segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Quando é hora de dizer adeus (ou até breve)

Playa Ramírez - Mtvd., URU
Inicialmente o título desse texto de hoje era para ser “Mochilando pela América hispano falante”, no qual eu começaria falando de detalhes práticos da viagem etc. Após dias sem tocar no texto, percebi hoje que teria que deixá-lo mais emocional, tal como essa viagem foi, e a mudança viria a partir do título. Como toda viagem de volta, foi especialmente difícil dar adeus à essa.

Ainda no começo do ano, quando estava resoluta em finalmente juntar coragem (e cacau) para um mochilão no exterior, parti para a escolha do lugar. Entre as opções que pensei, o país poderia ser de língua inglesa ou espanhola, e por motivos de força maior (sim, dinheiro mesmo) me ative a fazer o tal mochilão pela nossa América do Sul.

La preparación

Alguns fatores foram chave para a escolha do lugar. Queria um lugar lindo, barato, e de certa forma seguro, para que eu, uma mulher, pudesse fazer uma viagem só e um tanto que tranquila. Temos muitas opções ótimas, aqui bem pertinho de nós, e levando em conta minha preferência por uma paisagem mais urbana, todos me recomendaram Buenos Aires. Bom, eu sou um tantinho apaixonada por futebol e sentia uma rivalidade ridícula pela Argentina, de tal forma que tinha até uma certa implicância com o país, mas como este parecia ser o destino ideal para minha viagem, acabei topando passar dez dias lá.

Lá no começo, ao pesquisar o preço das passagens aéreas, descobri que as taxas aeroportuárias são altíssimas para Buenos Aires (que a partir de agora chamarei de BA), o que deixava o preço da passagem aérea um tanto salgado. Então fiz a seguinte jogada: coloquei a ida para lá e a volta por Montevidéu. É claro que nos fins das contas sai mais caro, porque tem a despesa de atravessar o Rio de la Plata, que separa os dois países, a hospedagem mais cara nesse último – no entanto pensei que assim daria pra conhecer dois países de uma só vez, um gasto com prazer, e não com taxas absurdas.

Como eu estaria chegando num ponto, e voltando por outro, recalculei minhas datas para dividir entre as duas cidades. Vendo na web que BA tinha muito mais pontos turísticos, optei por 6 noites na capital portenha, 3 noites em Montevidéu, e o último dia para o regresso.
Bairro da Recoleta, Buenos Aires -ARG

Alguns compromissos me fizeram escolher novembro, que se mostrou uma data ideal, de clima agradável (primavera), um pouco antes da alta temporada (melhores preços), pontos turísticos menos concorridos, e um grande bônus: os jacarandás ficam com flores violetas, e tem vários espalhados pelas ruas e praças das duas cidades. Lindíssimo!

Apesar de não ter me apaixonado de imediato pelos meus destinos, com o passar dos meses, conforme fui pesquisando mais sobre os lugares e chegando mais perto do dia da viagem, deixei o Brasil tendo certeza que iria adorar conhecer, em especial BA, e já segura de que um dia retornaria lá com minhas amigas (sim, estava ainda no caminho de ida!!).

Conhecendo la cultura

Antes de me aprofundar no texto, gostaria de frisar dois pontos:

O 1º é que o sonho de viajar, para qualquer lugar que seja, parece muito longe da realidade de muitos, mas não é tão difícil assim. Ele requer preparação e dedicação, e conforme mais viajamos, mais fácil fica. Recomendo reservar e pagar o quanto antes as despesas de passagens e hospedagem – no caso, um hostel (albergue) tende a custar uns R$ 30 a R$40 por noite, o que te faz gastar por todas as suas diárias, o mesmo preço de uma em um hotel comum. Para as despesas no local, sugiro estipular um valor para refeições + transporte + compras + gastos emergenciais que você gastaria por dia em uma cidade grande (capital) no Brasil. Se o destino for na América do Sul, dá pra levar real para trocar quando chegar lá; se for mais distante é melhor levar dólar ou euro, para trocá-los pelo dinheiro local quando chegar ao destino.

O 2º ponto é que eu, uma típica virginiana (um tanto neurótica), fiz um bom estudo dos lugares e dicas que considerava mais interessantes em BA, separando-os em listas e até mesmo em um cronograma do que visitar. Isso não me atrapalhou em fazer mudanças ao chegar lá, adicionando e cortando lugares, todavia me ajudou a otimizar o meu tempo, verificar os horários e dias de funcionamento de cada lugar, reunindo por localizações o que visitar e não deixar de ver o que mais me interessava – além de ajudar na análise dos mapas. Também ajudou para que eu escolhesse o melhor lugar para me hospedar e tals. Fica a dica, para quem não quiser ir tão perdido para o seu destino. Em Montevidéu, por exemplo, minha pesquisa foi bem menor, e percebi isso ao chegar na cidade e me encontrar com mais tempo livre.

De um tempo para cá, venho acompanhando o cinema argentino, e vi excelentes filmes deles, tais como: “Un Cuento Chino”; “El Secreto de Sus Ojos”; “Relatos Salvajes” e “Nueve reinas”. Separei alguns para assistir umas semanas antes da viagem, dentre eles o filme brasileiro,“La Vingança”, que parece bobo, mas diverte (e me alertou para pesquisar algumas gírias da Argentina), e o musical “Evita”, que conta a história de Eva Perón, interpretada pela Madonna. O único problema ao ver esse filme, foi que me apaixonei instantaneamente, e acabei não vendo mais nenhum outro. O musical pode não ser tão bom assim, mas me impressionou pela sua história e a paixão dos argentinos por essa figura – que mais à frente irei comentar novamente. Fora que tem três músicas imperdíveis: o ícone “Don't Cry For Me Argentina”; a linda e premiada “You Must Love Me” e o delicioso bolero “I'd Be Surprisingly Good For You”.

Paseo de la historieta - San Telmo
É muito legal pesquisar um pouco da história do lugar, personalidades importantes, filmes etc., para criar uma conexão maior com a cidade. Pesquisando sobre a literatura, um nome se destacou, tanto aqui, quanto ao chegar lá: MAFALDA!

Nas ruas de Buenos Aires, três mulheres mandam em todas as banquinhas de artesanato, bancas de revistas, camisetas, souvenirs e por aí vai: Evita, Mafalda e a mexicana Frida Khalo. Dentre os homens, vi Maradona e um pouco do Messi, mas tive a impressão que as meninas são ainda mais populares.
Evita - Av. 9 de Julio, BA - ARG
El viaje

Primeira parada: BA – Buenos Aires


Chegado o grande dia, parti para minha viagem com um mochilão pesando apenas 8kg, mas com todo o necessário para os 10 dias na América Latina. Peguei um voo para um dos aeroportos de BA, o Aeroparque, que está muito mais próximo do centro, e com uma bela vista do Rio de la Plata, na orla bem à frente. No aeroporto já fiz a troca para os pesos argentinos e peguei um mapa da cidade no Centro de Atenção ao Turista. Peguei um táxi lá, e apesar dos alertas sobre alguns passarem notas falsas e outras malandragens, o que me deixou bem apreensiva na chegada, tive muita sorte: ele era simpático, conversamos, me deu dicas de como me localizar por lá, e me explicou sobre a diferença entre pegar a rota mais rápida e pagar o pedágio, ou ir por outro caminho mais longo e acabar gastando o mesmo, demorando mais.

Escolhi ficar no microcentro, no bairro de San Nicolás, no Hostel Portal del Sur. Nesse ponto, fiquei a alguns passos dos principais pontos turísticos da cidade, tanto que pude fazer tudo que queria, em 6 dias, apenas pegando 3 metrôs, ônibus ida e volta e táxi na chegada e partida – o resto foi andando muuuito!

Para a escolha do hostel foi necessária uma longa pesquisa, porque tem mil opções, e cada um parecia ser melhor do que o outro. Optei por esse, por ter mais pontos que eu considerei importante, além de ter uma aparência bem aconchegante, dos típicos hosteis que você consegue fazer amizade, e pegar muitas dicas na recepção. De ponto negativo, foi que eu contava que teria café da manhã incluso, mas chegando lá me falaram que recentemente mudaram o regulamento, e eu teria que pagar por fora. Um pequeno imprevisto, que teve suas vantagens, pois um dia eu experimentei uma padaria local, noutro comi no mercadão de San Telmo, assim conheci sabores diferentes – em geral comi o café de lá, que era muito muito bom.

Aos meus amigos que não conhecem um hostel, aqui vai uma breve explicação: geralmente é um casarão um tanto moderninho (hipster), que te dá o café da manhã e uma cozinha equipada para que você possa cozinhar as outras refeições. Tem muitas áreas em comum, com TV e outros atrativos; os quartos podem ou não ter banheiro; você pode escolher se fica em um individual, duplo ou triplo, ou coletivo (em geral de 4, 6 ou 8 camas/beliche). Esses quartos tem sempre um armário para você guardar suas coisas, sem esquecer de levar um cadeado para trancá-las. Ás vezes eles cobram o aluguel de toalhas. O mais importante é que você pode escolher se quer um quarto misto ou apenas feminino.

Eu fiquei muito apaixonada pelas pessoas que conheci lá. Muito simpáticos, e de todas as partes do mundo: França, Colômbia, Uruguai, EUA, Inglaterra, Austrália, Nova Zelândia, Canadá, México, Nicarágua, Alemanha, Holanda, Itália, Brasil – isso para falar só dos que eu conversei com. No começo achei muito difícil conciliar o ato de pensar, falar e viver o espanhol por lá, e ter que usar o inglês com os gringos que não falavam castelhano – a mente embaralhava e saía uma palavra em cada idioma – uma verdadeira torre de babel. Depois de alguns dias, peguei a prática e consegui administrar isso melhor. Um grande alívio.

Vale destacar, aos marinheiros de primeira viagem, que hostel e hotel se diferenciam muito mais do que apenas por um “s”. No hostel, ao dividir o quarto com alguém, você tem que tomar muito cuidado para respeitar o espaço do outro: não espalhar suas coisas, não incomodar com luz e barulho, ser breve no banheiro etc. Cuidado para você não ser o chato do hostel!! Conversando com o pessoal, vi que logo se destacavam aqueles que não falam com ninguém, ou os que são inconvenientes demais no quarto. Fica muito feio, todo mundo percebe, e você acaba perdendo uma das melhores experiências: bater um papo com a galera. Quer privacidade? Todo o conforto e limpeza dos serviços de quarto? Mete a mão no bolso e vai para um hotel mesmo.

Nesse hostel, eles topam serviço voluntário, então tem uma galera muito gente boa que trabalha e mora por lá. Um dos pontos altos da viagem foi conhecê-los e praticar bastante o espanhol com eles. Na cobertura tem um bar muito tranquilo, que você pode frequentar, beber, comer, ou só ir para olhar o pôr-do-sol (quase às 20h) e congelar com o vento frio da noite.

A cidade

Pz. de los dos Congresos - BA - ARG
Cheguei no fim da tarde na cidade, mas já meti a cara na rua. Fiz uma ótima caminhada pelas lindas avenidas e praças até a belíssima livraria El Ateneo. O centro da cidade é lindo, cheio de placas, polícia, prédios lindos e conservados, sem contar as praças muito vivas – notei que o nativo aproveita muito elas, fazendo piquenique, sentados nos bancos, ou dançando com os amigos. Sempre muito limpas, com belas árvores e flores. É prazeroso andar pela cidade, conhecendo a arquitetura local e um pouco dos hábitos dos argentinos. Pela quantidade de pizzaria, cafeteria e mercadinhos (cheio de morangões) que vi pelos caminhos, acho que me identifiquei bastante com o paladar deles.

El Ateneo
Essa livraria, El Ateneo, fica em um antigo teatro, conservando a sua estrutura, e conta com uma cafeteria bem no seu palco. Lá comi minha primeira empanada, típico pastelzinho da região, com vinho. Livro mesmo só comprei na ótima Livreria Cúspede – o que não falta na cidade são livrarias, tanto em BA quanto Montevidéu – dando de 10 a 0 no Brasil (e também na China, que era difícil achá-las!).

