuro. Dessas adaptações que li, não me senti motivada o suficiente para ler nenhuma obra em sua versão original, já me dando por satisfeita com a leitura das adaptações – e, apesar das cobranças da escola/sociedade para eu ler os grandes clássicos, mesmo com as exigências do vestibular, apenas li os livros que me chamaram à atenção, e isso muitos anos depois.
Apesar de muitas vezes criticados negativamente pelos professores, as famosas séries infanto-juvenis (blockbusters) também são importantíssimas para atrair à atenção de jovens leitores, que muitas vezes começam a ler por prazer, através das famosas séries que, em geral, também recebem adaptações para o cinema. Durante toda a infância e a adolescência, segui lendo esses livros paralelamente às leituras recomendadas pela escola, o que apenas acrescentou ao meu processo de aprendizagem, ao invés de prejudicar, como assumem muitos críticos literários rigorosos (e ultrapassados).
A leitura do livro didático na escola, principalmente durante o Ensino Fundamental, algumas vezes foi feita individualmente, mas em sua maioria era realizada em voz alta, com cada um lendo até um ponto ou o parágrafo inteiro: nesse momento, nem os alunos, nem o professor, estavam se preocupando com o conteúdo do texto e as possíveis reflexões que poderíamos fazer, mas sim se sabíamos pronunciar todas as palavras, seguir as pontuações, entonações para afirmações e interrogações, se não estaríamos lendo atropeladamente, dentre outros “erros”. No fim, o aluno fica mais preocupado em fazer bonito do que entender o que está lendo. Não há interpretação e reflexão do texto assim. As perguntas feitas pelos professores ao final dessas atividades, em geral tratam o texto superficialmente. Muitas vezes, nas escolas em que estudei, os alunos eram questionados sobre o que o autor do texto “queria dizer”, como se fosse uma mensagem pronta na qual teríamos que decodificar. Outros professores, principalmente quando nos deixavam fazer uma leitura silenciosa do texto, perguntavam ao final nossa própria interpretação do texto, fugindo um pouco dessa ideia de decodificação apenas.
Quando criança, em um disciplina semelhante a de Filosofia e Sociologia, ministrada pela psicóloga da escola, era feita uma rodinha de leitura na qual líamos um conto d’ O livro das Virtudes para Crianças, de William J. Bennett (1997), e depois discutíamos o que entendemos da historinha. Apesar de não me lembrar do conteúdo dessas discussões, lembro apenas que era uma atividade prazerosa e que me aguça, até hoje, o desejo em ler mais histórias como aquelas que estavam no livro.
Nas idas às bibliotecas, eu seguia como estratégia pegar os livros de autores que eu já tinha gostado, ou outros livros que fossem das mesmas coleções que eu já aprovava – nessa época poderia reconhecer facilmente as cores e larguras dos livros, achando-os com facilidade na estante. Muitas vezes a bibliotecária censurava alguns livros, como as crônicas, alegando que era necessário estar em uma determinada série na escola, para poder ler o livro. Esta mesma bibliotecária costumava fechar a biblioteca durante o dia, para que os alunos não fossem buscar nada lá: proibindo que fossemos durante o horário de aula (nesse momento aberta), mas fechando-a na hora do intervalo e na saída. Nunca foi explicado o porquê dessa atitude dela, que teoricamente estaria seguindo uma ordem para fechar a biblioteca e impedir ao máximo o seu acesso (o que acho pouco provável). O resultado foi que os alunos desinteressados, cada vez mais evitavam pegar algum livro para ler, e os que gostavam, aos poucos também desistiam de ir até lá para encontrar quase sempre as portas fechadas. Em outra escola, era ainda pior, pois as estantes de livros ficavam dentro de uma sala de estudo, atrás de um balcão no qual nenhum aluno poderia entrar e teríamos que pedir para um colaborador da escola pegar o livro que desejávamos: assim eliminava o prazer de podermos olhar cada estante e escolher à vontade a próxima aventura. Nessa época, o ambiente era quase que totalmente frequentado por alunos pré-vestibulandos solicitando apenas livros didáticos das disciplinas que caem nas provas de vestibulares.
Como parte das minhas estratégias de leituras, eu preciso ler o texto individualmente para conseguir compreendê-lo (não funcionando aquela tática de leitura em voz alta das salas de aulas). Dependendo da densidade dos conteúdos em um texto, acabo escrevendo palavras-chaves ao lado do parágrafo; quando me disperso, começo a reler o trecho em que parei, até retomar o foco e muitas vezes elaboro uma explicação (em voz alta) do que compreendi até aquele ponto. Faço isso desde criança, e funciona até hoje estudando na graduação. A partir do terceiro ano, percebi que me concentro muito mais na leitura quando ouço música, assim como vários amigos que tem essa mesma estratégia.
