quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Ah, doce memória...




      O ano foi 2005, eu estudava ainda na antiga 7ª série (atual 8ºano) e a aborrecência berrava em meus ouvidos. Naquela época, eu adorava aprender letras de músicas – não tinha uma música nova que eu não tivesse a letra para aprender a cantar, indo desde Green Day até Black Eyed Peas e Beyoncè. Por algum motivo que eu não sei, parei de fazer isso (e confesso que ultimamente ando sentindo muita falta de aprender todas aquelas músicas).

Green Day
      Para que se tenha a real dimensão, eu aprendi naquele ano uma música de 9 min dos punks americanos, Green Day, chamada Jesus of Suburbia. Cantava a plenos pulmões, como se tivesse totalmente conectada com o que Billy Joe estava cantando – apesar de ter uma ótima relação em casa e nunca ter passado perto de drogas, enfim, adolescente é assim mesmo, adora um drama. 

    
      Então, esses dias toca na tevê essa banda cantando esta música e apesar de eu praticamente nunca mais a ter escutado, logo nos primeiros acordes a reconheci e cantei do início ao fim, lembrando todas as pausas e errando praticamente nada da letra. Beleza, tudo certo. Só que aí alguém vem e pergunta qual roupa eu usei pela manhã: dá um branco. Qual é o nome da disciplina que você teve semestre passado? Branco. Qual o nome do colega de turma que está sentado ao seu lado: oi?!

     Por que a memória prega essas peças na gente?! Esqueço o aniversário de todo mundo; não sei o meu número de cor; mas sei na ponta da língua a porra da letra de uma música que aprendi 10 anos atrás!!! Quem pode explicar essas bizarrices da mente humana?!

    Apesar de uma memória de curto prazo bem patética, quase a Dolly do Nemo, tenho bastante orgulho das coisas que consigo memorizar: vocabulário, lembranças, nomes de livros, atores, diretores, reconheço bem vozes e rostos (...). Até que consigo trabalhar bem com meu banco de dados interno, só preciso de alguns truques para memorização – como fazer uma música ou principalmente, associações. Pudera que ainda lembro, desde a 5ª série, de todas as preposições essenciais (é sério! A, ante, até, após....).

    Ano passado fiquei bem envolvida com um tal de “Para Sempre Alice”. Tenho receio de problemas relacionados à memória, como o Mal de Alzheimer, desde que ouvi falar um pouco mais no seriado Grey’s Anatomy. Morria/Morro de medo de alguém da minha família ter, principalmente a minha vó que andava esquecendo-se de tudo; e também me assusta a ideia de ter algo assim.

Só quem tem memória boa

     Quando lançou este filme no ano passado (sim, é o que a Julianne Moore ganha o Oscar), eu corri para ver. Como se não tivesse sido suficiente, resolvi ler o livro também, da Lisa Genova. Neles, conta-se a história de uma mulher brilhante, professora em Harvard, que por volta dos 50 anos é diagnosticada com um caso precoce de mal de Alzheimer. E ela era conhecida por sua memória afiada, sabendo na ponta da língua suas referências bibliográficas e tudo mais. E aí, já pensou nessa situação?

Still Alice

    Ao longo da história, vemos as transformações na vida dela, as mudanças nos âmbitos familiares e profissionais. É um drama pesado, se você resolver parar para refletir, mas ambos, livro e filme, valem a pena. O filme, por ser mais breve e contar com ótimas atuações. O livro, por ver tudo isso da perspectiva dela!

    Abrindo mais um parêntese, esses dias em sala de aula li um conto de Clarice Lispector que acabei por associar com a história de Alice. É o seguinte: no livro, vemos o ponto de vista de Alice, mesmo com o cérebro já bem degenerado. Logo, as pessoas falavam com ela, muita coisa ela entendia, só que não conseguia articular a resposta; e também vemos o que ela consegue compreender e absorver em diversas situações. Daí pensei logo na minha vovó paterna. Muitas vezes enquanto conversava com ela, evitava vários assuntos, e procurava não perguntar muito sobre o passado, porque não queria que ela ficasse chateada por não se lembrar de algo, ou coisa assim.