Sabores portenhos

Dos alfajores, famoso doce de lá, aprovei o famoso Havana, e também o Jorgito. Das empanadas, a melhor foi a do restaurante El Sanjuanino. Para almoçar, andando por San Telmo, dá para encontrar restaurantes self-service, mas sugiro que comam numa pizzaria. Nelas, além dos pratos serem deliciosos e de bom preço, também não cobram nenhuma taxa extra. Indico o ravióli do La Continental e o filé do Pétalo Pizzeria. Claro, a estrela argentina é o famoso doce de leite. No café do hostel, no primeiro dia, pedi para o pessoal servir o doce porque ao invés de achar ele, só estava vendo na mesa um brigadeiro. Pois é meus amigos, o tal brigadeiro, era o doce de leite!!Para vocês entenderem o tanto que o bicho é escuro. E delicioso, lógico. Guardei o nome da marca que comi nesses cafés, a Ilolay, e corri num supermercado para comprá-lo. O sorvete Freddo, é ótimo mesmo. A bebida local, fernet com coca-cola, é terrível. Tem gosto de remédio e não engana: é remédio!

Apesar de que viajava sozinha, eu tinha a opção de sair com o pessoal que conheci no hostel para a noite, mas optei por não fazê-lo. Não posso falar da noitada porteña, mas o que sei é que 2h da manhã é uma boa hora para chegar na festa! Deve ser por isso que a cidade começa tão tarde: o café da manhã era servido às 9h, e se você sair às 8h, provavelmente vai encontrar um monte de lojas ainda fechadas. Pelo lado bom, as tardes são bem longas por causa do anoitecer que demora a chegar.

Fora do centro, mas ainda perto, os bairros La Boca e Recoleta são bons para ir de transporte público. Basta comprar o cartão sube e carregá-lo sempre que preciso. As passagens são baratas e o transporte tranquilo. Detalhe, para ter noção dos preços de lá, basta dividir o valor em peso por 10, depois multiplicar por 2. Assim terá a quantia em real. Apesar de termos o dinheiro que vale 5 vezes mais, basicamente gastei o mesmo que gastaria no Brasil.

El caminito -La Boca - BA - ARG
A cidade tem uma atenção incrível aos turistas, com os principais museus sendo de visita gratuita e vários passeios guiados de graça (cobram gorjeta) por ruas ou prédios históricos. O único passeio guiado que fiz foi o do bairro La Boca. Lá aprendi várias histórias sobre as origens da cidade, as principais personalidades (Eva, Gardel, Maradona, el Gauchito Gil), e dentre elas a mais emocionante: as “abuelas de la Plaza de Mayo”, mulheres que sofrem até hoje procurando os desaparecidos da ditadura militar.

O passeio incluiu uma visita à frente do estádio La Bombonera. Nessa hora engoli em seco e fiquei quietinha, sem revelar para ninguém o tanto que desgosto desse estádio e do time do Boca Juniors – retrato de uma infância vendo jogos de futebol e quase infartando toda vez que o Brasil jogava por lá e passava sufoco com as trapaças do futebol argentino.

Ainda falando sobre o turismo, consegui uma infinidade de mapas, cada um mais detalhado do que o outro, e nos centros do governo, espalhados pelos principais pontos turísticos, recebi um ótimo atendimento, com direito a ganhar café, chá, acesso à internet, tomadas, bebedouro e uma garrafa d’água ecológica perfeita, que está inteirinha até hoje. As pessoas ajudam bastante na rua, perguntei bastante e sempre fui bem recebida – apesar da péssima fama de boçais e arrogantes que me alertaram, os argentinos não poderiam ter me tratado melhor! Encantadíssima.

Centro de Atenção ao Turista com vista panorâmica em Puerto Madero
Para não ficar maçante eu citando os pontos turísticos, vamos ao resumão: é bom ir na região da Casa Rosada e do Obelisco, além do bairro de San Telmo, onde vai encontrar basicamente tudo o que é legal visitar. Não estava a fim de entrar nos prédios históricos, tinha muita energia para queimar andando, mas para quem tem mais paciência, as visitas são gratuitas e geralmente valem à pena para conhecer a história local. A feira de San Telmo aos domingos é um absurdo de grande e parada mais do que obrigatória! As ruas, que já tem a cara de Olinda no seu dia-a-dia, ficam ainda mais parecidas, porque parece uma grande festa de carnaval. Ruas lotadas, muuuuuita arte linda, e ótimas comidinhas.
E->D: Casa Rosada, Obelisco, Centro Cultural, Catedral

Aos católicos, vale conhecer a lindíssima Igreja de Maria Auxiliadora y San Carlos, onde o papa Francisco foi batizado, e a Catedral da Plaza de Mayo. Assisti uma missa nessa Igreja, antes de ir para a feira de domingo, e foi uma experiência incrível. Adoro Igrejas históricas! Também vale a pena conhecer aos domingos (15h30), a Igreja Ortodoxa Russa, que fica em San Telmo. Conheci não só o lindo prédio, como também bastante sobre essa religião e a diferença entre ela e a Igreja Católica Romana (a minha).


BA é um lugar caro, que deve ser horrível de morar se você não tem grana. Assim como qualquer outro lugar que temos mil opções do que fazer, mas nenhum tostão no bolso. Em compensação, parece ser ótimo se você tem uma boa renda: achei tranquilo para uma grande cidade; organizada; limpa e não achei violenta. Impressões de turistas são ingênuas mesmo, me perdoem.

Um dos passeios mais famosos da capital portenha, é a visita ao Cemitério da Recoleta. Tirei um sábado para andar pelo bairro, conhecer o cemitério, a igreja ao lado, comer no El Sanjuanino, ir ao Museu de Belas Artes e a grande feira de artesanato. Fui a um shopping, mas não deu muito certo, porque apesar de ter uma grande paixão por shoppings, toda vez que entrava em um por lá, tinha a sensação que estava perdendo meu tempo, pois ao invés de estar na rua, estava vendo algo familiar até demais.

"À memória do meu inesquecível esposo e a ti. Oh! DEUS meu... DEUS meu...meu coração e minha eterna pregação"

O cemitério, merece um comentário a parte. Um passeio peculiar desses, muito facilmente cria um desconforto em seus visitantes. No meu caso, não tive medo de almas penadas, ou qualquer coisa do tipo. O que me deixou mal foi olhar as expressões das estátuas e ler alguns obituários, tão tristes, mais tão tristes, que não conseguia parar de pensar no sofrimento das pessoas que prestaram homenagens tão bonitas aos seus entes queridos. As esculturas são verdadeiras obras de artes, e lá nada mais é do que um museu à céu aberto – daí a sua popularidade nas visitas. Mas olhar as fotos das pessoas em alguns túmulos, ver alguns caixões à mostra, além daqueles paredões de gavetas, foi sinistro demais para mim em um determinado momento, aí foi uma luta desvendar o labirinto que o lugar é, e ir embora rapidinho. Nesse passeio, observei as estátuas que ia vendo pelo caminho, mas rumei para dois túmulos em especial: o de Evita (claro!) e o da moça vestida de noiva com o seu cachorro: conta a história, que essa moça morreu durante sua viagem de lua de mel, e o cachorro morreu ao mesmo tempo, em casa.

Las abuelas de la plz de Mayo
Na feira, confirmei uma coisa que notei todos esses dias pelas ruas de Buenos Aires: a grande manifestação política. Vi tudo com olhos um tanto poéticos, é verdade, mas não deixei de achar lindo a força da manifestações deles – nada parecidos com a papagaiada feita no Brasil com direito a camisa da seleção, bonequinhos e pato gigante. As frases pintadas nas ruas, acampamentos nas praças, camisetas dos artistas locais, murais pintados, e até mesmos as esculturas nas ruas, me passavam uma grande impressão de luta e força, como que representando as classes mais pobres, avançando em defesa de seus ideais. Conversei com algumas pessoas nas ruas, gente nova ou de mais idade e, coincidência ou não, só encontrei pessoas com uma linha de raciocínio voltada para o fim das desigualdades. Isso inclui até mesmo os canadenses, franceses e americanos que encontrei (e por aí vai).

"Nos organizamos para voltar"
Evita também tem que ter um parágrafo a parte. Sem falar do que não sei, apenas do que vivi e senti por lá, vi que o amor por ela ainda é muito forte – como entreouvi de uma guia no cemitério, seu túmulo é o único que recebe flores. Um prédio do governo que fica na Av. 9 de Julio tem o seu rosto estampado, uma homenagem muito bonita, que não cansei de admirar e que me foi muito útil por sinal, para localizar a minha rua. Seu rosto, retratado em camisetas e bolsas (e notas de 100 pesos), não parece ser algo somente para turistas, mas sim para o próprio consumidor local. Não podia sair de lá sem trazer um pouco dela comigo. Muito emocionante a sua força e pelo que lutava.

Tango na Feira de San Telmo
Uns dois dias antes da minha viagem para Montevidéu, caí na besteira de ouvir uma das músicas do filme da Evita, e já comecei a sentir o aperto no peito de saudades da cidade. Tentei aproveitar ao máximo o que restava, mas não conseguia parar de pensar em quando poderia voltar e conhecer tudo de novo. No último dia, percebi que já não precisava tanto do mapa para andar, também já estava segura que vi todos os lugares que queria e poderia fazer dessa vez, por isso apenas aproveitei para fazer um tour pelas principais ruas e praças que conheci, e rever meus cartões-postais preferidos, tudo em clima de despedida. A melancolia já estava batendo forte, e não me via preparada para ir embora dessa cidade charmosa, deixar as pessoas que conheci para trás, os hábitos que já estavam rotineiros, como tomar chá no terraço enquanto escrevia e segurava os papéis para não voarem com o vento congelante e furioso do anoitecer, ou o de demorar quase uma hora para comer um “simples” café da manhã todos os dias. Não estava nem um pouco pronta para voltar para casa e não ouvir mais o som maravilhoso do espanhol, pior ainda ter que me despedir dos amigos, com um nó na garganta. Apesar de não querer deixar BA, era um alívio saber que ainda teria Montevidéu pela frente, para arrastar o castelhano um pouco mais, e continuar saboreando as longas caminhadas em terras estrangeiras.


Próxima parada: Montevidéu 

Praia de Pocitos

Para chegar nesse novo destino, peguei um barco (o da empresa Buquebus), que já tinha comprado pela internet (usem o site Uruguaio, que sai mais barato do que o Argentino) a passagem de Buenos Aires a Colonia del Sacramento, depois integrado com um ônibus direto e da mesma empresa, de Colonia a Montevidéu.

A viagem de barco é ótima! O Rio de la Plata separa os dois países, parecendo um mar de água. Não notei nenhum balanço, nem incômodo do tipo. As bagagens são despachadas e os assentos não são marcados – por isso, se quiser ficar na janela, tem que ir cedo para a fila. Lá dentro tem uma lanchonete, loja e casa de câmbio. A cotação é terrível lá dentro, fiquei muito feliz em ter esperado para trocar meu dinheiro na estação de Tres Cruces, já em Montevidéu.

A parada em Colonia é vapt-vupt, não dá para ver nada da cidade. Para quem quer passear por lá, sugiro comprar a passagem de barco só até Colonia, e depois pegar outro ônibus lá. Quem quiser também pode pegar o barco direto, BA – Mtvd, só paga um pouco a mais, chega mais rápido, mas perde o passeio pelo interior do país.

Orla de Pocitos - Montevidéu- URU

Montevidéu é quase como uma cidade praiana. A orla é muito extensa, se não me engano, uns 20km ininterruptos. A água é escura, mas tem toda pinta de mar, com ondas, me deixando em dúvida até o último dia, se a água era de rio ou de mar. A única pista é que ela não tinha o cheiro de sal, e dito e feito: uma local me confirmou que era rio, mas com influências do mar.

