O ano foi 2005, eu estudava ainda na antiga 7ª série (atual 8ºano) e a aborrecência berrava em meus ouvidos. Naquela época, eu adorava aprender letras de músicas – não tinha uma música nova que eu não tivesse a letra para aprender a cantar, indo desde Green Day até Black Eyed Peas e Beyoncè. Por algum motivo que eu não sei, parei de fazer isso (e confesso que ultimamente ando sentindo muita falta de aprender todas aquelas músicas).
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| Green Day |
Para que se tenha a real dimensão, eu aprendi naquele ano uma música de 9 min dos punks americanos, Green Day, chamada Jesus of Suburbia. Cantava a plenos pulmões, como se tivesse totalmente conectada com o que Billy Joe estava cantando – apesar de ter uma ótima relação em casa e nunca ter passado perto de drogas, enfim, adolescente é assim mesmo, adora um drama.
Então, esses dias toca na tevê essa banda cantando esta música e apesar de eu praticamente nunca mais a ter escutado, logo nos primeiros acordes a reconheci e cantei do início ao fim, lembrando todas as pausas e errando praticamente nada da letra. Beleza, tudo certo. Só que aí alguém vem e pergunta qual roupa eu usei pela manhã: dá um branco. Qual é o nome da disciplina que você teve semestre passado? Branco. Qual o nome do colega de turma que está sentado ao seu lado: oi?!
Por que a memória prega essas peças na gente?! Esqueço o aniversário de todo mundo; não sei o meu número de cor; mas sei na ponta da língua a porra da letra de uma música que aprendi 10 anos atrás!!! Quem pode explicar essas bizarrices da mente humana?!
Apesar de uma memória de curto prazo bem patética, quase a Dolly do Nemo, tenho bastante orgulho das coisas que consigo memorizar: vocabulário, lembranças, nomes de livros, atores, diretores, reconheço bem vozes e rostos (...). Até que consigo trabalhar bem com meu banco de dados interno, só preciso de alguns truques para memorização – como fazer uma música ou principalmente, associações. Pudera que ainda lembro, desde a 5ª série, de todas as preposições essenciais (é sério! A, ante, até, após....).
Ano passado fiquei bem envolvida com um tal de “Para Sempre Alice”. Tenho receio de problemas relacionados à memória, como o Mal de Alzheimer, desde que ouvi falar um pouco mais no seriado Grey’s Anatomy. Morria/Morro de medo de alguém da minha família ter, principalmente a minha vó que andava esquecendo-se de tudo; e também me assusta a ideia de ter algo assim.
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| Só quem tem memória boa |
Quando lançou este filme no ano passado (sim, é o que a Julianne Moore ganha o Oscar), eu corri para ver. Como se não tivesse sido suficiente, resolvi ler o livro também, da Lisa Genova. Neles, conta-se a história de uma mulher brilhante, professora em Harvard, que por volta dos 50 anos é diagnosticada com um caso precoce de mal de Alzheimer. E ela era conhecida por sua memória afiada, sabendo na ponta da língua suas referências bibliográficas e tudo mais. E aí, já pensou nessa situação?
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| Still Alice |
Ao longo da história, vemos as transformações na vida dela, as mudanças nos âmbitos familiares e profissionais. É um drama pesado, se você resolver parar para refletir, mas ambos, livro e filme, valem a pena. O filme, por ser mais breve e contar com ótimas atuações. O livro, por ver tudo isso da perspectiva dela!
Abrindo mais um parêntese, esses dias em sala de aula li um conto de Clarice Lispector que acabei por associar com a história de Alice. É o seguinte: no livro, vemos o ponto de vista de Alice, mesmo com o cérebro já bem degenerado. Logo, as pessoas falavam com ela, muita coisa ela entendia, só que não conseguia articular a resposta; e também vemos o que ela consegue compreender e absorver em diversas situações. Daí pensei logo na minha vovó paterna. Muitas vezes enquanto conversava com ela, evitava vários assuntos, e procurava não perguntar muito sobre o passado, porque não queria que ela ficasse chateada por não se lembrar de algo, ou coisa assim.
Ultimamente resolvi arriscar e cheguei a perguntar algumas coisas do passado dela - e não é que ela lembrava quase tudo?! Trocar os nomes ela continua, mas isso é só charme de vó. No conto Feliz Aniversário, de Lispector, vários temas podem ser observados, mas o que me chamou mais a atenção foi essa questão. A aniversariante, enquanto todos a veem como uma estátua, ainda está bem viva; temos acesso aos seus pensamentos, em um dado momento do conto, e vemos que por suas atitudes e palavras, ela está plenamente consciente. Assim como quando eu lia Alice, tive a mesma reflexão neste conto: em como a minha visão estava equivocada sobre os idosos.
P.S. Gente me bateu uma sensação agora de que eu já escrevi sobre Alice em algum texto para o blog...eita, e agora?! Vai assim, eu não lembro mesmo...ai cabeça!!!






