segunda-feira, 30 de maio de 2016

COMO É VIVER NA AMAZÔNIA?


Rio Tocantins. Foto: Arquivo Pessoal


Eu moro na Amazônia. E não, não imagine o cenário do filme Tainá, porque a realidade é bem diferente. Eu vivo em uma cidade chamada Marabá, que fica no Sudeste do Pará – ou como eu tenho que falar pra quem é de fora, pertinho de Carajás. Da Vale. Serra Pelada. “Ah, tá”.

A região amazônica, para a maioria dos brasileiros, ainda é um grande mistério; muitos imaginam uma realidade totalmente diferente, beirando o surreal, ou até mesmo a desconhecendo totalmente. Ainda assim, podemos encontrar muitas informações sobre ela, em reportagens e etc.; por isso, para manter um pouco a originalidade, vou falar aqui da Amazônia pelo meu ponto de vista, isto é, destacando a cidade em que vivo e algumas das coisas que já vi, ouvi e vivencio por aqui. Infelizmente muito vai ficar de fora, mas espero conseguir homenagear minha terra adotiva, e fazer com que vocês que ainda não a conhecem, entendam um pouco como é o dia a dia de quem vive com onças atravessando a rua.

Eu passei minha infância e parte da adolescência aqui, e como toda aborrecente (do meio em que eu vivia), dei graças aos céus quando fui estudar fora. Passei um período em Recife, e sou daquele tipo viciada em shopping, cinema, internet banda larga e outras cosmopolices. Logo, choquei todo mundo quando abandonei tudo e voltei pro Pará. Realidades (que batem à porta) à parte, eu começo a imaginar se não foi alguma magia da floresta que me trouxe de volta. Apesar dessas coisas não existirem. Será?!

1. MIX

A região amazônica brasileira possui Estados que se caracterizam, em geral, por suas grandes extensões territoriais, porém ainda pouco habitadas, principalmente quando comparadas com outros centros urbanos. Existem ainda muitas áreas de mata virgem, e como aprendemos na aula de história/geografia foi à custa de muitos sacrifícios, conflitos e terríveis consequências que as demais foram habitadas, como durante o Ciclo da Borracha, Corrida pelo Ouro em Serra Pelada, dentre outros movimentos migratórios (e extrativistas).

A minha cidade, tem como forte característica, desde sua origem, o grande fluxo migratório. Isso se deve em parte ao exército, que tem em Marabá uma forte base, com diversos quartéis. Além disso, contamos com pessoas de todas as regiões do país que vêm em busca de oportunidades, pois a cidade tem apenas 103 anos e bastante espaço pra muita gente crescer.

Apesar de toda essa mistura ser o nosso charme – e fonte de conhecimento e diversidade, também é fonte de problemas, tais como: crescimento desordenado, pouca conscientização da população, violência e etc etc. Isso, claro, não se limita à Marabá, no entanto, pois falando em Pará, a pouca assistência e grandes problemas é figurinha fácil.

A alta taxa de migração e suas tantas influências acabam deixando Marabá com um pouquinho de cada lugar. Até o sotaque eu não considero bem definido – enquanto uns insistem que falamos parecido com os maranhenses (e aparentemente, é realmente a nossa maior influência), é comum você ouvir pelas ruas os sotaques da região norte do estado (sotaque de Belém), do centro-oeste e também do sul do país.

2. MARABÁ

Fonte: http://portalcanaa.com.br/wp-content/uploads/2016/04/Marab%C3%A1Cidade.jpg
Marabá fica distante 485 km da capital Belém, ao sul do Estado do Pará. Como eu disse lá em cima, aonde vivo não se parece nem um pouco com o cenário do filme da indiazinha Tainá. Quem dera fosse. Aqui é uma cidade em desenvolvimento, com shopping, cinemas, universidades, indústrias, muitas empresas, e tals; numa cidade que não digo que é grande, mas pequena também não é mais. Já passamos da fase de só floresta e fazendas.