Praia Ramírez - Mtvd - URU
O ritmo da cidade é bem diferente da qual eu estava. Apesar de ser a capital do Uruguai, não parece ser violenta, e aparenta ser bem tranquila. Aqui, fiquei no Medio Mundo Hostel, no bairro Rodó, a poucos metros do Parque Rodó e da Playa Ramírez. Deu para fazer tudo o que queria andando, mas a cidade parece ser gostosa para pedalar, principalmente na enorme orla.

Praia Ramírez - Mtvd - URU
Quando cheguei, estava enfrentando uma onda de calor desde o penúltimo dia em BA. Estava tão quente, que no dia seguinte caiu uma tempestade com direito a chuva de granizo! Aproveitei que por aqui também escurece tarde, e saí logo no primeiro dia para conhecer os arredores. Vi um lindo pôr-do-sol na praia, mas tão longo que deu tempo de ir andando até o shopping Punta Carretas, depois voltar para a orla novamente e ver o restinho do sol.

Algumas pessoas me alertaram que aqui era mais caro, mas confesso que achei basicamente a mesma coisa de BA. Aqui se usa o peso uruguaio, que é só calcular dividindo por 10, para saber o valor em real. Como não fiz tantos passeios, peguei um ritmo mais leve, consequentemente gastei menos, dificultando a comparação de gastos. Nesse hostel, o café da manhã estava incluso, e tinha uma geleia de morango e bolo de chocolate surpreendentes. A estrutura é bem mais moderna do que a do outro, mas por ser menor, tem alguns inconvenientes. Outra dica sobre hostel é a de tentar buscar por um que tenha áreas de convivência externas (principalmente no telhado) – com isso, há menos riscos de ser incomodado com o barulho de conversas ou cheiro de cigarro entrando dentro do quarto.

Av. 18 de Julio - Mtvd- URU
Andei bastante pela cidade, que não tinha longas distâncias, e pude conhecer o seu centro histórico (casco viejo) – muito gostoso de andar, com suas ruas de pedra e lojas de artesanato lindinhos. Planejei voltar ao hostel pela orla, para conhecê-la por inteiro, mas a tarde tava com o maior sol e não tem árvores na beira da praia. Não foi uma boa ideia, por isso deixei para andar pelo bairro de Pocitos e por toda a sua praia em uma manhã.

A internet recomendava comer o churrasco no Mercado del Puerto, mas chegando lá algumas pessoas falaram que não valia a pena, porque era caro e só para se aproveitar dos turistas. Vou dizer aqui, acho que vale a pena sim! Esse mercado, diferente do que eu pensei, é basicamente só de restaurantes, não vende frutas como imaginei, e com muito pouco artesanato. A bebida oficial do mercado é o delicioso Medio y Medio, que é uma mistura de espumante com vinho. Me apaixonei. Vale a pena comer lá, não só pelo sabor, como todo o ambiente.

No mercado, chama à atenção os funcionários convidando os clientes em português/portunhol, ou até mesmo sendo brasileiros. Com o apelo grande dos turistas brasileiros, eles estão bem preparados para nos agradar. No hostel, por exemplo, além de vários funcionários vindos do Brasil, basicamente 90% dos hóspedes também eram meus conterrâneos. No começo, fiquei um pouco chateada, porque estava numa puta dor de corno, me perdoem a expressão, pela minha saída de Buenos Aires e acabava vendo em Montevidéu, como os últimos resquícios desse universo hispanofalante. Chegar nessa cidade e me deparar com tanta familiaridade e conversas em português, me pareceram uma volta um tanto que precoce ao Brasil. Enquanto queria viver um pouco mais da cultura de lá, saborear um grapamiel e praticar o idioma, recebi propostas de “pode falar em português mesmo” e “quer beber? tenho uma pinga de minas ali”. Era como se jogassem mais uma pá de terra.

Como uma grande amante do cinema que eu sou, ao entrar no shopping center tive uma enorme vontade de ir ao cinema uruguaio. Vi o cartaz do filme argentino: “Yo soy así, Tita de Buenos Aires” e apesar de parecer ser bem interessante a história, temi que não seria uma boa ideia cutucar meus sentimentos pela cidade portenha novamente. Bom, foi maravilhoso assistir ao filme! A história da Tita, uma cantora de tango, além de ser interessante, contava com canções e danças lindíssimas tornando a experiência o melhor possível. O final foi emocionante até demais, que me fizeram derramar lágrimas pela cena, mas já misturadas de saudade.

Praia Ramírez
Montevidéu, mesmo recebendo um papel injusto de coadjuvante na minha viagem, finalmente começava a ser vista com olhos mais carinhosos. Andando pelas ruas do bairro de sandália havaiana à la praísta, tomando um sorvetão de doce de leite e creme de avelã, indo na direção da praia para esperar pelo pôr-do-sol, tinha um sabor de despedida bem mais agradável e satisfeito do que a anterior. Montevidéu é calma e passa essa vibe tranquila e acolhedora. Um alívio para o turbilhão de emoções dos argentinos meio “italianados” que conheci. Fiz as pazes com a cidade, enquanto esperava o sol descer, quase às 20h, de casaco fechado e com os pés (congelando) na areia dessa praia tão peculiar.

Vamos aos finalmentes

A hora de dizer adeus chegou em pequenas parcelas. Na saída de Buenos Aires, ou melhor, nos últimos passeios que por lá realizei, já tinham o gostinho de despedida. Toda a viagem por Montevidéu, o ressentimento pela partida ainda marcante, incluindo quando tive a ideia “genial” de ver o filme da Tita.

Na saída de Montevidéu, já em um clima diferente – de antecipação pela volta para casa – só fez adormecer o sentimento que muito em breve retornaria.....na abertura da bagagem e vendo as recordações, por exemplo. Por alguns dias, as músicas, fotos e sabores que vieram junto com a mala, trariam novamente à tona a saudade por essa viagem. As leituras dos livros que trouxe prolongaram um pouco o sentimento, e até mesmo durante momentos em que buscava esquecer, como quando fui ao cinema ver o filme nacional “Entre irmãs” e me toca justamente um tango de Gardel no meio do longa!

Na minha universidade, teve por esses dias um evento internacional com a visita de estrangeiros sul-americanos e hispanofalantes, onde pude continuar ouvindo e falando um pouquinho dessa língua que aprendi a amar por esses dias.

Hoje, duas semanas depois da chegada, vejo que já não há mais porque prolongá-la, e sinto que estou pronta para realmente dizer adeus. Na verdade, adeus não. Um até breve é bem melhor!

Montevidéu - URU

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

A tal da “mana”

Foto: Rao Godinho/Divulgação. In: http://www.diarioonline.com.br/entretenimento/cultura/noticia-396777-fotografia-para-celebrar-mulher-paraense.html

Andei assistindo a atual novela da globo, que está tentando mostrar um pouco da cultura paraense e confesso que não me senti totalmente representada. Mesmo assim, gostando ou não, sempre é bom ter essa divulgação para o Pará deixar de ser tão estrangeiro para o próprio brasileiro.

Quero hoje falar um pouco desse estado, mas não adianta vir aqui falar que o paraense fala muito “égua” – o que é nada mais do que a verdade; falar das comidas típicas ou apontar as diferenças entre a fala e a cultura nas diversas regiões do estado. Essas informações são fáceis de encontrar pela internet. Hoje vou falar mesmo é das manas.

Mana, diminutivo de irmã, é como nós gostamos de nos referir umas às outras, na relação entre amigas, ou até mesmo se dirigindo à outra mulher desconhecida. Homens também chamam as mulheres de mana, e olha que às vezes nos dirigimos até mesmo aos homens, usando o tal do “mana”.

A mana é a típica paraense. Se você, mulher paraense, não se identificar com as características que eu vou comentar a seguir, não se preocupe! Essa é uma visão generalizada, que pode ainda não fazer parte da sua realidade, mas também pode um dia vir a ser, ou não.... enfim, fica calma mana, que nem toda mana é igual mesmo...

A paraense é antes de tudo, uma feminista! Vou explicar melhor: nós manas, somos independentes, alto astral, desbocadas, falamos sacanagem, gostamos de beber – na verdade, fazemos parte da galera da golada (muitas vezes fazendo até mais propaganda do que realmente bebendo), se der vontade, a paraense vai lá e puxa o homem quando quer dançar aquele brega marcante; faz o que quer, sem muitos pudores e receios do que os outros irão comentar. A mana estuda, trabalha e é cheia de sonhos, que independe do que o companheiro (a) quer para o futuro dela. A mana, às vezes faz merda e gasta o dinheiro que era pra trocar os óculos em cachaças ("Eu vou é beber esse dinheiro!"), mas o que ela não faz é deixar de ser livre e se divertir muito – principalmente com as outras manas.

Exemplos de mulheres trabalhadoras podemos ver no Brasil inteirinho – de Norte à Sul, assim como por todo o mundo. Só que hoje vou jogar uma luz só nas brasileiras que cresceram sob o calor de 41° (na sombra) do Pará; que parecem ainda conservar o sangue ancestral das guerreiras indígenas, que botavam moral e faziam de tudo um pouco em suas famílias, tal como fazemos hoje em dia.

Muita gente considera o Pará como uma terra atrasada. Em alguns aspectos, isso até que é verdade em alguns aspectos, mas é só viajarmos um pouquinho para percebermos o quanto pensamos diferente, ao encontramos outras mulheres, ainda não-manas, que apesar de toda sua força, continuam vivendo sob regras e desmandos machistas.

A mana sempre está na luta para se posicionar no mundo e mostrar do que ela é capaz. Vivemos em uma sociedade, que não aguenta mais o machismo, que clama por novos ares e menos injustiças. Filmes, novelas, séries, livros, programas de TV....os exemplos não param, em todo lugar, midiático ou não, vemos o clamor das mulheres, manas, guerreiras, por apenas, igualdade.

Fonte: ‘‘Icoaraci Da Depressão.’’ (Facebook)

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A ESCRITA E A LEITURA EM MINHA VIDA

O meu primeiro contato com o universo da leitura foi antes mesmo de ingressar na escola, quando apenas aos três anos de idade via as imagens dos gibis da Turma da Mônica, do Maurício de Sousa, enquanto meus pais liam os diálogos para mim. Antes mesmo de aprender a ler, folheava alguns livros infantis, tal como O Menino Maluquinho de Ziraldo (1980), e quando me alfabetizei, pude enfim ler tudo o que via pela frente: outdoors, fachadas, revistas, livros etc.

Em casa, tive um grande incentivo dos meus pais, que compravam para mim revistas (em quadrinho, de variedades ou até mesmo de colorir), e não só os livros que as escolas exigiam, como também os livros que eu optava; liam as histórias quando eu ainda não podia as ler sozinha e estimulavam minhas idas às bibliotecas. Esse apoio familiar, que inclui os outros parentes que emprestam ou presenteiam as crianças com livros, tal como aconteceu comigo, considero fundamental para a formação de um leitor crítico, interessado em buscar novas leituras, desafios, analisando o que está lendo, desenvolvendo capacidades, e sempre aprimorando suas estratégias de leitura.

Há casos, como nas escolas em que estudei, em que se percebe que muitas famílias não incentivavam os seus filhos a lerem, negando-lhes até mesmo os livros de leitura obrigatória da escola – mesmo tendo condições financeiras para comprá-los, o que acaba desestimulando o hábito da leitura nesses jovens. Quando não recebe esses incentivos, ainda assim o indivíduo pode se interessar pela leitura por conta própria, e conseguirá também todo o desenvolvimento falado anteriormente, no entanto vivenciará muito mais dificuldades em seu caminho, pois quanto maior o incentivo do meio em que vive – familiar e escolar – naturalmente terá um amplo acesso à leitura e o que facilitará um maior desenvolvimento. Ao mesmo tempo, em um cenário em que o indivíduo recebe tudo à sua disposição, no entanto rejeita o universo dos livros, ele não conseguirá desenvolver as suas capacidades.

