quinta-feira, 21 de maio de 2015

Neologismo, Boyhood, A Garota Ideal e outras coisinhas CACs.

Dos meus tempos de estudante da UFPE – entre muitas coisitas, me renderam alguns hábitos peculiares, e um vocabulário mais estranho ainda. Entre eles, o mais marcante ficou essa palavra : CAC.
 
O negócio é o seguinte : CAC é uma sigla para o Centro de Artes e Comunicação, da Univ. Fed. De Pernambuco, que abriga os cursos de Letras, Música, Arquitetura, Cinema, entre outros. O prédio é um ambiente bem diferente, principalmente do qual eu estudava, que era o CIn – Centro de Informática. Lá no CAC, o pessoal é bem mais simplão, sentam pelo chão mesmo, usam roupas diferentes – coloridas, confortáveis - barba grande, cabelão, saias longas bem ripongas[...]. Não que todos que estudam lá são assim, ou que em outras partes da faculdade não tinha gente que seguia o mesmo estilo ; só que pra mim, o pessoal do CAC era quem mais representava aquele estereótipo "largadão" de estudante de federal. Nesse prédio, eu sentia como se pudesse respirar cultura : tinha gente praticando algum instrumento, sempre alguma exposição, feiras de livros e revistas, feirinha de artesanato.
  
No prédio que fica bem em frente, o CFCH - Centro de Filosofia e Ciências Humanas, os seus frequentadores tem um estilo muito parecido, mas como o nome CAC soa melhor, escolhi essa “palavra”; não mais como uma sigla, agora um adjetivo. Não lembro bem como começou, só sei que quando vi não parava de usar isso : chamava de CAC o prédio, os estudantes de lá, as roupas dos alunos, as atitudes...tudo que eu achava que seria “típico” de um estudante de humanas, eu atribuía esse adjetivo.
 
Passada essa breve introdução, vamos a minha definição de CAC.
  
CAC – (cáqui) Algo ou alguém que segue um estilo próprio de se vestir, agir, pensar, e que pode ser relacionado as ciências humanas. Geralmente associado a alguns filmes “viajadões”, indie, que te fazem refletir, sair do senso comum. Pode ser usado para classificar músicas, eventos, shows, vestuários [...]. Uma pessoa bastante voltada para o mundo das artes : sejam elas verbais ou não. Em suma, parece que acabou de sair direto do prédio da faculdade e foi para as ruas.

Amei essa palavrinha, porque ela consegue resumir esse tantão de coisas. Adoro essas intervenções linguísticas, parece que além de facilitar a nossa comunicação, ainda dá um toquezinho de humor. Depois de inventar uma palavra, é só espalhar o significado para quem você convive, e voilà ! Já tem o que dizer naqueles momentos que você não sabe colocar em palavras o que quer expressar: “-Amiga, vamos shopear? Quero ver as novidades.... - Claro!”
 

Neologismos é um fenômeno linguístico que consiste na criação de uma palavra ou expressão nova, ou na atribuição de um novo sentido a uma palavra já existente.” Quem tiver interesse, pode dar uma conferida na obra do grande mestre Guimarães Rosa, mestre das palavras. Infelizmente dei uma pausa na minha leitura de “Grande Sertão: Veredas”, todavia sei que quando acabar, tenho certeza que dá pra escrever muitas crônicas só com as invenções dele nessa obra.

Aproveito pra desejar feliz dia da Língua Nacional pra vocês– 21 de maio – e segue esse link bacana pra quem quiser continuar nesse assunto : http://blog.estantevirtual.com.br/2012/05/21/escrita-a-arte-de-inventar-palavras/
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Voltando para minha ladainha inicial, minha mãe sempre seguiu esse estilo mais cac de ser, e eu achava que estava imune a isso. Aos pouquinhos fui sendo conquistada, e cada vez mais me identificando; agora que tô cursando Letras, aí é que o negócio ficou pior mesmo (ou melhor).