Uma coisa engraçada aqui é que, no núcleo chamado “Nova Marabá”, o mapa do projeto original foi feito no formato de uma castanheira, no qual as folhas são os nomes dos bairros. Eu sinceramente nunca enxerguei uma castanheira nesse mapa, muito menos entendi porque a Folha 6 fica ao lado da Folha 12. Na verdade essa parte ninguém entende.


Velha Marabá Foto: http://maraba.pa.gov.br/mapa-da-cidade/

Eu moro no centro, chamado também de Velha Marabá, que é tipo uma ilha em formato de y, rodeada a direita pelo Rio Tocantins e a esquerda pelo Rio Itacaiúnas. Minha rua fica no limite deste último rio, então atrás da minha casa está a mata ciliar dele. A vantagem de morar na Amazônia é essa abundância de água: diversos rios cruzam a cidade, dentre eles os mais importantes são os dois acima. É no Rio Tocantins que fica a mais famosa praia da cidade, e é também na beira deste rio que temos a orla onde ficam alguns dos bares e restaurantes mais famosos.



É na orla o pôr-do-sol mais bonito do Brasil. Foto: Acervo Pessoal

Como estou prezando pela sinceridade com vocês, não posso deixar de comentar o apelidinho agradável que a cidade tem: "Marabala". Uma sutil referência à época que se resolvia tudo na bala por aqui, no qual as pessoas saiam com pistolas na cintura, e principalmente, se matava muito por terra. Isso até que diminuiu, temos claro, a violência normal de qualquer cidade brasileira.

Então é isso, viver na Amazônia é também estar mais próximo dos conflitos que existem desde que o Brasil é gente, há mais de 500 anos – lutas por terra entre latifundiários, indígenas e mais recentemente, contra movimentos como o do MST (vide a Guerrilha do Araguaia, que foi a 100 km daqui) e ativistas.

3. CLIMA

Clima Equatorial, quente e úmido, ou seja, abafado e sem vento, com temperatura média anual de 26ºC (mentira, deve ser mais!). Então, as coisas por aqui funcionam de forma diferente: além de pequenas alterações nos horários e posições do sol, e da época de frutas e flores, em geral, o que diferenciam as estações do ano aqui são as chuvas. Portanto, como só temos as opções de com chuva e sem chuva, definimos nossas estações como Verão e Inverno amazônicos, e eles seguem a ordem inversa do resto do Brasil:

INVERNO AMAZÔNICO: DEZEMBRO – MAIO (aprox.): mín. ~19ºC

Foto: Acervo pessoal

É esta a nossa estação das grandes chuvas. A chuva amazônica foi uma das coisas que mais senti falta no período em que morei em Pernambuco. As chuvas daqui, eu amo de coração, porque aqui não chove pouco não: quando o tempo fecha, o céu fica cor de chumbo e cai o maior toró. Daqueles pingos grossos que falta derrubar a gente no chão. E não acaba rapidinho. Sem contar os raios, relâmpagos e trovões que são assustadores; uma vez caiu um raio que queimou o telefone de casa; e já vi outro que quando caiu disparou um alarme de carro!

Desde a infância, tenho uma paixão por essa época do ano, por causa dessas chuvas fortes e da cor que fica o céu quando tá bem perto de chover. As chuvas, quando começam a cair, aplacam momentaneamente o calor (depois o abafado piora) e deixa um clima gostoso para ver filme, ler um livro. Na verdade, são elas o nosso inverno, então se baixa a temperatura para uns 22º todo mundo já aproveita a oportunidade única de sacar os casacos (e é bom aproveitar rápido). Aqui sempre é tão quente que, todo mundo já acostumado, não sofre tanto com o calor como alguém de fora que vem por aqui; em contrapartida, sentimos frio tão fácil que esses dias só porque o supermercado estava vazio, eu passei o maior frio, principalmente na seção de yogurt, já pensou?!

Ultimamente as chuvas tão pegando mais leve por aqui. Esse ano choveu pouco em janeiro e quase nada em fevereiro; compensou um pouco nos meses seguintes, mas não foi o suficiente para subir em excesso os níveis dos rios. Da anual enchente, não temos sinal há dois anos.