Durante o Ensino Fundamental, o material didático da escola em que estudava continha diversos gêneros textuais, incluindo: letras de músicas populares na época e clássicos da MPB; poesias; contos; fábulas; charges; tirinhas; trechos de romances; artigos jornalísticos etc. Os textos não se limitavam aos livros de Português, Redação e Literatura – também faziam parte do material das aulas das Ciências Humanas e Biológicas, e um tanto mais limitados nos livros das Ciências Exatas, mas ainda presentes. A variedade de gêneros é importante para expandir o conhecimento do aluno, pois assim ele pode ter acesso a materiais que não são comuns ao seu cotidiano, como também pode analisar sob outro ponto de vista aquilo que já lhe é comum.

No ambiente escolar, torna-se fundamental a presença de textos com temáticas que os alunos conheçam previamente, e muito provavelmente gostam, como as tirinhas, mas que o professor consiga aos poucos inserir os estudos necessários no processo de aprendizagem dos alunos através de elementos novos, tais como as poesias e canções poéticas que não ouvimos com frequência, textos jornalísticos etc. Assim consegue motivar o aluno com o que já os atraem, e insere o novo para ele ampliar seus gostos e conhecimentos. Um exemplo disto ocorreu comigo, durante o Ensino Fundamental, quando li o trecho do livro Relato de um náufrago de Gabriel Garcia Márquez (1970) em uma atividade das aulas de Português, e fiquei muito interessada em ler toda a obra, o que veio a acontecer vários anos depois.

A criança precisa aprender a construir, aos poucos, autonomia na escolha de suas próprias leituras – para que essa atividade não fique sempre restrita ao que o professor exige e ele possa fazer dessa atividade um hábito prazeroso. Ao crescer há maior probabilidade do jovem continuar buscando o prazer através da leitura, e não apenas enxergar o livro como um retentor de conhecimentos, rígido, necessário e ao mesmo tempo obrigatório, o que o torna apenas um aborrecimento.

Na época do Ensino Fundamental, meu colégio organizava algumas atividades para estimularem a leitura. Quando menor, tinha uma biblioteca itinerante, que passava por cada sala de aula toda semana para escolhermos alguma nova leitura. Os alunos doavam alguns livros, para fazer circular a leitura entre nós, eu inclusive emprestei muitos gibis. O único lado ruim é que muitas vezes os colegas não tinham muito cuidado, e acabavam perdendo o livro do coleguinha.

No ambiente escolar tive contato com as obras de diversas coleções e grandes autores tais como Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Pedro Bandeira e as diversas coleções de livros: Coleção Olho no Lance, Coleção Vaga-Lume, Série Sinal Aberto, Para Gostar de Ler, Descobrindo os Clássicos etc. Muitas dessas obras o primeiro contato foi através de atividades obrigatórias na escola, mas que depois tornaram-se escolhas pessoais. Esse é um efeito desejado pelos professores, que cheios de boas intenções, passam livros para seus alunos, e exigem uma avaliação para “estimular” a leitura, mas no fundo esperam que eles sigam com o hábito de leitura. Infelizmente, a grande maioria dos alunos não criam esse hábito após a imposição realizada pela escola, e acabam por se distanciarem cada vez mais dos mundos dos livros, principalmente dos clássicos.

A coleção Descobrindo os Clássicos, por exemplo, reconta de forma bem diferente os grandes clássicos da literatura, e deveria servir apenas como uma introdução e estímulo para o aluno ler o original no futuro. Não é o que aconteceu comigo na prática. Os professores passaram a leitura, junto com uma atividade avaliativa, para nos preparar para a leitura da obra no futuro. Dessas adaptações que li, não me senti motivada o suficiente para ler nenhuma obra em sua versão original, já me dando por satisfeita com a leitura das adaptações – e, apesar das cobranças da escola/sociedade para eu ler os grandes clássicos, mesmo com as exigências do vestibular, apenas li os livros que me chamaram à atenção, e isso muitos anos depois.

Apesar de muitas vezes criticados negativamente pelos professores, as famosas séries infanto-juvenis (blockbusters) também são importantíssimas para atrair à atenção de jovens leitores, que muitas vezes começam a ler por prazer, através das famosas séries que, em geral, também recebem adaptações para o cinema. Durante toda a infância e a adolescência, segui lendo esses livros paralelamente às leituras recomendadas pela escola, o que apenas acrescentou ao meu processo de aprendizagem, ao invés de prejudicar, como assumem muitos críticos literários rigorosos (e ultrapassados).

A leitura do livro didático na escola, principalmente durante o Ensino Fundamental, algumas vezes foi feita individualmente, mas em sua maioria era realizada em voz alta, com cada um lendo até um ponto ou o parágrafo inteiro: nesse momento, nem os alunos, nem o professor, estavam se preocupando com o conteúdo do texto e as possíveis reflexões que poderíamos fazer, mas sim se sabíamos pronunciar todas as palavras, seguir as pontuações, entonações para afirmações e interrogações, se não estaríamos lendo atropeladamente, dentre outros “erros”. No fim, o aluno fica mais preocupado em fazer bonito do que entender o que está lendo. Não há interpretação e reflexão do texto assim. As perguntas feitas pelos professores ao final dessas atividades, em geral tratam o texto superficialmente. Muitas vezes, nas escolas em que estudei, os alunos eram questionados sobre o que o autor do texto “queria dizer”, como se fosse uma mensagem pronta na qual teríamos que decodificar. Outros professores, principalmente quando nos deixavam fazer uma leitura silenciosa do texto, perguntavam ao final nossa própria interpretação do texto, fugindo um pouco dessa ideia de decodificação apenas.

Quando criança, em um disciplina semelhante a de Filosofia e Sociologia, ministrada pela psicóloga da escola, era feita uma rodinha de leitura na qual líamos um conto d’ O livro das Virtudes para Crianças, de William J. Bennett (1997), e depois discutíamos o que entendemos da historinha. Apesar de não me lembrar do conteúdo dessas discussões, lembro apenas que era uma atividade prazerosa e que me aguça, até hoje, o desejo em ler mais histórias como aquelas que estavam no livro.

Nas idas às bibliotecas, eu seguia como estratégia pegar os livros de autores que eu já tinha gostado, ou outros livros que fossem das mesmas coleções que eu já aprovava – nessa época poderia reconhecer facilmente as cores e larguras dos livros, achando-os com facilidade na estante. Muitas vezes a bibliotecária censurava alguns livros, como as crônicas, alegando que era necessário estar em uma determinada série na escola, para poder ler o livro. Esta mesma bibliotecária costumava fechar a biblioteca durante o dia, para que os alunos não fossem buscar nada lá: proibindo que fossemos durante o horário de aula (nesse momento aberta), mas fechando-a na hora do intervalo e na saída. Nunca foi explicado o porquê dessa atitude dela, que teoricamente estaria seguindo uma ordem para fechar a biblioteca e impedir ao máximo o seu acesso (o que acho pouco provável). O resultado foi que os alunos desinteressados, cada vez mais evitavam pegar algum livro para ler, e os que gostavam, aos poucos também desistiam de ir até lá para encontrar quase sempre as portas fechadas. Em outra escola, era ainda pior, pois as estantes de livros ficavam dentro de uma sala de estudo, atrás de um balcão no qual nenhum aluno poderia entrar e teríamos que pedir para um colaborador da escola pegar o livro que desejávamos: assim eliminava o prazer de podermos olhar cada estante e escolher à vontade a próxima aventura. Nessa época, o ambiente era quase que totalmente frequentado por alunos pré-vestibulandos solicitando apenas livros didáticos das disciplinas que caem nas provas de vestibulares.

Como parte das minhas estratégias de leituras, eu preciso ler o texto individualmente para conseguir compreendê-lo (não funcionando aquela tática de leitura em voz alta das salas de aulas). Dependendo da densidade dos conteúdos em um texto, acabo escrevendo palavras-chaves ao lado do parágrafo; quando me disperso, começo a reler o trecho em que parei, até retomar o foco e muitas vezes elaboro uma explicação (em voz alta) do que compreendi até aquele ponto. Faço isso desde criança, e funciona até hoje estudando na graduação. A partir do terceiro ano, percebi que me concentro muito mais na leitura quando ouço música, assim como vários amigos que tem essa mesma estratégia.

No Ensino Médio, explorei novos caminhos literários, conhecendo obras do Barroco e Arcadismo e me surpreendi ao ler um livro clássico do Romantismo Brasileiro, o Cinco Minutos de José de Alencar (1856) e pela primeira vez senti prazer em ler uma obra clássica. Aos poucos fui rompendo minha resistência com essa literatura, e me envolvendo com textos diferentes da minha zona de conforto, começando com as peças teatrais de Ariano Suassuna, até aos poucos chegar nas obras originais de Clarice Lispector, Machado de Assis, Jorge Amado, Aluísio Azevedo, Ernest Hemingway, dentre outros. Também foi a partir do Ensino Médio que comecei a ler textos estrangeiros escritos originalmente em Inglês – a busca por textos escritos no idioma original, que mantém sua essência, passaram a se tornar um hábito para mim.

A República, escrito pelo filósofo Platão (século IV a.C.) foi uma das piores leituras obrigatórias da minha época escolar. A professora exigiu a leitura e pediu um trabalho avaliativo sobre o livro. No entanto, os alunos não leram, e cada um usou uma estratégia diferente para trapacear; eu mesma li trechos do livro, pulava vários parágrafos, e escrevia um pouco sobre as partes que lia. A professora tinha uma boa intenção, mas fingiu não perceber que não daria certo esse tipo de leitura para alunos de 14, 15 anos – pelo menos não dessa forma e com essa “motivação”. Nem sempre o planejamento do professor funciona na prática se não houver adaptações e uma maior integração da turma com as propostas didáticas.

No colégio, uma atividade que funcionou foi quando fizemos algumas peças teatrais de algumas leituras clássicas realizadas, como das obras Auto da Índia, de Gil Vicente (1509) e O Alienista, de Machado de Assis (1882). No terceiro ano, principalmente, tem as leituras obrigatórias do vestibular que ninguém lê (nem tanto por falta de vontade, mais pela falta de tempo por causa do estudo de todas as disciplinas), então os professores costumam passar resumos dessas obras para os seus alunos. A minha professora de literatura, sabia conduzir bem essas aulas, pois fazia todo o resumo do livro, como se estivesse contando um conto – seduzindo os alunos para a história, explicando alguns elementos da obra, contextualizando, e comparando com outras histórias. Essa atividade não substituiu a leitura, no entanto serviu para eu fazer a prova e criou o interesse para no futuro ler esses livros.

A partir do último ano do Ensino Médio (incluindo os primeiros anos de faculdade), a quantidade de conteúdo a ser estudado limitou todas as minhas atividades extraclasses, fazendo com que eu abandonasse quase por total a leitura de livros por alguns anos. No entanto, substituí esse hábito pelo da leitura de fanfics (ou fanfictions) – textos online, postados em capítulos de 1.200 a 5.000 palavras, em que qualquer pessoal pode escrever, e postar na frequência que desejar, histórias que variam de originais a adaptações de livros, filmes, seriados ou mangás. Por essa inconstância da data de postagem de cada autor faz com que os leitores passem a acompanhar mais de uma fanfic ao mesmo tempo. Quando eu lia uma fanfic, acabava fazendo uma leitura mais despretensiosa, saltando parágrafos que considerava desinteressante e até desistindo de algumas histórias. Acabei me acostumando com esse tipo de leitura virtual, e ao voltar pra leitura de livros, me sentia impaciente e muito ansiosa para continuar seguindo uma leitura tradicional, sem pular nenhum trecho, e curiosa em saber o que aconteceria mais à frente naquela história.

Durante o estudo para o vestibular, aperfeiçoei a estratégia de leitura em que se realiza um scanner de informações no texto, tal como já praticava antes para responder as questões de interpretação de textos do colégio, assim poderia ler cada vez mais rápido para obter sucesso nas provas do ENEM. Ainda hoje utilizo muito essa técnica durante as leituras de textos teóricos na universidade, para procurar as informações que mais preciso. Esse scanner é feito basicamente procurando determinadas palavras-chaves que indicam aonde a informação desejada se encontra.