     Ultimamente resolvi arriscar e cheguei a perguntar algumas coisas do passado dela - e não é que ela lembrava quase tudo?! Trocar os nomes ela continua, mas isso é só charme de vó. No conto Feliz Aniversário, de Lispector, vários temas podem ser observados, mas o que me chamou mais a atenção foi essa questão. A aniversariante, enquanto todos a veem como uma estátua, ainda está bem viva; temos acesso aos seus pensamentos, em um dado momento do conto, e vemos que por suas atitudes e palavras, ela está plenamente consciente. Assim como quando eu lia Alice, tive a mesma reflexão neste conto: em como a minha visão estava equivocada sobre os idosos.

P.S. Gente me bateu uma sensação agora de que eu já escrevi sobre Alice em algum texto para o blog...eita, e agora?! Vai assim, eu não lembro mesmo...ai cabeça!!!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Ai que saudade...

     

      Esses dias resolvi escrever sobre saudade. Só que já comecei enfrentando problemas desde quando pensava em como iniciaria o meu texto. Bem que deveria ter imaginado que qualquer coisa relacionada a um sentimento tão complexo como este resultaria em uma tarefa nada fácil.

Primeiro problema: A palavra.

       Saudade, segundo o dicionário online Dicio: “s.f. Sentimento nostálgico provocado pela distância de (algo ou alguém), pela ausência de uma pessoa, coisa e local, ou ocasionado pela vontade de reviver experiências, situações ou momentos já passados”, é derivada do latim (solitas, solitatis). Sempre ouvi falar que ela é exclusiva da língua portuguesa, porém dando uma googlada, parece que ela não é tão exclusiva assim:
“Desde sempre nos falaram que "saudade" é uma palavra essencialmente do português e que não existe tradução literal em outras línguas. Entretanto, isso não é totalmente verdade. Outros idiomas possuem sim equivalentes da palavra "saudade", porém que nem sempre podem ser aplicados nas frases como nós brasileiros fazemos”.  http://www.megacurioso.com.br/comunicacao/39467-17-palavras-de-outros-idiomas-que-nao-possuem-traducoes-literais.htm
“[...] Mas todas essas expressões estrangeiras não definem o sentimento luso-brasileiro de saudade. São apenas tentativas de determinar esse sentimento que sente os povos de cultura portuguesa. Assim, essa palavra saudade não é apenas um obstáculo ou uma incompatibilidade da linguagem, mas é principalmente uma característica cultural daqueles que falam a língua portuguesa.” http://agazetadoacre.com/noticias/o-mito-da-palavra-saudade/
 Segundo problema: O significado.

Ok, resolvido os problemas de tradução (literalmente), como eu iria descrever o que diabos é saudade?

        Um dia desses, eu estava fazendo uma pesquisa sobre literatura brasileira na internet, e resolvi buscar pelo Manoel Bandeira. Por sorte, encontrei este artigo que faz uma análise de dois poemas dele – “Evocação do Recife” e “Recife”, relacionando-os com a saudade. O autor antes de analisar as poesias, faz um breve comentário/comparação entre a saudade portuguesa e a brasileira.

        Recomendo a leitura – apesar de ser um texto acadêmico, é de fácil leitura e bem rico. Para não carregar demais este texto, vou comentar algumas partes e deixar para vocês lerem o resto direto no link -> http://www.revistas.usp.br/crioula/article/view/64225

       Nesse texto, o autor fala da saudade portuguesa, que “dá uma estranha melancolia sem tragédia que é seu verdadeiro conteúdo cultural, e faz dela o brasão da sensibilidade portuguesa”. Para os patrícios, a saudade é tão triste que provoca dor, enquanto que para os brasileiros a saudade é mais alegre que triste. E é nesse contexto que o autor vai apresentar a análise dos dois poemas, contrastando essas diversas saudades e explicando (por sinal bem melhor do que eu) todos esses conceitos.

Só para dar um gostinho:
Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa de meu avô.”
Evocação do Recife – Manuel Bandeira.

       Eu já havia notado essa tendência dos portugueses (oi vó!), que adoram fazer da vida um fado; e depois da leitura do (ótimo!) “O cortiço" de Aluísio Azevedo, pude enxergar ainda melhor. Para quem ainda não leu (leia!), neste livro há um grande mix vivendo no cortiço. Jerônimo, Piedade de Jesus e sua filhinha, são portugueses, e pelos seguintes parágrafos que o autor apresenta, dá para ilustrar bem o que foi falado no artigo:
“Depois, até às horas de dormir, que nunca passavam das nove, ele tomava a sua guitarra e ia para defronte da porta, junto com a mulher, dedilhar os fados da sua terra. Era nesses momentos que dava plena expansão às saudades da pátria, com aquelas cantigas melancólicas em que a sua alma de desterrado voava das zonas abrasadas da América para as aldeias tristes da sua infância.