É neste período de chuvas que todo ano eleva o nível de água na cabeceira do rio, ocasionando “a” enchente na cidade. Tem uma pequena variação: às vezes ela vem fraca, forte, não vem...enfim, não segue uma lei imperiosa, mas de qualquer forma, os moradores de áreas ribeirinhas já sabem o que esperar durante essa época do ano. Diferente das enchentes de chuva, aqui quando a água sobe, ela só seca quando o rio seca, ou seja, dura semanas/meses ao invés de horas. A minha rua é bem comprida, e tem uma parte baixa que é afetada durante a enchente. Na última que teve, logo nos primeiros dias, vi muita gente preocupada, reorganizando suas coisas, outros fazendo mudanças, tudo dentro do esperado. O surpreendente mesmo foi ver muita gente se divertindo, feliz! As crianças brincando na água, uns pescando na orla, outros assando um peixe com os amigos (também na orla). Festa mesmo! Dava para sentir no ar a expectativa, o clima de novidade...até hoje não consigo entender, mas até eu me senti empolgada. Daí voltei a desgostar quando encheu um trecho que eu fazia caminhada, inclusive me fazendo topar com um sapo cururu no caminho. Depois que se tornou notícia velha, ficou chato para todo mundo também.

Dessa experiência, pude perceber um pouco da conexão que as pessoas têm com a água, fazendo com que a enchente, em vez de significar algo ruim, pareça algo natural e até mesmo aguardado. Bom, não sei dizer na verdade quem poderia aguardar por isso, mas definitivamente, as crianças devem ficar bem ansiosas para uma coisa: pular do cais.

Orla. Fonte: http://static.panoramio.com/photos/original/23298829.jpg
Com o rio cheio, a Orla do Rio Tocantins se torna o playground com piscina de toda criança do bairro. Há uns 15 anos atrás, assim que o rio começou a subir, estando cheio o suficiente para ninguém quebrar a cara, foi aberta a temporada de pulos no cais e lá fui eu junto com os meus primos. Até hoje não sei como eles me convenceram, já que eu além de morrer de medo de altura, não sou das mais aventureiras – talvez a paixão por nadar e o calorão contaram pontos. Enfim, não foi a primeira vez, porque já tinha ido com meus pais, mas essa experiência toda não me valeu de nada quando eu fiquei na beira do cais me preparando para o salto e vendo a distância pra água. Quando pulei com meu primo mais velho, demorei o que pareceu ser uma eternidade para chegar na água e mais outra para voltar à tona. Até aí normal. Exceto quando ouvi os gritos dos meninos assim que vim à tona: OLHA A COBRA, SAI DA ÁGUA!

Resumindo: Depois de nadar mais rápido que o Cielo e voltar correndo para a rua, fiquei sabendo da história direito: o pessoal viu uma cobra nadando, na direção em que estávamos, e começaram a gritar para a gente não pular. Parece que ela não estava passando tão perto assim, e outros contam que não tinha cobra nenhuma. Não importa, a lição foi aprendida. 


Rio Tocantins. Foto: Acervo Pessoal
VERÃO AMAZÔNICO: JUNHO – NOVEMBRO (aprox.): Máx. ~35ºC

Queimadas. Uma coisa que me faz desgostar de viver na Amazônia são as queimadas. Assim que a chuva dá uma trégua, começa a temporada de caça ao verde. As desculpas são as piores possíveis e vão desde limpeza de pasto à queimar lixo no quintal (por pura cultura, porque aqui tem coleta de lixo).

O ar fica irrespirável, o céu coberto de fumaça, as pessoas sofrem com problemas respiratórios e a natureza é destruída. No final do ano passado, uma onda de fumaça invadiu a cidade por alguns dias, deixando tudo acinzentado, atingindo cidades, estados e até mesmo países vizinhos.