Na graduação que fiz em Engenharia da Computação, a leitura se limitava aos resumos dos conceitos nas apresentações em Power Point dos professores – havia livros didáticos, no entanto serviam apenas como uma rápida consulta (ou nem isso). A escrita se limitava aos códigos computacionais, e aos resumos que eu fazia para estudar o conteúdo teórico. A falta da leitura e escrita nesse período foi um dos fatores que me fizeram trocar de curso.

Sobre as estratégias de escrita, ainda na escola, desde o começo do Ensino Fundamental até estudando para o vestibular, eu costumava fazer um resumo de todas as disciplinas para estudar para as provas, através de tópicos e curtos parágrafos, quase como um fichamento do conteúdo visto em sala de aula. Apesar de não utilizar mais essa estratégia por não ser mais necessário estudar assim, transferi sua adaptação para a produção textual de textos acadêmicos, nos quais escrevo em tópicos os pontos que precisarei abordar ao longo do texto. Essa escrita acaba por ser uma forma de organizar os pensamentos. Da mesma forma, a utilizo sempre no dia-a-dia, no formato de listas sobre o que preciso fazer, ou na organização de quaisquer dados.

Esse hábito de listas começou durante a quinta série do EF (hoje sexto ano), após uma escola exigir que os alunos tivessem uma agenda escolar para anotar o que precisávamos fazer. Tive uma ótima adaptação à essa proposta da escola, e todo ano, até hoje, compro uma agenda com esse intuito. Também nessa época, utilizei a escrita para fazer um diário pessoal: no começo eu colava mais fotos de revistas, do que propriamente escrevia algo. Ao ter muita dificuldade e ansiedade em reunir todos os detalhes do dia em apenas uma página, acabei por abandonar essa prática por um tempo, retomando novamente ao final da adolescência, e agora esse diário se encontra o oposto de como eram feitos os primeiros: todas as páginas são preenchidas por relatos pessoais, e praticamente sem imagens.

No Ensino Fundamental I, a escola passava deveres de casa diários, e exigia que tínhamos que copiar as perguntas e textos no caderno, além da resposta. Essa prática que, provavelmente, esperava que aumentasse o nosso hábito de escrever, era odiada por todos os alunos, pois achávamos totalmente inútil perdermos tempo reescrevendo tudo que já estava impresso, ao invés de apenas respondermos as questões. Há formas mais criativas e menos aborrecidas de fazer os alunos escreverem, e muito mais atrativas, ao invés desta que pode afastar cada vez mais o estudante da prática.

Quando eu era criança e escrevia os trabalhos da escola, às vezes precisava seguir a seguinte estratégia: escrevia o que eu sabia, mas para complementar o texto, copiava o conteúdo encontrado na internet e disfarçava mudando a ordem que os assuntos eram abordados, substituído as palavras por sinônimos e escrevendo os resumos dos parágrafos do texto original. No Ensino Médio as atividades de classe não precisavam deste recurso, os professores pediam poucas pesquisas, e no terceiro ano não existiam mais os “deveres de casa”. Estudando Letras, a escrita é com base em diversos textos teóricos, que são selecionados para dar suporte ao texto, e são propriamente citados. A escrita desses textos universitários é sempre feita de forma irregular: eu prefiro escrever diversos tópicos que preciso abordar no texto, depois disserto sobre cada um deles, adaptando de acordo com o gênero textual exigido. Hoje em dia não consigo escrever textos de forma manuscrita, pois é recorrente a mudança na ordem dos parágrafos, na ordem das ideias apresentadas no texto, troca de palavras, acréscimo ou exclusão de citações etc. Para o meu texto ficar pronto, ainda recebe algumas releituras e reformulações. Pelo hábito maior de escrita, cada vez mais se torna mais rápida sua produção, e cada vez mais longos.

Quando ingressei no curso de Letras Português, aumentou a quantidade e qualidade de minha produção escrita e de leituras realizadas. Parte das leituras foram realizadas obrigatoriamente, de textos literários e teóricos, mas uma boa parcela foi realizada por prazer e para uma ampliação de conhecimento, que com o passar do tempo foram se mostrando necessárias para um estudo continuado: conforme se estuda mais profundamente a linguística e literatura, textos que antes pareciam supérfluos, tornaram-se interessantes e me motivaram a sua leitura, como o que aconteceu com a leitura dos livros clássicos. Aos poucos, senti uma maior maturidade literária que me permitiu ampliar novos horizontes e conhecer autores de outras partes do mundo como Dostoiévski, e literaturas de outras culturas, como a árabe; mas sem deixar de ler também os livros blockbusters. Livros que integram a literatura infanto-juvenil também continuam sendo lidos, no entanto, agora com um olhar crítico e reflexivo. A escrita também sofreu uma mudança nesse período, tornando-se mais consciente das responsabilidades de usar uma base teórica, citá-la corretamente, abordar temáticas interessantes e tomar cuidado com a linguagem utilizada, e por fim, exercitando a escrita fora do ambiente estudantil, na produção de um blog com pequenas crônicas de casos cotidianos. :)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Lembranças de uma viagem Xing Ling

Beijing Road - Guangzhou, China

Nihao

Em junho, realizei uma viagem de negócios para a República da China, como intérprete da empresa em que eu trabalho, em uma verdadeira maratona que envolveu 8 cidades em 15 dias, viagens de avião, trens, visitas a fábricas.... muita coisa aconteceu, e vou fazer um apanhado das coisas mais legais que vivi por lá.

IDA

A maratona começou ao sair de Marabá e gastar algumas (muitas) horas em aeroportos : Belém, São Paulo (GRU), Dubai (Emirados Árabes Unidos) e finalmente a nossa primeira cidade, Taipei (Taiwan).

Aparentemente foram três dias de viagem, só que na realidade não é tanto assim. Para (não) entender a questão do tempo, eu saí na sexta (hora local) e cheguei lá no domingo (hora local), mas na verdade a diferença de tempo são de apenas 11 horas, no caso da China estando no futuro. A viagem aparenta ser mais longa, porque tem a espera na conexão e cada vez mais vamos, literalmente, perdendo tempo para o fuso horário. Na viagem de volta a viagem é para o passado, então ganhamos todo esse tempo de volta e por isso no “mesmo” dia em que saímos, chegamos. : )
Horários Mundiais
Toda a República Chinesa segue o horário de Pequim, o que inclui Taiwan e Hong Kong, que são regiões independentes, pero no mucho. Tecnicamente, tudo é China, mas as três regiões têm moedas diferentes: Taiwan – Dólar Taiwanês TWD, que equivale a multiplicar o valor por 0,10 para dar o valor em real; Hong Kong – Dólar de Hong Kong HKD, que aproximadamente é só dividir por 2 para saber quanto fica em real, o mesmo para a moeda chinesa – Yuan CNY (nome oficial), e popularmente conhecida por Renminbi RMB. Outra diferença inicial é que os três tem solicitações diferentes para a entrada no país: Hong Kong não pede visto de brasileiros, e para Taiwan e China (Mainland, como eles chamam o território principal) foram vistos diferentes.

Durante o voo principal GRU-DXB-TPE, viajei pela companhia Emirates, no A380, o maior avião do mundo, com direito ao desenho do time do Real Madrid e o escudo pintados na lataria. Foi uma grata surpresa saber o tanto de coisa que dá pra fazer durante a viagem, se não tivermos cuidado, nem lembramos de ler o livro que levamos. O serviço de bordo é ótimo, a comida gostosa e farta, e nas tv’s individuais dá para ouvir música árabe, indiana e as ocidentais, além de videoclipes novos e antigos; seriados; muitos filmes e o melhor de tudo: temos acesso wi-fi grátis, dá para mandar mensagens e até fotos para qualquer lugar! Também temos acesso a três câmeras do lado de fora do avião, uma atrás, outra embaixo e uma na frente. No avião já dá pra começar a gastar o Inglês – apesar de que alguns comissários falam Português também, e a maioria dos filmes novos não tem legenda em port, nem são dublados.
F1.: A380 customizado pelo time do Real Madrid F2.: Tela do pc de bordo com câmeras do avião e maratona Piratas do Caribe rolando

DUBAI – Emirados Árabes Unidos

Ao chegar no aeroporto de Dubai, na ida, me encantei com a estrutura e beleza do terminal B e já me animei com as lojas, mas apesar de nossa moeda ser mais valorizada que o Dirham AED deles, os preços são bem parecidos com os praticados no Brasil. Aconselho a não deixar para comprar nada na volta, pois no meu caso, fiquei em outro terminal (C), que tinha lojas mais simples e com menos opções (pelo menos tive a impressão de que os preços eram melhores nesse segundo terminal). Uma coisa que percebi ao conhecer os terminais B e C, e que voltarei a mencionar ao longo do texto, foram as diferenças entre manter o tradicional vivo, e abrir as portas para o ocidente. Explico:

O terminal B tem tudo o que esperamos de Dubai, muita modernidade, luxo, grandes marcas, tecnologia, e uma grande arquitetura. Passei horas agradáveis andando por ali. Detalhe, era noite, quase madrugada.
F1.: Elevadores do Terminal B. F2.: Terminal C

Enquanto que no terminal C, encontrei uma outra cara de Dubai, um pouco menos com a cara dos prédios luxuosos que vemos na TV, e mais parecido com um mundo árabe, com desertos e oásis. Lá, por exemplo, tinha palmeiras na decoração, e um painel enorme retratando cavalos correndo no deserto; para completar, estava amanhecendo quando cheguei, daí a luz solar estava dando um aspecto amarelado ao ambiente – contrastando com o ar lustrado e engomadinho do outro terminal. Adicionando, senti o ar bem seco, o que desagradou bastante a minha asma, e gentilmente me lembrou que eu estava no meio do Deserto da Arábia.

As lojas vendem lâmpadas do gênio e camelos, mas ao mesmo tempo maquiagens Chanel, fones de ouvido e pacotes de M&M. É engraçado como podemos comprar artigos tão únicos da região, mas ao mesmo tempo tem pacotes de leite Ninho pra vender e shampoos Pantene.

Em ambos os terminais vi pessoas de diversas culturas, incluindo muitos indianos e árabes com os seus trajes típicos. Notei que os banheiros masculino e feminino estavam um tanto mais afastados do que o costume; notei que tinham salas de oração separadas para homens e mulheres e em um determinado local, também tinham salas de esperas com esse tipo de divisão. No entanto no saguão, vida normal, todo mundo junto, e o melhor, sem diferença de tratamento por parte dos locais comigo.

TAIPEI – TAIWAN

Em Taiwan, a primeira impressão foi desapontante, pois de uma cidade que eu só ouvi falar em modernidade, achei o salão de desembarque muito simples (principalmente depois do impacto de Dubai), e na verdade, com um forte cheiro de mofo. O nosso transfer foi feito em uma espécie de ônibus-van modelo antigo, mas conservada, e para completar, a paisagem até o hotel foi de uma longa estrada com vários prédios tipo “caixão”, monocromáticos, e com a maior pinta comunista. Me lembrei muito de uma cena no filme que vi recentemente: Tudo Por Uma Esmeralda (1984) quando a mocinha desembarca na Colômbia.

Bom, nem precisa falar que essa primeira imagem foi totalmente derrubada a partir do momento em que pisei no hotel e comecei a conhecer a cidade. Taipei é bem moderninha, tem muito prédio lindo; dá pra se virar tranquilo com o Inglês (detalhe importantíssimo); é cheio de fast-food, tem até supermercado Carrefour! E quanto ao aeroporto, na viagem de volta, a impressão foi totalmente superada pelo lindo saguão de entrada e principalmente os portões de embarque temáticos – pra completar, o nosso transfer da volta foi em uma Mercedes, com direito a chofer. A entrada e a saída do país não poderia ter sido mais diferente.

COMPRAS

Como falei, a moeda taiwanesa é bem desvalorizada com relação ao real, por exemplo, R$100,00 ficaria em torno de $1.000,00 TWD, mas em compensação se você vai comprar algo que custa 100 conto no Brasil, lá vai custar...1.000TWD! Ou seja, trocando 6 por meia dúzia. Como não rola os preços de banana tão sonhados, nem mesmo nos eletrônicos, o bom mesmo é comprar coisas locais, que não se acha pelo mundo. Uma amiga minha de lá me falou a opinião dela sobre esse assunto: ela acha que o mercado de lá não é tão grande, por isso, apesar dos produtos muitas vezes serem produzidos lá, não tem um preço baixo; já no Brasil, em São Paulo por exemplo, devido ao grande mercado, eles podem baixar o preço e deixar iguais aos praticados no país de origem do produto.