E o canto daquela guitarra estrangeira era um lamento choroso e dolorido, eram vozes magoadas, mais tristes do que uma oração em alto-mar, quando a tempestade agita as negras asas homicidas, e as gaivotas doidejam assanhadas, cortando a treva com os seus gemidos pressagos, tontas como se estivessem fechadas dentro de uma abóbada de chumbo.”
[...]
“Nisto começou a gemer à porta do 35 uma guitarra; era de Jerônimo. Depois da ruidosa alegria e do bom humor, em que palpitara àquela tarde toda a república do cortiço, ela parecia ainda mais triste e mais saudosa do que nunca:
‘Minha vida tem desgostos,
Que só eu sei compreender...
Quando me lembro da terra
Parece que vou morrer...’

E, com o exemplo da primeira, novas guitarras foram acordando. E, por fim, a monótona cantiga dos portugueses enchia de uma alma desconsolada o vasto arraial da estalagem, contrastando com a barulhenta alacridade que vinha lá de cima, do sobrado do Miranda.
‘Terra minha, que te adoro,
Quando é que eu te torno a ver?
Leva-me deste desterro;
Basta já de padecer.’

Abatidos pelo fadinho harmonioso e nostálgico dos desterrados, iam todos, até mesmo os brasileiros, se concentrando e caindo em tristeza; mas, de repente, o cavaquinho do Porfiro, acompanhado pelo violão do Firmo, romperam vibrantemente com um chorado baiano. Nada mais que os primeiros acordes da música crioula para que o sangue de toda aquela gente despertasse logo, como se alguém lhe fustigasse o corpo com urtigas bravas. E seguiram-se outras notas, e outras, cada vez mais ardentes e mais delirantes. Já não eram dois instrumentos que soavam, eram lúbricos gemidos e suspiros soltos em torrente, a correrem serpenteando, como cobras numa floresta incendiada; eram ais convulsos, chorados em frenesi de amor; música feita de beijos e soluços gostosos; carícia de fera, carícia de doer, fazendo estalar de gozo”.
Parece que somos um pouquinhos diferentes da terrinha não é mesmo, ó pois?!

      Saudade eu sinto o tempo todo, praticamente de tudo. Família, amor, amigos, passado, estação do ano, lugar, música, livro, evento... ufa! Sinto até saudade de um doce bem gostoso assim que termino de comê-lo, então daí dá pra imaginar...

      Aproveitando essa época de carnaval, resolvi focar na minha saudade que está mais latente por esses dias, que é estar em Recife e Olinda agora. Com a vida adulta jogando umas verdades na minha cara, vi que mais uma vez não poderia ir para lá ... só que vai chegando pertinho do dia do galo e a saudade vai apertando um pouco mais no coração.

      Assumindo a minha incapacidade de escrever sobre saudade, resolvi deixar outra arte falar. Ou melhor, cantar. Se você parar para pensar, são infinitas as músicas que choram, digo, cantam a saudade. Tem a Lembrança De Um Beijo – Santanna; Pedaço de Mim – Chico Buarque; Noites Brasileiras – Luiz Gonzaga, dentre milhares.
      Separei alguns exemplos relacionados à temática de hoje. E já que é para massacrar este coração que vos fala, vamos começar por um frevo – cantado por meu amigo Luan que gentilmente cedeu o vídeo pra este post. Valeu, man!

Frevo n.° 2 do Recife 
Voltei, Recife


Evocação nº 1


Olinda: Teu nome é irreverência
“Olinda, quero cantar
A ti, esta canção  

Teus coqueirais, o teu sol, o teu mar
Faz vibrar meu coração 

De amor a sonhar, minha olinda sem igual
Salve o teu carnaval”
– Hino do Elefante de Olinda 
Foto: Jan Ribeiro/Pref.Olinda – Bloco Eu acho é pouco

Recife: Teu nome é multicultural 
“É lindo ver o dia amanhecer,
ouvir ao longe pastorinhas mil,
dizendo bem, que o Recife tem,
o carnaval melhor do meu Brasil” – Último Regresso, Bloco da Saudade

Foto: Hesíodo Góes/ PCR