PRAIA EM JULHO


Vista cidade-> praia. Vista praia-> cidade. Fotos: Acervo Pessoal

Para quem nunca viu, vai achar super esquisito, mas as praias daqui dependem da boa vontade do rio. Ele seca, daí forma a praia. Para chegarmos lá, atravessamos o Rio Tocantins, geralmente em uma rabeta (canoa com motor) ou barco, da orla da cidade e uns 5 minutinhos depois chegamos à margem em que forma a praia. Isso só acontece depois que acabam as chuvas e começa o verão amazônico. Em geral, o auge da praia é em julho, quando o rio já tá bem seco formando os bancos de areia maiores. Apesar de ter bastante areia, aqui as cadeiras ficam dentro d’água. Deve ser o calor, né?!

Da Praia do Tucunaré, a mais famosa praia da cidade, a qual eu fui por toda a minha infância, minhas lembranças são:

As caixas de som enormes tocando tecno brega/melody; comendo cachorro quente ou batata frita Crony; as cadeiras dentro da água e principalmente o cheiro de óleo dos barcos. Uma vez, eu estava no mar em Boa Viagem (Recife) e passou um jet ski por perto, daí quando senti o cheiro do óleo dele, foi como se estivesse sentindo o gosto da água doce do rio.

Não poderia faltar o passeio no Banana Boats; o medo da correnteza forte e minha grande sorte por nunca ter pisado nas arraias que ficam no rasinho. Tem muita gente que vai lá para acampar, ou passear de lancha, jet ski e etc. Como não fiz nada disso, “não sou capaz de opinar”.

Foto: Acervo pessoal
A Região Norte do país é conhecida por suas estradas ruins e pelo difícil acesso e locomoção. Por causa dessas estradas mal conservadas ou até mesmo inexistentes, é muito comum por aqui o transporte fluvial, tanto através dos barcos grandes para percorrer grandes distâncias, quanto ao acesso por rabetas ou canoas às comunidades localizadas em regiões de mata fechada. Aqui em Marabá, é muito comum usarmos os barcos para atravessar o rio e chegar à praia.

Nos meses de veraneio, em algumas praias do estado não é necessário barcos, como é o caso da praia de mar de Salinas, próximo a Belém. Lá, por ter uma extensa faixa de areia, é muito comum encontrar carros circulando pela areia, ou estacionados entre as pessoas, principalmente com o som ligado. Faz parte da cultura e diversão do pessoal daqui. Eu particularmente acho muito estranho, desnecessário, perigoso e até mesmo uma agressão ao meio ambiente ver tanto carro circulando pela areia, mas vai ser difícil mudar esse hábito do pessoal.

4. A FLORESTA

Na Amazônia com meu pai Foto: Acervo Pessoal
Para o imaginário comum, viver na Amazônia significa morar no meio da floresta numa oca, lutar com onças e sobreviver da caça e pesca. Então muita gente deve se assustar quando chega aqui e vê que pode comprar uma Batata Pringles para assistir Netflix/TV a Cabo em casa. Ainda muito falta para a nossa região, principalmente em termos de saúde, educação, infraestrutura, tecnologia, serviços eficientes, variedade de produtos – vocês podem estar pensando agora que isso acontece no Brasil todo, mas há de convir que tudo piora quando consideramos a distância em que estamos dos grandes centros, atrasando a chegada de produtos e toda a transação comercial que isso implica; a pouca ou até mesmo ausência de concorrência em diversos setores (a região ainda não está inchada como outras malhas urbanas) e também é importante levar em conta a pouca representatividade política que o nosso Estado tem frente à nação (se o Pará já é desprestigiado, imagine o interior do Estado, distante como estamos da capital, e ainda por cima brigados – deste a tentativa de divisão do Pará, Belém parece odiar a gente).

Desconstruído o conceito de que a Amazônia é só mato, vou bagunçar a cabeça de vocês mais um pouco, para mostrar a forte presença da natureza que temos aqui. Claro, apesar da já desenvolvida área urbana que temos, ainda assim temos áreas preservadas, e um pouco de natureza que convive/sobrevive conosco nos centros urbanos.