Taipei é bem moderno, você encontra muita coisa do mundo ocidental por lá, como a famosa franquia de bar americano Hooters, o 7 eleven uma franquia internacional de conveniência (que até ontem eu nunca ouvi falar) mas que parece uma praga de tantas que tem por todo lugar que andei. O shopping Taipei 101 é lindíssimo e tem um observatório de Taiwan no alto de seu prédio (preste atenção nas telas de informações que tem por lá, pois eles avisam a qualidade da visibilidade, para não dar viagem perdida); o engraçado desse shopping é que ele tem vários andares e quanto mais você sobe, mais encontra lojas enormes de grifes como Dior, Chanel e Cartier, e quanto mais desce, as lojas simplificam até chegar no primeiro piso que tem mercadinho e lojas “normais”, proporcionalmente também é a quantidade de pessoas: quanto mais alto, menos gente andando pelo shopping – acho que eles não são tão diferentes de nós, não é mesmo?!

Mercado Noturno
Bolinho frito de batata doce
Em frente ao Taipei 101 tem o Att 4 fun, que parece ser uma loja com muitas lojas dentro...não entendi muito bem, mas acho que podemos definir como um shopping que tem de tudo um pouco. Legal mesmo são os mercados noturnos, tem um monte pela cidade, mas acabei escolhendo o Raohe St. Night Market porque tem o templo da deusa do mar Mazu, o Templo Ciyou. O mercado é bom para comer, tem muita coisa exótica, o máximo que eu tive coragem foi de encarar uns bolinhos fritos de batata doce. Em alguns momentos o cheiro das comidas chega a ser insuportável, parece que tem alguma coisa muito errada acontecendo – segundo um taxista muito simpático, o cheiro supostamente era do Stinky Tofu (tofu fedido), e ele falou que é gostoso, mas muita gente nunca experimenta por causa do cheiro peculiar. Quando voltei para o Brasil, fui pela primeira vez no Mercado do Ver-O-Peso (Belém), e adorei sentir o fedorzinho familiar de nossas feiras – é muito estranho para mim o deles, e acredito que os chineses devem ter a mesma sensação ao visitar os nossos mercados de rua.

No templo da deusa Mazu, tive minha primeira experiência em um templo. Antes, tinham me falado que seria uma das melhores sensações do mundo, que lá transmitia muita tranquilidade e era uma experiência incrível. Não foi. Achei tudo muito lindo e riquíssimo em detalhes, com dragões e incensos, além de muita coisa que eu não pude identificar. O que foi ruim nessa visita, foi que o templo é repleto de vermelho sangue e imagens com expressões furiosas – diferente dos ambientes celestiais das Igrejas Católicas que costumo visitar. Nas Igrejas predomina as imagens piedosas, serenas, e que no máximo estão com rosto expressando sofrimento; possui vitrais, cores claras, douradas, ou um tom mais escuro dependendo do período histórico em que foram levantadas. Nelas me passa sempre um sentimento de calmaria, paz e familiaridade. No templo, tudo era muito forte, o vermelho, o dourado, as imagens. Muita fumaça de incenso, e estava tendo uma cerimônia na hora, com várias pessoas cantando e tocando um instrumento. Para aumentar minha ansiedade, eu tinha um tempo curtíssimo para absorver o máximo de informações (e quantas eram!!) possível. O sentimento de felicidade por estar finalmente conhecendo este lugar, foi um pouco prejudicado pelo medo que senti – semelhante ao que passei quando estava na Feira de Caruaru e vi no setor de venda de ervas e especiarias algumas imagens de diabo e outros símbolos sinistros.

Sobre comida, foi em Taipei que conheci minha comida favorita de toda a viagem: um pãozinho feito no vapor em uma panelinha de bambu. Preferi o sem recheio, mas o branquinho parece ser o mais tradicional, ele é recheado de carne de porco, redondinho e é a comidinha favorita do panda do filme “Kung Fu Panda”. Em geral, enjoei um pouco do cheiro das comidas, são muito fortes e toda lanchonete/restaurante parecem ter o mesmo cheiro. Os temperos são marcantes e há muita mistura de doce com salgado, como quando estava almoçando e um dos molhos era leite condensado!! Essas misturas inesperadas e o tanto de tempero e ingredientes desconhecidos me deixavam um pouco receosa em experimentar comidas que eu não fazia ideia do que eram feitas. Toda a China parece ser o paraíso dos frutos do mar, e as frutas mais comuns são as de clima tropical, como a melancia e o melão.

Trem bala chinês
Fui para a cidade de Taichung na minha primeira viagem de trem bala. Em Taiwan, o trem é bem legal, eles dão água, café e até cookies. Os trens bala da China são diferentes nessa parte do serviço, mas no resto é bem parecido. Ambos são confortáveis e se parecem com um trem normal, só que a viagem é bem rápida, fazendo distâncias de uns 500 km em menos de 2h. Os trens são pontuais e na hora que ele diz que vai chegar no destino, ele chega. É bom ficar esperto para saber quando você vai descer, porque ninguém vai na sua cadeira te avisar, e nem sempre você entende (ou está disponível) os avisos em Inglês, escritos ou falados. A dica é ficar de olho no relógio e quando achar que tá próximo mostrar a passagem para alguém confirmar. Outra coisa, dependendo da hora as viagens são mais longas e eu não entendia o porquê: é que o trem faz paradas em várias cidades e dependendo da hora que você escolher, ele para mais ou menos.

Trem chinês de 2 andares
Nos guias de turismo mais antigos falavam sobre ser complicado comprar passagens de trem chinês, mas não tá mais assim. Tudo pode ser comprado pela internet, e é só pegar a passagem nos guichês das estações. Você também pode trocar logo todas as suas passagens na mesma hora, pra evitar ter que toda vez pegar o ticket (como eu fiz hahaha). Na China, no trecho Guangzhou – Hong Kong, peguei um outro trem, que não é bala, e anda em uma velocidade menor, mas tem dois andares, e cabe muita gente!!Há outros trens até com leitos para viagens maiores pelo país.


Em Taichung foi onde comi meu primeiro almoço chinês, num restaurante tradicional, com direito a mesa que gira e com todos comendo juntos. Foi um verdadeiro banquete a la China, em que o pessoal de uma companhia que visitamos me apresentou diversos pratos tradicionais, incluindo o Pato à Pequim. Arrisquei comer com os “kuàizi” que é como eles chamam os palitinhos, mas acabei ficando mais com o garfo e faca mesmo. Os pratos e copos são bem pequenos: o prato tava mais para um pires e ao pedir uma coca (todo lugar tem coca-cola) para todos tomar, eu esperei uma de 2L, mas foi pedido uma de 600ml!! Bem diferente de nossos hábitos!

Primeira refeição a chinesa


Chá de Taiwan
Antes da refeição tomamos chá – o que me acompanhou sempre pela viagem, desde o avião, toda vez era recebida em algum lugar e durantes as refeições. Acabei aumentando o hábito que eu já tinha de casa. Por lá eles tem o chá preto e o chá verde, no começo estranhei bastante o chá verde, mas acabei me adaptando e continuo tomando bastante, apesar de ainda preferir o sabor do de hortelã.

Durante essas viagens. Não vou poder ajudar meus amigos mochileiros porque não fiquei em nenhum hostel, mas vou passar o nome dos hotéis em que fiquei para quem for por lá tentar fugir das roubadas. Em Taipei fiquei e recomendo o FX Hotel, principalmente pelo melhor café da manhã de toda a viagem.

Voltando ao tópico das compras, aconselho vocês a reservarem um dinheiro para comprar coisas no aeroporto de Taipei, principalmente na área de embarque. Lá tem uma coisa mais bonita que a outra, e os portões de embarque são temáticos: tem o da Hello Kitty, o estilo sala de cinema, o religioso... dá pra ficar um tempão por lá sem enjoar. Inclusive, foi lá que descobri que em Taiwan existem aborígenes, e tem uma loja que vende produtos feitos por eles.

Sobre aquela história de tradicional vs. influência ocidental, em Taiwan não foi diferente com a enxurrada de lojas, restaurantes e marcas estrangeiras lutando por espaço junto com os Templos, mercados e antigos hábitos. O exemplo mais nítido foi também a minha primeira gafe da viagem: estava em um shopping de eletrônicos, que não era tão sofisticado quanto os outros citados aqui, e quando fui ao banheiro, me deparei com um desenho que lembrava um chinelo na porta do toalete. Achei engraçadinho e entrei mesmo assim. Só que lá não tinha vaso sanitário, e sim uma louça no chão, igualzinha ao do desenho na porta. Depois que usei, vi que os toaletes da frente tinham um vaso sanitário desenhado na porta, e foi quando entendi tudo! Metade dos toaletes eram de vasos e a outra metade eram de louça no chão. Nos ambientes mais modernos, não tinham as duas opções, mas em lugares mais populares eles sempre colocavam essa outra opção (muitas vezes era a única) para incluir as chinesas de hábitos mais antigos.

SHANGHAI

Depois de passar um tempo no aeroporto de Hong Kong e já me impressionar com a vista do mar e o tamanho do aeroporto, viajei para Shanghai. O primeiro trecho foi pela Hong Kong Airlines e depois pela Shanghai Airlines. Boas companhias, mas ambos os voos atrasaram bastante, coisa que não aconteceu com as companhias brasileiras, nem com a Emirates.

Pisei na cidade e já notei uma dificuldade maior na comunicação, logo de cara, como os taxistas e a recepção do hotel que não falavam Inglês, apenas palavras soltas. Fiquei no Mercure Shanghai Hongqiao Airport, o hotel é bom e fica de frente para o aeroporto desse bairro (Shanghai tem dois aero), mas a comunicação é seu ponto negativo. Alguns hotéis, como esse, não incluem café da manhã na diária e é comum isso acontecer por lá, então fique ligado, pois é diferente dos hotéis brasileiros!!

Essa cidade foi mais como um ponto de deslocamento para as outras cidades que a ela são próximas, como Yixing e Ningbo, mas ainda deu para conhecer rapidinho a área do The bund, que tem a vista para os famosos prédios modernos iluminados, e também alguns no estilo europeu. Fiquei louca com as lojinhas da Nanjing Road, porque lá tem tudo preparadinho como todo turista quer!! @@

Outro lugar bom para compras em Shanghai foi, assim como em Taipei, o aeroporto cheio de coisas lindas e “a cara” da China! Você deve estar pensando que o aeroporto não deve ser um local recomendável para compras, pelos preços altos, mas se você não está com muito tempo, ou se não pode frequentar muitos locais turísticos, acaba que lá e nas estações de trens se mostram como os melhores lugares para compras, pois eles selecionam os objetos que mais caracterizam a cidade, e com boa qualidade – achar uma loja assim pela cidade, sem ter ideia de onde está ou quais objetos especificamente está procurando, se torna uma tarefa impossível, até mesmo para os próprios chineses conseguirem recomendar: não foi um, nem dois dos meus amigos que não sabiam o conceito de souvenir.

As famosas luzes de Shanghai, desligadas.
Infelizmente, Shanghai não deixou uma primeira impressão muito boa – é muito limitante não conseguir saber mais informações por causa das barreiras linguísticas. Do pouco que pude conhecer, poderia ter aproveitado mais se tivesse em mão algumas informações básicas de funcionamento, tal como horários. Aconselho aos turistas a levarem o máximo de informação que puderem, inclusive alguns endereços em Mandarim, para escapar de situações chatas, principalmente com os famosos taxistas que não sabem Inglês, e que tem um jeitão bem estressado de se expressar; e principalmente para conseguir aproveitar o que a cidade tem de melhor. Só lembrando, não tem acesso fácil ao Google por lá!!