Os filmes indies, além de seu baixo orçamento, têm como características todo um espírito, longe dos blockbusters, e prezando mais pela arte e história a ser contada, a reflexão que esperam provocar, a transmissão de ideias, com suas cenas cheias de significados. Costumo classificar a maioria dos indies, como cacs. Dias desses vi um monte de filme CAC. Na verdade, há uns cinco anos os filmes independentes veem me conquistando – alguns deles já figuram a minha lista de top filmes. Minha mãe, minha cobaia, também entra na onda ; as vezes é uma experiência ótima, outras nem tanto...



O Homem Duplicado” - The Enemy, por exemplo, é tão ruim, que precisa até de vídeo para explicar (é só digitar no google que um dos primeiros resultados é isso). Pra nós (eu e minha fiel companheira de filmes), se o filme precisou de tutorial pra gente poder entender, é porque a incompetência não é do espectador, e sim deles – direção, roteiro,atores...

Uma decepção, principalmente depois de ter visto “Prisioneiros”, um filme excelente do mesmo diretor (e com o mesmo ator). No duplicado, o filme é uma adaptação do livro (de mesmo nome) de Saramago que, infelizmente, tinha nas mãos uma história interessantíssima, mas que pecou em tudo. Uma história inteligente, cheia de metáforas tão complexas, que pra falar a verdade, pouco entendi. Sim, dá para notar as referências as arranhas ao longo do filme, mas entender é que são elas...Talvez posso atribuir o fato de meu não entendimento, a ter dormido o filme inteiro.

Pegando o embalo no filmes de dupla personalidade, fui assistir “O Duplo” - The Double, com o meu nerd preferido – Jesse Eisenberg . Depois do filme anterior, fui esperando o pior deste, mas ele acabou se tornando uma grata surpresa : filme inteligentíssimo, porém acessível – dá pra entender sem precisar uma pós-graduação antes. Ótimas atuações, um suspense altamente intrigante e envolvente. Recomendadíssimo e já na minha lista de leituras – esse aqui é uma adaptação do romance homônimo de Dostoievski. 

Dessa vez queria escrever um post um pouco menor, pra variarmos um pouquinho...já viram que não consegui muito, mas pelo menos vou tentar encurtar fazendo aqui um bate-pronto para recomendar pra vocês os últimos filmes CAC's que eu vi:
  
Mesmo se Nada der certo (Begin Again) – Apesar de ter achado o final um pouco meia-boca, adorei o filme. Leve, descontraído, tem um clima tão gostoso, que te faz querer desesperadamente largar tudo e se tornar músico; não resisti e passei o filme inteiro com meu violão no colo tentando imitar as músicas do filme enquanto sonhava com minha banda imaginária (e que nunca vai existir).
Boyhood – Boyhood é um filme adorável. Engana-se quem pensa que ele se resume ao trabalho de ter levado 12 anos para ser feito. Considerei-o uma, de certa forma, imersão na cultura americana, pois podemos ver através da infância do garoto diversos elementos, sem a usual caricatura que já cansamos de ver. Com seu jeitinho observador/caladão, meio filosófico, meio artístico, não pude deixar de pensar que o menino é muuuito cac (e fofo!). Adorei quando ele começou a se envolver com fotografia.
Birdman – Quando penso em Birdman, uma palavra não sai da minha mente : direção, direção, direção. A história e o elenco estão ótimos, mas é a direção desse filme que torna-o quase uma obrigação, a todos que curtem cinema, em assistir. Com uma técnica revolucionária, o filme se passa praticamente em uma tomada só, como se nada tivesse sido editado ; nenhum corte. Fantástico!
Em busca da perfeição (Whiplash) – Mais um ótimo filme que concorreu ao Oscar deste ano, conta a relação, um tanto caótica, entre um baterista estudante e o seu professor. Filme surpreendente, que te tira um pouco da zona de conforto.
A Garota Ideal Pra quem ficou todo animadinho quando leu no título do post , sinto desapontar, mas é só a tradução meio feinha do título do filme “Lars and the real girl”. Vale a pena assistir, é um filme com um roteiro altamente original, muito estranho, fofo, e cômico, por quê não?! É difícil explicar porque ele é bom, só vocês vendo mesmo...
Tenho que encerrar por aqui...há algum tempo assisto filmes assim, portanto a lista é grande demais. Até a próxima, pessoal!