Dependendo da área em que você mora, trabalha ou estuda, pode acabar morando aqui na Amazônia e nem chegar perto da natureza. Muitas vezes temos que correr atrás dela. Onde moro, tem um centro comercial movimentado, no entanto, a minha casa fica bem próxima ao rio e a sua mata, trazendo um pouco de natureza para o meu dia-a-dia. Em geral, é bem parado, no entanto, também tem as suas surpresas como: sapos enormes, além de uma cobra magricela no ano retrasado e um dia desses apareceu também esse gavião, sente o drama:
Foto: Acervo Pessoal








Foto: Acervo Pessoal













Castanheira. Foto: Acervo Pessoal
Eu gosto de fazer alguns programas aventureiros de vez em quando, como uma vez em que entrei na mata do meu avô, junto com o meu pai e meus primos para plantar açaí, coisas comuns desse tipo. A última aventura foi com uns amigos no Parque Zoobotânico da cidade.

Nesse passeio, fizemos uma trilha dentro da floresta preservada, e para mim o destaque ficou com as árvores gigantes. Sempre admirei a mata fechada da Amazônia, com suas cores fortes, escuras; os animais; o tom sombrio e perigoso que ela me passa. É impossível entrar na mata fechada e não ter um absoluto respeito por ela: cada planta parece esconder um segredo que pode te salvar ou matar na mesma moeda; fora os animais, insetos e cia. Apesar da umidade, dos famosos mosquitos, entrar na mata tem as suas vantagens: assim que entrei nela, dei adeus à minha asma – não tem como ter mais ar puro do que lá dentro. Outra coisa, quando olhamos para o topo das árvores e bate aquela sensação de ser uma formiguinha, a floresta me parece ser um lugar bem reflexivo, e por que não, inspirador.

Nesse mesmo dia, topei com várias castanheiras na mata, que de longe são as minhas árvores favoritas, e logo depois também nos encontramos com uma sumaúma lindíssima.

Sumaúma lá atrás e uma rabetinha. Foto: Acervo Pessoal
Eu tenho um quintal bem diferentão. Apesar da mata ciliar do rio Itacaiúnas que fica atrás dele já ser motivo suficiente para essa estranhice, ainda temos um Pé de cuia no quintal. A árvore fica toda carregada, com esses frutos verdinhos e pesadões! Desses frutos, as pessoas fazem a cuia, que além de ser um artesanato da região, é muito famoso por ser a cuia de tomar tacacá, prato típico amazônico.

Foto: Acervo Pessoal

Foto: Acervo Pessoal; Foto da Cuia pronta: http://bemestarnaweb.com.br/wp-content/uploads/2014/02/artesol_baixa_014.jpg

Das minhas flores preferidas, destaco a da castanheira, pela sua fofura (e por lembrar um docinho de festa) e a Helicônia, por suas cores e beleza.


Flor da Castanheira. Fonte: http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/Repositorio/IMG_1880_000g2necpas02wx5ok0ghx3a93cp8u5l.JPG // Helicônia Fonte: http://dougingramnursery.com/wp-content/uploads/2010/04/PICT0167.jpg
Para quem ainda quer conhecer a Amazônia do imaginário comum – com a imensidão da natureza – ainda tem muitos lugares que oferecem passeios (ou simplesmente entrar, por sua conta e risco, na mata):

Passeios que recomendo:

-Visita ao Mosaico de Carajás (incluindo visita ao Zoo de Carajás);

-Cachoeiras na Serra das Andorinhas;

- Parque Zoobotânico de Marabá;

-Ilha das Tabocas e praias do Tucunaré, Geladinho e outras;

-A capital Belém (Mangal das Garças, Vista do Rio nas Docas, Museu Emílio Goeldi e Bosque Rodrigues Alves).

Infelizmente sabemos que a preservação da floresta é algo praticamente inexistente aqui. Seja pela população invadindo terras e construindo bairros, ou por causa dos grandes latifúndios, da pecuária, soja, extração madeireira e também a mineração. Todo dia vemos as consequências do destrato com a natureza nas alterações climáticas, baixo nível dos rios, poluição e etc. O triste é saber que isso não se limita a nossa cidade, como também toda a região sofre essa mesma violência, e o momento de basta cada dia parece mais distante.