No Ensino Médio, explorei novos caminhos literários, conhecendo obras do Barroco e Arcadismo e me surpreendi ao ler um livro clássico do Romantismo Brasileiro, o Cinco Minutos de José de Alencar (1856) e pela primeira vez senti prazer em ler uma obra clássica. Aos poucos fui rompendo minha resistência com essa literatura, e me envolvendo com textos diferentes da minha zona de conforto, começando com as peças teatrais de Ariano Suassuna, até aos poucos chegar nas obras originais de Clarice Lispector, Machado de Assis, Jorge Amado, Aluísio Azevedo, Ernest Hemingway, dentre outros. Também foi a partir do Ensino Médio que comecei a ler textos estrangeiros escritos originalmente em Inglês – a busca por textos escritos no idioma original, que mantém sua essência, passaram a se tornar um hábito para mim.
A República, escrito pelo filósofo Platão (século IV a.C.) foi uma das piores leituras obrigatórias da minha época escolar. A professora exigiu a leitura e pediu um trabalho avaliativo sobre o livro. No entanto, os alunos não leram, e cada um usou uma estratégia diferente para trapacear; eu mesma li trechos do livro, pulava vários parágrafos, e escrevia um pouco sobre as partes que lia. A professora tinha uma boa intenção, mas fingiu não perceber que não daria certo esse tipo de leitura para alunos de 14, 15 anos – pelo menos não dessa forma e com essa “motivação”. Nem sempre o planejamento do professor funciona na prática se não houver adaptações e uma maior integração da turma com as propostas didáticas.
No colégio, uma atividade que funcionou foi quando fizemos algumas peças teatrais de algumas leituras clássicas realizadas, como das obras Auto da Índia, de Gil Vicente (1509) e O Alienista, de Machado de Assis (1882). No terceiro ano, principalmente, tem as leituras obrigatórias do vestibular que ninguém lê (nem tanto por falta de vontade, mais pela falta de tempo por causa do estudo de todas as disciplinas), então os professores costumam passar resumos dessas obras para os seus alunos. A minha professora de literatura, sabia conduzir bem essas aulas, pois fazia todo o resumo do livro, como se estivesse contando um conto – seduzindo os alunos para a história, explicando alguns elementos da obra, contextualizando, e comparando com outras histórias. Essa atividade não substituiu a leitura, no entanto serviu para eu fazer a prova e criou o interesse para no futuro ler esses livros.
A partir do último ano do Ensino Médio (incluindo os primeiros anos de faculdade), a quantidade de conteúdo a ser estudado limitou todas as minhas atividades extraclasses, fazendo com que eu abandonasse quase por total a leitura de livros por alguns anos. No entanto, substituí esse hábito pelo da leitura de fanfics (ou fanfictions) – textos online, postados em capítulos de 1.200 a 5.000 palavras, em que qualquer pessoal pode escrever, e postar na frequência que desejar, histórias que variam de originais a adaptações de livros, filmes, seriados ou mangás. Por essa inconstância da data de postagem de cada autor faz com que os leitores passem a acompanhar mais de uma fanfic ao mesmo tempo. Quando eu lia uma fanfic, acabava fazendo uma leitura mais despretensiosa, saltando parágrafos que considerava desinteressante e até desistindo de algumas histórias. Acabei me acostumando com esse tipo de leitura virtual, e ao voltar pra leitura de livros, me sentia impaciente e muito ansiosa para continuar seguindo uma leitura tradicional, sem pular nenhum trecho, e curiosa em saber o que aconteceria mais à frente naquela história.
Durante o estudo para o vestibular, aperfeiçoei a estratégia de leitura em que se realiza um scanner de informações no texto, tal como já praticava antes para responder as questões de interpretação de textos do colégio, assim poderia ler cada vez mais rápido para obter sucesso nas provas do ENEM. Ainda hoje utilizo muito essa técnica durante as leituras de textos teóricos na universidade, para procurar as informações que mais preciso. Esse scanner é feito basicamente procurando determinadas palavras-chaves que indicam aonde a informação desejada se encontra.
Na graduação que fiz em Engenharia da Computação, a leitura se limitava aos resumos dos conceitos nas apresentações em Power Point dos professores – havia livros didáticos, no entanto serviam apenas como uma rápida consulta (ou nem isso). A escrita se limitava aos códigos computacionais, e aos resumos que eu fazia para estudar o conteúdo teórico. A falta da leitura e escrita nesse período foi um dos fatores que me fizeram trocar de curso.
