Está tudo bem.
Está nada bem.
Quarentena é conflito.
Talvez deste relato, você em nada se identifique. Pois muito bem, cada um passa por essa experiência de forma diferente. Uns muito mal, inumeráveis são os cenários ruins dessa situação, mas minha parca imaginação consegue citar duas: faltar os elementos básicos – comida, água, luz, higiene – ou ser atingido pela enfermidade assombrosa.
Me encontro dentre o grupo privilegiado. Família aparentemente em segurança – não sabemos o dia de amanhã, financeiramente estável, casa abastecida e com muita coisa para fazer. Como boa ser humano que sou, sempre me falta algo. Uma casa um tantinho maior, para fazer mil coisa mais, quem sabe?!
Primeiros dias foram, em geral, muito bons. Produtividade máxima. Estudando, aprendendo coisas novas, tudo com horário, “cantinho da leitura”, home office, dança, tv com sinal aberto, séries, filmes, violão. Sensação estranha na barriga, será o ensaio de uma gastrite nervosa?
Googlei. Rolou umas mini saídas de casa para caminhada, duas vezes apenas, logo parei. Aí começa o problema. Atingiu um nervo não poder sair, a nova rotina tornou-se efetivamente uma – rotina – e claro, rotina estressa. Pequenas irritabilidades tornaram-se grandes. Escrever, ler, trabalhar, responder mensagens, dançar, comer, ler, dormir cedo, tv, mensagem, série, comer, aaaaa! Frio na barriga aumentando. Lendo cada vez mais, numa competição sem sentido, um livro não basta, quero ler tudo ao mesmo tempo. As manhãs que geralmente são mais produtivas, ficam pequenas para tanta coisa.
Claro que quem se cobra demais, iria fazer até pior nesse período.
Chateação no auge, um pequeno surto. Não quero encontrar um
hd externo para colocar filmes. Pre-ci-so encontrar o
hd externo. Mesmo sendo noite e tendo asma e alergias e ele provavelmente estar no armário cheio de mofo amazônico (sei lá se isso existe, mas falo da Amazônia, ainda em tempos de chuva e umidade 1000%). Coloquei uma máscara na cara e vasculhei tudo. Resultado: quatro sacos de lixos, uns tantos de roupas para doação e nada de
hd. Até que foi terapêutico. No outro dia encontrei-o em outro lugar, rapidinho.
Produtividade caiu, o ânimo ainda mais. Culpa, essa aumentou. Sensação nervosa diminuiu, pelo menos.
Saí. Fomos para o sítio, no meio da tarde. Quebra de regras. Comprei sorvete. Desci do carro uns 500m antes da porteira. Liguei o som do celular. Corri em ziguezague e trotando, e corrida normal, ziguezague de novo. Respirei ar puro. Depois a melancolia bateu. Nada daquilo parecia verdadeiro – felicidade fabricada, não era real a alegria.
De lá posso ver o rio. Na
playlist esquisita começou a tocar um jazz, e piegas-mente, estava a olhar a floresta e rio um tanto distantes. Fiquei mais triste.
Mas há alegrias também: jogos, florzinha da castanheira que amo, volta para casa.
Alguns
deliveries de comida, fortunas no supermercado.
Insisti em algumas saídas de casa e claro que deu errado. O ar está extremamente carregado, de energia mais que negativa – contagiosa também. Dessa vez do sítio, senti alergias nas dobras do cotovelo, que me voltam todas as tardes. Noutra, saí de bicicleta e fiquei bastante impressionada com um rapaz pilotando uma moto que não parava de espirrar à minha frente. Outra vez, na mesma bicicleta, peguei um temporal na volta e na última, um carro fez uma curva no meio fio e passou por cima do meu pneu traseiro. Definitivamente, não saio mais com ela.
Me chateei com a nova mania das
lives. Mas não por elas, propriamente e sim porque cheguei a uma simples conclusão, quando percebi que estava perdendo todas elas: no cotidiano pós-covid, perdia todas as saidinhas, e agora na quarentena, enquanto uns compravam bebidas para ver os shows ao vivo online (as
lives) eu só fico sabendo através das fotos no dia posterior – uma eterna desinformada.
Gostaria de ter meu texto escrito, sem escrevê-lo. Queria o livro lido ao começá-lo. Gostaria do corpo de dois anos atrás, mas fico mole nos cinco primeiros minutos do exercício. Queria estar na Espanha agora, mas não nessa, a de dois meses atrás.
Ainda não consegui soltar a mão de minha última viagem, tampouco tive inspiração para escrever sobre ela. Sigo lendo os livros que trouxe, assistindo TVE e ouvindo Cadena 100. Vejo alguns filmes espanhóis e séries, ouço músicas, falo castelhano aqui e ali. O telejornal deles não para de falar do Corona (o nosso também não). As ruas, que nas minhas fotos estavam cheias, agora estão vazias. Uma tristeza completa. Em dia de recordes de mortes, caí na pilha e pensei naqueles que conheci. Entrei nas redes sociais dos albergues que fiquei, aparentemente tudo bem, fechados, mas bem. Conheci uma moça que morava na Itália e foi pra Madrid celebrar o aniversário. Não lembro o nome de sua cidade. Será que aconteceu alguma coisa com ela? Fiquemos sem a resposta.
Dá um vazio, não é?! Também estou sentindo. Dizem que o mundo não voltará a ser como antes. Sou cética. Não imagino as pessoas sendo menos má, egoístas, ambiciosas etc. E se elas continuarem assim, não vejo como o mundo seria melhor. Talvez o fato de continuarmos com um grande exemplo de absurdo e impunidade, que é o nosso presidente como um todo, que consegue ter ainda tantos apoiadores, fazer tanto trabalho, incentiva essa minha incredulidade.
Morreu alguém perto da minha cidade. Ainda ninguém por aqui. Na maioria do tempo não paro para pensar nas vítimas, apesar que essa acendeu uma luzinha vermelha no fim da mente, mas geralmente encaro tudo isso com frieza. Penso que se parar para pensar no sofrimento alheio, irei por um caminho sem volta. Desespero, medo, angústia e ansiedade? Estou evitando, obrigada. Prefiro mergulhar em egoísmo, e me alienar em falsa proteção antes a cair na tristeza que os números, que são vidas, ou melhor, atuais não-vidas, nos mostram.
Se você esperava chegar aqui no final do texto e ter compreendido alguma mensagem, sinto muito. Fiz um relato-desabafo, pois espero que eu não seja a única com esses tipos de pensamentos, reflexões e trapalhadas. Quase um mês de quarentena, dias bons, dias ruins, mas pelo menos dias para trás e pela frente. Esboço de um sorrisinho no canto da boca por tudo que deu para fazer e por estar no fundo tudo bem, porque sabemos o quanto poderia ser pior para a gente, pois está sendo pior para tantos...
Um dia, estava bem focada em tudo o que não consegui fazer. Mas nesse dia aprendi uma canção
country que nem em meus melhores sonhos imaginei conseguir tocar. Então se é para deixar alguma mensagem, vou sussurrar aqui –
foca nas coisas boas e segue em frente. Digo para vocês, mas principalmente para o meu eu-surtado interior.
Camila
Marabá, 12 abril de 2020.