5. MAGIA DA FLORESTA

Em algumas regiões amazônicas, a crença nas lendas é bem mais forte; há regiões que realmente temem lendas como a da Matinta, por exemplo. Acredito que esse não é o caso de Marabá. O meu medo nos tempos de colégio, era só da Big Lôra ou “A loira do banheiro”. Entrar no banheiro, gritar X vezes o nome dela, dar descarga Y vezes e sair correndo de medo que ela realmente aparecesse. Bobajada típica de criança.

Ainda bem que existem as escolas e os adultos pra contar as lendas de verdade pra gente. Minhas lendas da Amazônia preferidas são essas (vou deixar o link para vocês lerem as lendas, é só clicar nas imagens):
Boiúna
http://misterioamazonia.blogspot.com.br/2012/05/lenda-da-cobra-grande.html


Porca de bobes – Matinta – Nego d’água – Pé de Garrafa 
 http://augustomorbach.blogspot.com.br/2013/02/lendas-de-maraba_27.html

Capelobo 
 https://pt.wikipedia.org/wiki/Capelobo
 Guaraná
http://www.sumauma.net/amazonian/lendas/lendas-guarana.html 
Boto
 http://www.sohistoria.com.br/lendasemitos/boto/
Uirapurú
http://www.suapesquisa.com/folclorebrasileiro/lenda_uirapuru.htm 
Iara
 http://www.infoescola.com/folclore/iara/
Muitaquitã
https://pt.wikipedia.org/wiki/Muiraquit%C3%A3
Vitória-Régia
http://brasilescola.uol.com.br/folclore/vitoria-regia.htm
 6. GASTRONOMIA
Sinto decepcionar um pouco vocês aqui, mas como irão perceber a seguir, eu tenho um paladar de criança de 10 anos; portanto essa etapa ficará um pouco limitada. Não deixem de conferir um texto de verdade sobre a gastronomia paraense, ou da região amazônica em geral, tem muita coisa exótica e bem especial por aqui.

Do Tacacá gosto tanto do cheiro, que gosto até mais do que de comer. É um caldo de tucupi com folhas de jambú e muitos camarões. É com o tucupi e o jambú que também se faz o famoso pato no tucupí (prato tradicionalíssimo).

Frutas

Aqui na região temos uma boa variedade de frutas, porém é na quantidade que a região se destaca. É fácil encontrar árvores frutíferas nas ruas, principalmente mangueiras. Algumas das mais populares que temos aqui, e que você provavelmente já ouviu falar, são o açaí, o cupú (cupuaçu), a castanha-do-pará. É muito comum por aqui tomar o guaraná da Amazônia e o açaí à moda paraense (diferente de como está na moda pelo Brasil, o açaí daqui tem uma coloração bem mais escura, e o paraense prefere tomar com farinha de tapioca, ou os mais tradicionais comem ele junto com peixe, camarão, farinha...).

Outra famosa é a castanha-do-pará (castanha-do-brasil), que muitos conhecem apenas a castanha natural, mas o que eu mais gosto é quando ela vem em algum doce com chocolate (bombom, torta, sorvete) ou o biscoito de castanha.

Sorvete

Os sorvetes paraenses são famosos pelo sabor, variedade e por ser muito gostoso também. São inúmeros os sabores regionais, entre eles o meu preferido é o mesclado de Açaí com tapioca (geralmente o nome é paraense) e o favorito dos meus pais é o de pavê de cupú.

Tem um sabor, que não tem muita cara de regional, mas como até agora eu só encontrei por aqui, então é regional. Ele é o Flocos Nevado: o inverso do flocos tradicional, ou seja, chocolate com pedaços de chocolate branco. Esse é definitivamente o meu preferido desde sempre!

Uma ode ao Churrasco (vegans/vegetarianos não leiam!)

Quando eu era criança, o meu pai gostava de me chamar de oncinha, e dizia que um dia eu teria que casar com um fazendeiro ou açougueiro, para conseguir me sustentar. Daí vocês podem ter uma ideia do quão carnívora sou. Para minha sorte, Marabá por muitos anos era conhecida como a Capital do Boi Gordo. Eu já andei por algumas cidades e estados do Brasil, mas nunca comi um churrasco tão bom quanto os que têm aqui.