YIXING
Cheia de presentes na estação de trem de Yixing
Adorei conhecer Yixing, foi a menor cidade que conheci e lá a ficha que eu realmente estava na China caiu. Taipei às vezes me confundia e parecia que estava em São Paulo, ou algo parecido, mas desde que cheguei em Shanghai senti o clima mudar e realmente parecer que eu estava na Ásia. Nessas duas cidades, o ar já ficou bem mais poluído e pesado, aí tive que usar uma daquelas máscaras no final da tarde para respirar melhor. Até então, eu via as pessoas andando na rua com a máscara, e principalmente quem estava pilotando moto ou pedalando, e tinha três teorias sobre a explicação de usarem isso: poluição; doença – pegar ou transmitir; ou por frescura mesmo. Bom, a pergunta foi respondida logo logo, pois a combinação de cigarros, fábricas, automóveis, e sei-lá-mais-o-quê deixam o ar bem ruinzinho para se respirar, e tive que usar esse recurso nessas duas cidades, Yixing e Shanghai, durante o fim de tarde e noite.

Nessa cidade tive o meu segundo almoço de negócios chinês e foi ótimo. Já estava mais acostumada com a comida e pude comer mais e melhor, selecionando bem e arriscando pouco. Adorei os pasteizinhos e o macarrão (noddle) deles. Também notei que eles gostam bastante de torta floresta negra e de cheesecake, são fáceis de achar. Como num passe de mágica, comecei a comer com os “kuàizi” como uma quase profissional. É só pegar a manha e se concentrar que se torna simples comer com eles, gostei muito!

Não vá para a China esperando tomar muita coisa gelada. É claro que eles tão se adaptando ao nosso jeito, mas mesmo assim é comum você não achar gelo fácil, e nem as bebidas bem refrigeradas, no entanto eles têm de tudo: yorgut, cerveja, refri, leite, água de côco, suco...mas nem sempre é garantido que você vai tomar geladinho, como preferimos.

Segundo um amigo, Yixing tem a melhor chaleira do mundo, e gente de todo lugar compra os jogos de chá deles. Eu acabei ganhando um jogo dele, com direito a maletinha retrô, direto de um ateliê no qual a dona emite certificado de qualidade (todo em Mandarim ¬¬’) do produto dela. Não podia ter sido melhor. Ah, podia: um outro amigo, em Guangzhou, me deu uma caixa de chá chinês!!Fechou!

Como vocês podem ver, os chineses são muito hospitaleiros, me receberam super bem, levaram para conhecer a cidade, comer, e rolou até presentinhos. Mais importante que isso foi também conversar com eles, trocar histórias, rir bastante, ouvir ensinamentos, descobrir que somos muito mais parecidos do que imaginávamos, como na crença popular (que agora sei que é universal) de que todo pescador é mentiroso, e por aí vai.

Falando sobre a cidade, Yixing é daquelas típicas do interior, cheia de agricultores com os chapeis de bambu em cone, e um monte de plantação de arroz. Está cada vez mais difícil de encontrar vaso sanitário nos banheiros, predominando aquelas louças no chão. O Inglês fica cada vez mais escasso, mas dá para desenrolar com palavras soltas e muita imaginação na hora da mímica ou apontando para as coisas. Encontrei uma senhora agricultora super simpática, e pela primeira vez resolvi tirar o livrinho de Mandarim da bolsa e usá-lo, só que não contava com um detalhe: ela não sabia ler!! Conversa (mímica) vai, conversa vem, ela acabou me mostrando a horta dela e do marido, me deu um monte de tomate e ainda dei uma voltinha na motinha elétrica dela!!Foi demais! Por sorte eu tinha uns cookies na bolsa e pude retribuir um pouco da simpatia dela.

Em Yixing fiquei sabendo um pouco sobre o “Buda Sorridente” que está em todo lugar! Eu adorei a carinha feliz dele, e quando perguntei o que ele fazia, me falaram que ele deixava as pessoas felizes. É verdade! Não descansei enquanto não achei um que me fazia feliz também, e quando voltei para casa, reconheci que o buda que eu tenho desde criança é justamente ele!! Segundo a internet, ele é o Pu-Tai.

Foi interessante aqui o fato de que o estrangeiro se destaca mais do que nas cidades maiores, que já tem um grande fluxo de turistas, como em Taipei, e até mesmo em Shanghai. Aqui as pessoas encaram mais, e me lembrou um pouco de uma situação engraçada, ainda em Taipei, quando entramos em um banco logo que abriu o expediente, para trocar dinheiro, e o pessoal ficou nervoso, encarou bastante e também sorriu muito. Daqui para frente essas situações são bem raras, já que trombamos com turistas de todo os tipos: muçulmanos e indianos com seus trajes típicos, brancos e loiros altos vindos de não-sei-onde, e muitos orientais com pele mais morena, cabelos mais crespos, diferenciando do padrão liso escuro dos cabelos chineses.

Sobre isso, eu não consigo mais achar todo chinês igual. Achei eles com muitas características diferentes, incluindo: comprimento e formato do rosto; dos olhos; uns mais altos, outros mais baixos e até mesmo tons de pele, mais branca ou mais amarelada. Não vi dificuldade em registrar rostos e até reconhecer depois no meio da multidão. É claro que eles não são misturados como nós, por isso a semelhança à primeira vista, mas se olharmos bem, não é tanto assim. Vi que nem todo chinês é magro, a população de gordinhos anda crescendo por aqui, mas ainda podemos considera-los um povo de magrinhos, em geral, pequenos – mas alguns dos meus amigos provaram o contrário e são altos.

NINGBO

Próxima parada: Ningbo!

Ningbo, segundo meus amigos de lá, é dona do maior porto da China, e de onde saíram os primeiros navegadores chineses para conhecerem o mundo! Assim como em Shanghai, eles tem um The bund (cais) com uma linda vista para prédios iluminados. Perto desse cais, no centro da cidade, tem uma série de ruazinhas super colorida e animada, com um barzinho colado no outro. Com karaokê, músicas ao vivo (em Inglês), cervejas do mundo todo – incluindo nossas conhecidas Corona, Budweiser, Heineken.

The bund em Ningbo

Aqui eu consegui melhorar meu Mandarim que consistia em apenas duas palavras: Laowai (gringo, que às vezes pode ser usado em sentido pejorativo) e Nihao (olá). Acrescentando o Kuàizi (palitinhos), agora também sei o Ganbei (tim tim) e Xièxiè (obrigado). O mais importante foi que a essa altura do campeonato, eu finalmente aprendi a realmente usar pelo menos essas, assim saí treinando e logo peguei a prática. É muito divertido falar o idioma local, eles gostam bastante, e olha que eu só ficava no “olá” e “obrigada”, mas já é suficiente para melhorar a comunicação, dava para iniciar e concluir todos os diálogos com duas palavrinhas, só bastando acrescentar algumas palavras-chaves em Inglês pelo meio e voilà, resolvido o problema quando a comunicação apertava. Pena que durou pouco, em Hong Kong e Guangzhou eles falam o cantonês, que é diferente do Mandarim. Fiquei sabendo que eles aprendem o Mandarim nas escolas e sabem falar – além dos dialetos de suas províncias. Posso falar sem medo de ser incompreendida, mas não é a mesma sensação alegre, porque eles sabem, só que não é o idioma principal, aí acabei usando cada vez menos.

Sobre idiomas, tenho duas histórias engraçadas: a primeira é que em território chinês comecei a perceber que sempre que alguém vinha me atender, eles falavam de cara “Hello”, e ficava engraçado quando eu estava em uma fila, como nos aeroportos ou estações de trem, que os atendentes cumprimentavam todos com “Nihao” e na minha vez sempre trocavam para o “Hello”, sem errar nenhuma vez. Acho que eu não consegui me misturar e passar despercebida muito bem! hahaha

Outra foi quando eu estava chegando em Ningbo, ainda no trem e morrendo de sono, aí um homem veio me perguntar se era a estação correta. Ele falou em Inglês comigo, mas por um segundo notei uma palavra familiar quando ele falou com um de seus amigos. Eu fiquei desconfiada que ele tinha falado em Português, mas o sono ainda me nublava o pensamento e desconfiei do que ouvi. Resolvi perguntar se ele falava Português (ainda usando o Inglês), e depois de sua confirmação, sorri e começamos a falar em brasileirês mesmo. É legal ouvir a língua materna no exterior, tão inusitadamente, mas logo tive que me separar do grupo de brasileiros que também estavam por lá à negócios.

Em Dubai, na volta pra casa, já no terminal em que iria pegar o voo pra sampa, fui aos poucos encontrando os brasileiros nas lojinhas, até que na frente do portão de embarque estava lotado de brasileiros, e já começava a saudade de ouvir as línguas estranhas novamente.

Ningbo é uma cidade grande, com muita coisa pra fazer, e por lá não senti o impacto da poluição do ar como nas últimas duas. Não deu para ficar o tempo que eu gostaria, mas o pouco que conheci gostei. Principalmente das amizades que por lá fiz. Foi ruim ter que me despedir.

Comi outro banquete de negócios à moda chinesa com a mesa repleta de tudo um pouco – e já bem mais acostumada aos cheiros, temperos e sabores. Encontrei com a primeira Igreja Católica da viagem, mas infelizmente estava fechada na hora.


Almoço em Ningbo
O Hotel que fiquei aqui, na verdade é um apart-hotel, Ningbo Portman Plaza, com direito a quarto com banheira. Hotel muito agradável e bem recomendado! Este também não tem café incluso na diária (achei difícil encontrar um com), aí é legal olhar o buffet e ver se vale a pena pagar, ou se não fica melhor procurar uma das milhares de Starbucks que têm por lá. O café da manhã chinês não é tão assustador, só que também não é para todos os estômagos. Os hotéis se adaptam e colocam pães, queijos, café, yorgut....mas o típico mesmo são com comidas que eu normalmente reservaria para o almoço como: bacon, arroz, salada, carnes e vários pratos típicos. Para mim fica bem complicado colocar esse peso logo cedo no estômago, mas se a pedida for um café com um croissant, por exemplo, é fácil encontrar uma cafeteria americana nas redondezas para salvar.

Algumas vezes durante à viagem eu tentei assistir à TV chinesa, mas não curti muito a programação local. Tem filmes e telejornais, mas é incômodo ver por muito tempo sem compreender nada. A TV internacional funciona por aqui, assim como em Hong Kong, Taipei, Guangzhou...em Shanghai, que já notei ser mais fechadão, só pega TV local. Em alguns hotéis deu pra ver até mesmo HBO com áudio original e legendas em Mandarim; o que saiu um pouco dos limites foi quando eu estava em Taipei e me deparei com a propaganda da Trivago local, passando várias vezes, tal como no Brasil, é mole?! Na China (exceto Taiwan e Hong Kong) o Google é proibido, como consequência, não funciona Youtube, Gmail e outros serviços deles, além de Facebook, Twitter e Instagram. Em resumo, pega legal o Whatsapp, inclusive para chamada, mas as outras redes sociais deveriam ficar aposentadas – deveriam só, porque na prática a gente instala um VPN que essa galera volta a funcionar todinha de novo, ou é só esperar chegar em Hong Kong que por lá é liberado de novo (Taiwan também).

HONG KONG


Essa foi a cidade que mais me encantou durante toda a viagem. Me apaixonei quando estava no avião, olhei pela janela e vi o mar verde. O aeroporto, enorme e encantador, tem suas paredes de vidro, claro, para que possamos ver os seus arredores: o aeroporto fica na ilha de Lantau, e rodeado pelo mar lindíssimo da China Meridional (que faz parte do Oceano Pacífico).

Aqui, todos os problemas de comunicação ficaram para trás (a não ser nos táxis que continuam difíceis, como nas outras cidades, e muitas vezes dependendo de já termos o endereço em Mandarim), pois Hong Kong foi colonizada pelos ingleses, o que fica marcado logo de cara pelo trânsito, que além de seguir a mão inglesa, tem os carros com o lado do motorista à direita, e os ônibus da cidade são os double-decker buses (ônibus de dois andares) típicos de Londres. Devido ao fluxo de trânsito estar em lados contrários ao do resto do mundo, nas esquinas têm avisos no chão apontando para qual lado o pedestre deve olhar antes de atravessar, em Inglês e provavelmente em cantonês (língua oficial daqui).