Sobre as estratégias de escrita, ainda na escola, desde o começo do Ensino Fundamental até estudando para o vestibular, eu costumava fazer um resumo de todas as disciplinas para estudar para as provas, através de tópicos e curtos parágrafos, quase como um fichamento do conteúdo visto em sala de aula. Apesar de não utilizar mais essa estratégia por não ser mais necessário estudar assim, transferi sua adaptação para a produção textual de textos acadêmicos, nos quais escrevo em tópicos os pontos que precisarei abordar ao longo do texto. Essa escrita acaba por ser uma forma de organizar os pensamentos. Da mesma forma, a utilizo sempre no dia-a-dia, no formato de listas sobre o que preciso fazer, ou na organização de quaisquer dados.
Esse hábito de listas começou durante a quinta série do EF (hoje sexto ano), após uma escola exigir que os alunos tivessem uma agenda escolar para anotar o que precisávamos fazer. Tive uma ótima adaptação à essa proposta da escola, e todo ano, até hoje, compro uma agenda com esse intuito. Também nessa época, utilizei a escrita para fazer um diário pessoal: no começo eu colava mais fotos de revistas, do que propriamente escrevia algo. Ao ter muita dificuldade e ansiedade em reunir todos os detalhes do dia em apenas uma página, acabei por abandonar essa prática por um tempo, retomando novamente ao final da adolescência, e agora esse diário se encontra o oposto de como eram feitos os primeiros: todas as páginas são preenchidas por relatos pessoais, e praticamente sem imagens.
No Ensino Fundamental I, a escola passava deveres de casa diários, e exigia que tínhamos que copiar as perguntas e textos no caderno, além da resposta. Essa prática que, provavelmente, esperava que aumentasse o nosso hábito de escrever, era odiada por todos os alunos, pois achávamos totalmente inútil perdermos tempo reescrevendo tudo que já estava impresso, ao invés de apenas respondermos as questões. Há formas mais criativas e menos aborrecidas de fazer os alunos escreverem, e muito mais atrativas, ao invés desta que pode afastar cada vez mais o estudante da prática.
Quando eu era criança e escrevia os trabalhos da escola, às vezes precisava seguir a seguinte estratégia: escrevia o que eu sabia, mas para complementar o texto, copiava o conteúdo encontrado na internet e disfarçava mudando a ordem que os assuntos eram abordados, substituído as palavras por sinônimos e escrevendo os resumos dos parágrafos do texto original. No Ensino Médio as atividades de classe não precisavam deste recurso, os professores pediam poucas pesquisas, e no terceiro ano não existiam mais os “deveres de casa”. Estudando Letras, a escrita é com base em diversos textos teóricos, que são selecionados para dar suporte ao texto, e são propriamente citados. A escrita desses textos universitários é sempre feita de forma irregular: eu prefiro escrever diversos tópicos que preciso abordar no texto, depois disserto sobre cada um deles, adaptando de acordo com o gênero textual exigido. Hoje em dia não consigo escrever textos de forma manuscrita, pois é recorrente a mudança na ordem dos parágrafos, na ordem das ideias apresentadas no texto, troca de palavras, acréscimo ou exclusão de citações etc. Para o meu texto ficar pronto, ainda recebe algumas releituras e reformulações. Pelo hábito maior de escrita, cada vez mais se torna mais rápida sua produção, e cada vez mais longos.
Quando ingressei no curso de Letras Português, aumentou a quantidade e qualidade de minha produção escrita e de leituras realizadas. Parte das leituras foram realizadas obrigatoriamente, de textos literários e teóricos, mas uma boa parcela foi realizada por prazer e para uma ampliação de conhecimento, que com o passar do tempo foram se mostrando necessárias para um estudo continuado: conforme se estuda mais profundamente a linguística e literatura, textos que antes pareciam supérfluos, tornaram-se interessantes e me motivaram a sua leitura, como o que aconteceu com a leitura dos livros clássicos. Aos poucos, senti uma maior maturidade literária que me permitiu ampliar novos horizontes e conhecer autores de outras partes do mundo como Dostoiévski, e literaturas de outras culturas, como a árabe; mas sem deixar de ler também os livros blockbusters. Livros que integram a literatura infanto-juvenil também continuam sendo lidos, no entanto, agora com um olhar crítico e reflexivo. A escrita também sofreu uma mudança nesse período, tornando-se mais consciente das responsabilidades de usar uma base teórica, citá-la corretamente, abordar temáticas interessantes e tomar cuidado com a linguagem utilizada, e por fim, exercitando a escrita fora do ambiente estudantil, na produção de um blog com pequenas crônicas de casos cotidianos. :)