Minha família gostava de ir numa churrascaria rodízio daqui da cidade. Vamos há tantos anos lá, que eu ainda era pequena e o dono, iludido, me deixava comer sem pagar. Quando ele viu a besteira que estava fazendo, passou a cobrar meia para mim (nota-se o quão criança eu era). Persistindo o prejuízo – eu comia mais carne que a minha mãe – o dono passou a cobrar o valor normal para mim também. Pobre homem.

Além das churrascarias, e daqueles espetinhos melado na farofa que já vi em muitas cidades, aqui temos uma nova modalidade de churrasco: “Os costa pra rua”.

Costa pra rua (também chamados de espetinhos ou churrasquinhos) nada mais é do que aquelas banquinhas de comida que ficam nas calçadas e que você come em mesinhas, e que quando sentados, ficamos com as costas voltadas para a rua. Piadas à parte, os costa para rua são gostosos e muito baratos, mas prezam pela simplicidade. Esses espetinhos são pratos prontos (que no máximo podemos modificar tirando alguns ingredientes), servidos em mesinhas de segurança duvidosa, mas é esse ambiente, e claro, o sabor, que são a alma do negócio. Muitos espetinhos de rua cresceram, porém poucos conseguem se firmar depois que reformam (na verdade acho que só dois que se tornaram grandes que ainda estão abertos hoje em dia) – os novos preços e muitas vezes a queda da qualidade espantam o cliente para o costa pra rua mais próximo.

Eu e meu pai adoramos ir a um perto de casa. Espia o tamanho do prato de R$10,00:


O completão é o do pai, o meu é o outro. Foto: Acervo Pessoal

7. FÉ


Imagem da Berlinda. https://blogdogersonnogueira.files.wordpress.com/2010/10/procis1.jpg

Como em qualquer outra região, aqui temos a presença de diversas religiões, inclusive a muçulmana, porém o paraense é bastante conhecido pela sua devoção a Nossa Senhora de Nazaré.

Para o paraense, o Domingo do Círio, o 2º de outubro, é um dia de festa, como se fosse Véspera de Natal – a diferença é que para a ceia, o Pato no Tucupí e a Maniçoba substituem o Peru.

O principal Círio é o de Belém, mas a imagem da Santa percorre o estado com procissão em algumas cidades. Em Marabá, o Círio ocorre no 3º domingo de outubro. Além da procissão do domingo, gosto de acompanhar a Transladação, que ocorre no sábado anterior: é a procissão de barco, seguido de uma pequena procissão pelas ruas da cidade, levando a Santa até a Catedral.


Fitinhas de Nsa. Sra. de Nazaré. 
http://n.i.uol.com.br/ultnot/album/111009olho_f_006.jpg
Durante o Círio, os devotos costumam pagar suas promessas de diversas formas, entre elas, levando alguma coisa para entregar as pessoas que seguem a procissão – pode ser lanche, imagens em miniatura da santa. O mais comum é distribuir água.

Hoje em dia, é quase unânime que as pessoas entreguem garrafinhas de água, porém um tempo atrás, era comum eles entregarem saquinhos com água. Durante a minha infância, algumas vezes eu e meus primos ajudamos a minha tia no sábado a encher os saquinhos para ela entregar no outro dia. Era muito divertido, e a gente bagunçava demais – acho que até mais do que trabalhava. E no final, tava todo mundo molhado. Pena que minha mãe nunca me deixava ir com eles para entregar a água no outro dia, eu ficava só na vontade mesmo.

Já maior, tive condições de acompanhar a procissão. Na última vez em que fui, estive na corda e foi a melhor de todas às vezes.