Fiquei no hotel Harbour Bay, de quartos pequenininhos, mas muitíssimo bem localizado na incrível área de Tsim Sha Tsui. Lá não tem café da manhã, mas tem muita coisa gostosa pra comer nos agora já familiares 7 eleven, inclusive uma espécie de bolo de rolo (simples ou de caramelo) e pãezinhos e croissants recheados. Assim que entrei no quarto, encontrei um smartphone na mesinha escrito Handy (https://www.handy.travel/) que o hotel fornecia para usarmos à vontade, com direito a chip local, internet free e guia de turismo. Enquanto eu estivesse hospedada no hotel, poderia usar o Handy nas ruas como um mapa e tudo mais.

Hong Kong é composto de uma série de ilhas, e eu gostei muito de ficar nesta, Tsim Sha Tsui, pois além de ser bem movimentada, com muita coisa pra fazer – inclusive um ótimo comércio, ainda tem uma vista incrível para a Ilha de Hong Kong, e foi ela que me fez ficar apaixonada pela cidade.

A primeira vez que vi a baía pela área das estátuas dos artistas (a Avenida das Estrelas está em reforma, mas o trecho das estátuas está aberto) e é lá que está o Bruce Lee em sua famosa pose de Kung Fu. Depois de ver o mar de seu denso verde e sua linda paisagem, continuei rodando pelo bairro e após ver tantas novidades me dei conta de que não recordava a imagem da baía e senti a urgente necessidade de vê-la novamente. Retornei, mas me dirigi a outro ponto de observação: o da Torre do Relógio. Foi lá que está uma das vistas mais bonitas que já vi na vida: o mar em primeiro plano, seguido por uma longa faixa de prédios moderníssimos, tendo como plano de fundo umas montanhas semicobertas por nuvens de chuva, que logo logo iriam cair. De tirar o fôlego.

Pela manhã, depois de me abastecer de informações na recepção do hotel, saí com o Handy na bolsa e um mapa de papel na mão e fui explorar a cidade. Eu não provia de tempo, e Hong Kong tem atrações turísticas que poderiam facilmente preencher um mês e ainda faltar tempo para os passeios. Consegui conhecer três ruas de forte comércio na região de Mong Kok, uma especialista em artigos desportivos, outra de eletrônicos e no meio o ótimo Ladies Market, uma feirinha muito legal. Quem não consegue encontrar tudo o que procura nessas três ruas, pode ainda andar por toda a região do Tsim Sha Tsui e concluir a suas compras – para se ter noção da força do comércio por lá, posso dizer que em pleno domingo às 23h ainda tinha loja aberta!!

Marcas
Sobre preços, muita gente fala que Hong Kong é uma cidade super cara, mas não tive essa impressão. Outros falam que lá é uma região que as taxas de impostos são tão baixas que pode-se considerar até como livre de impostos. Vai do bolso de cada um para saber se vale a pena ou não comprar. Prezei por trazer artigos que eu pudesse identificar a cultura local, pois muitos produtos de marcas internacionais (como um adidas por exemplo), segue o preço brasileiro, inclusive o de eletrônicos.

Templo
Resolvi deixar de lado a maioria dos pontos e passeios turísticos tradicionais, e no puro improviso, de mapa em punho, subi e desci a imensa Nanjing Road (Rd. Nanjing) e pude sentir, pelo menos um pouco, da vibe da cidade. Atravessando o fluxo intenso e o comércio febril, encontrei pessoas de todos os tipos, culturas e nacionalidades (assim como em outras cidades chinesas, porém provavelmente em maior quantidade): desde uma jovem com véu e uma camiseta de banda de rock, até indianas com a marca na testa, anel no nariz e suas ricas saris. Na Nanjing Road encontrei uma Igreja Anglicana, um Templo lá próximo, e na volta uma Mesquita! Não tinha como ser mais plural.
Igreja Anglicana


Os táxis são engraçados na China. Quando estive em São Paulo, já achei os taxistas muito tecnológicos (até demais) com vários celulares ligados e presos no painel do carro, com aplicativos e GPS ligados. Em Taipei, essa quantidade de informação e tecnologia parece dobrar, se é que isso fosse possível. Por lá, além de vários aparelhos voltados para o motorista – e dois quais você não consegue tirar o olho, tem uma tv ligada atrás do encosto do banco do passageiro, passando umas propagandas e programas incompreensíveis. Em Shanghai, o choque: a maioria das frotas dos táxis são de Santana da Volkswagen. Santana!!! Em uma cor sem graça, um verde ou azul água sem cor. E a separação do local do motorista para o do passageiro é feito por uma armação que parece dos carros de corrida Stock Car. Em outras cidades chinesas se assemelham a esse estilo, mas sem essa divisória esquisita. Em Hong Kong, eles usam em sua maioria a frota de Toyotas Comfort!!! Comfort!! Numa cidade em que tinha uma Lamborgini topando na outra, e outras máquinas importadas – na verdade em toda a China, e acabam por usar esses táxis vintages. Até que os de Hong Kong eu gostei bastante, eles eram de um vermelho vivo, e além do que o lado do motorista fica à direita, por causa da tal mão inglesa que reina por lá, trocadilhos à parte.

Hong Kong tem uma rica tradição cinematográfica, e não sei se por vê-la retratada em alguns filmes, mas o tempo todo me vi em um filme de ficção ou aventura durante o tempo em que passei por lá. A atmosfera das ruas, apinhadas de comércio com suas fachadas e placas atrativas parecem típicas dos filmes hollywoodianos quando querem retratar a Ásia. Da vista da baia, me vi em uma refilmagem do King Kong, com suas montanhas sinistras, mar profundo, mas com prédios rasgando a paisagem selvagem (não faz sentido, mas foi o que senti, ué!)

GUANGZHOU

Guangzhou (Guandou), última parada!
Na Beijing Road com meu amigo
Aqui encontrei umas peculiaridades locais na minha breve passagem por ela. Eles também são cantoneses, e é esse o idioma local. Antes mesmo de chegar lá, já fui alertada pelos meus amigos que por ali se comia de tudo! Segundo meu amigo local, os cantoneses podem comer de tudo: “Entre o ar e a terra, comemos tudo que está aí”, me disse ele, mais ou menos assim. Recebi também um alerta triste: Guangzhou não é tão seguro quanto o resto da China, então é bom ficar de olho nos pertences pra não ter nenhuma surpresa de um chinesinho metido a esperto. Fora o assédio de vendedores na rua insistindo terrivelmente para você comprar os produtos deles ou topar uma massagem nos pés, Guangzhou é super legal.

Fiquei no fantástico “Royal Mediterranean Hotel”, que segue o padrão luxuoso chinês, com enormes proporções: o quarto, o lobby, o restaurante etc. No quarto, outra vez tive um encontro marcado com uma gostosa banheira. “Mãe, como faz pra ter uma dessas em casa?”

Por aqui o trânsito é mais bagunçado. Tem bicicletas elétricas cruzando por todos os lados, inclusive andei na carroceria (sim, carroceria!!!) de uma delas. Show! À noite fui na famosa Beijing Road (Rd. Pequim), que conserva as pedras da rodovia original, e tem as magníficas lanternas vermelhas chinesas.

Em Shanghai, a vista dos prédios iluminados no The Bund é meio que um cartão-postal da cidade. No entanto, vi que além de Ningbo também ter um (em menor escala), ao longo do caminho de trem que fiz pela noite, passei por cidades menores que também tinham os seus prédios com luzes fortes e coloridas assim que escurecia. Ao chegar em Guangzhou e caminhar pela Beijing Road, vi a intensa iluminação do local e perguntei a um amigo o porquê dessa fascinação chinesa pelo neon nos prédios e todo esse apelo visual.

O chinês, como se era de esperar, nunca tinha parado pra pensar nesse assunto, e também nunca tinha se dado conta que era tão forte assim a iluminação : para ele, os telões de LED passando imagens nas faixadas dos prédios, todo o neon, as luzes piscando, os letreiros piscando informações, é – pasmem – normal, cotidiano. Bom, para mim não é nem um pouco comum, e sim bem impressionante e diferente das noites brasileiras. Tentamos descobrir um porquê dessa iluminação “cheguei” e meio que fizemos uma teoria de que eles usam as luzes como uma forma de destaque – ora, num país em que as menores cidades tem 3 milhões de habitantes, o destaque se faz necessário para o cotidiano, para o sucesso no negócios etc.

Nessa mesma rua encontrei outro exemplo da dualidade moderno vs. tradicional que tenho encontrado pela China. Ao passar por todos os prédios modernos e seus LED’s havia um prédio ao fundo (iluminadíssimo) com a arquitetura chinesa milenar. Ao me aproximar, encontramos um templo de budas enormes na frente desse prédio. Em plena rua moderna, rodeado de comércios do século XXI, também comporta espaço para um templo de milhares de anos.

Ao todo, a China parece ter essa dualidade em diversos aspectos, no qual o moderno vem representado pela influência ocidental, se infiltrando nas tradições chinesas. A começar pelo governo, antes comunista, mas que há um tempo já abriu as portas para o capitalismo e rapidamente se espalhou (e dominou) conquistando o mundo com seus produtos, mas ao mesmo tempo recebendo o comércio exterior em suas cidades – como vemos pelas ruas espalhadas de lojas com marcas mundias (Nike, Adidas, Apple, LG, Sony); fast-food’s em todos os lugares (KFC, McDonald’s, Burguer King, Starbucks, Subway) e restaurantes de comidas de vários países (ocidentais e orientais); Coca-cola por todo lado, além de outras influências na alimentação tais como a inserção do leite de vaca, queijos, yorgut etc.

Em Taipei e Hong Kong, mais modernos e independentes, encontrei um pôster anunciando o show da cantora Ariana Grande, que está fazendo uma turnê mundial, e que inclui também os territórios chineses, oras! – apesar de que no restante da China, segundo uma amiga de Ningbo, não tem shows desses artistas internacionais, eles não vão para lá. Apesar disso, ano passado um desfile da Chanel foi realizado em Pequim, e em Ningbo vi um pôster imenso do novo filme do Tom Cruise, A Múmia, que na mesma época estreou no Brasil. E agora?! Eles tem que se decidir!
Para se aproximar do mundo ocidental, o chinês teve que se adaptar a vários novos hábitos, a começar pela própria língua, pois o Mandarim e os outros dialetos falados nas cidades e províncias são de extrema dificuldade de compreensão à um ocidental, tanto a parte escrita quanto falada, e por isso o Inglês cada vez mais é inserido na sociedade para poderem receber os turistas e realizar o comércio externo.

Jardim no meio de Hong Kong
No interior é mais comum os prédios de arquitetura tradicional, segundo os meus amigos, e nas cidades maiores já estão bem tomados pelas novas construções, que apesar de muita tecnologia avançada, e formas inovadoras, muito se assemelha aos arranha-céus do mundo ocidental. Apesar disso, os templos e prédios milenares estão inseridos na mesma paisagem, mostrando claramente a mistura dos ambientes.

O povo chinês, se mostrou bastante receptivo, tentando sempre se comunicar, interagindo, agradando, sendo solícitos, desde funcionários até os amigos que fui visitar. Em algumas cidades, o idioma Inglês é mais comum que em outras, mas mesmo sem idioma algum existe comunicação devido ao desejo de ajudar o máximo possível. Aquela imagem de uma China fechada, cheia de segredos e de policiais de cara fechada proibindo tudo foi desmanchada em minha mente. Ainda há enormes diferenças culturais e de hábitos, claro, mas também há semelhanças que acabam por também nos aproximar.

Falam muito sobre a receptividade do brasileiro, somos realmente muito festivos e acolhedores, mas senti o mesmo acolhimento dos chineses, que foram pessoas muito queridas e que do jeitinho deles, mais reservados e contidos, tão bem me receberam.
Hong Kong