Foto: Acervo Pessoal

8. MÚSICA

Há alguns anos atrás, o ritmo mais tocado na cidade era sem dúvida o Brega e todas as suas variações, vindas da capital Belém. Eu odiava com todas as minhas forças, até que desisti e aprendi até a dançar. Hoje em dia, aqui em Marabá, o ritmo perdeu um pouco as forças para o sertanejo, mas ainda acho que é o ritmo oficial paraense. Quem estiver curioso, assista ao Doc MTV: Brega S.A que a MTV fez em meados de 2009, para entender melhor como funciona essa indústria.

O paraense é apaixonado por música alta. Aqui temos as chamadas aparelhagens, que é um equipamento de som de alta tecnologia e potência com caixas de som enormes tocando tecno melody no último volume. Existem shows das equipes de aparelhagem, que chegam até mesmo a disputar entre si, tendo até o seu próprio fã clube. A paixão pelos equipamentos de som é tanta, que eu tenho alguns vizinhos que a casa mal se sustenta em pé, mas tem uma caixa de som maior que uma geladeira para botar na calçada – ah, já ia esquecendo o detalhe que ninguém ouve a aparelhagem dentro de casa, eles colocam as caixas na calçada, para todos ouvirem, querendo ou não.

Fotos: Acervo Pessoal
Do Carimbó, só tive contato quando criança, dançando uma música na Festa de São João do colégio. Em outras cidades do estado, o ritmo não é apenas folclórico, faz parte do cotidiano mesmo. Para conhecer o ritmo tradicional, recomendo o Pinduca; vale também essa repaginada maravilhosa da Lia Sophia:



Temos muita influência do sertanejo aqui na região, tradição vinda do centro-oeste, e muito popular por aqui, principalmente entre as famílias que tem uma ligação com o campo – ligação que nem é mais tão necessária hoje em dia, devida à alta popularização do estilo musical. Ainda assim, é o sertanejo de raiz, conhecido por modão, o que predomina no gosto popular, apesar de ter vindo com muita força o sertanejo universitário. Há quase 10 anos os bares da cidade começaram com a Quintaneja (sertanejo universitário às quintas) e hoje praticamente não existe um bar que não tenha no mínimo uma noite por semana dedicado ao estilo, quando não são todas. Chega até a abusar.

A falta de variedade ainda é um problema na nossa vida noturna. A cidade tem muitos cabarés e “inferninhos”, mas boate mesmo só tem uma, e que insiste na mesmice, na cafonice e no péssimo atendimento. Passo. Se quiser realmente se divertir na noite de Marabá, tem que ir com o espírito livre para se divertir com os amigos, dançar e não ser nenhum pouco exigente na escolha das bebidas. Assim é diversão garantida.

9. O Paraense

Já é difícil descrever um povo, principalmente quando é um em que convivo há tantos anos. Chega uma hora em que paramos de notar os detalhes, até porque fazemos as mesmas coisas, então o que posso dizer do paraense é que falamos Égua para tudo, podendo inclusive virar o verbo Eguar (fazer nada importante); chamamos todo mundo de Mana(o), e o sotaque varia por região: mais ao norte do estado o sotaque é mais forte e se fala muito no diminutivo e chiando.

Apesar de muita gente pelo Brasil classificar quem é do Norte como índios (em um sentido pejorativo), a realidade é um pouco diferente. Nesta região se encontram diversos territórios indígenas, inclusive temos grande parte da população com descendência indígena; fortes traços culturais; nomes próprios e etc. Existem diversas tribos na região, e não é tão incomum encontramos famílias indígenas nas ruas fazendo compras/passeando. Na universidade federal, temos alunos indígenas e diversas pesquisas em andamento de estudos de linguagem e cultura.

Meu contato com os indígenas mais marcante foi em 2001 durante o III Jogos dos Povos Indígenas que Marabá sediou. Lembro pouca coisa, dentre elas que adorei assistir as competições, compramos colares e ganhei tattoo indígena. Olha eu aqui pequeninha: 



Fotos: Acervo Pessoal

Então, esse é só um pedacinho da Amazônia, pois há muito o que descobrir e conhecer. Pessoal, cuidado! Se vierem por aqui é bom saber que, como avisa o mestre Pinduca: “Quem vai ao Pará, parou. Tomou açaí, ficou”.