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| Olinda, com Recife ao fundo - 2015 |
Ás vezes emperramos em um texto de forma impressionante. Fiquei tão ansiosa em contar sobre minha última viagem, que as indas e vindas nesse texto quase me impediram por completo de um dia publicá-lo. Felizmente e finalmente, hoje ele sai!!
O tal texto, que tanto vos falo (e de onde falo) conta um pouquinho da viagem que fiz com minhas amigas em dezembro do ano passado. Dessa vez, mudei um pouco minhas andanças solitárias e fui com elas, que iam pela primeira vez para a (minha) velha e conhecida Recife – PE. Com a nobre missão de apresentarmos um trabalho acadêmico (tá, parei), passamos seis dias desvendando e (re) desvendando essa cidade pernambucana.
PREPARATIVOS
Como vocês já devem imaginar, Recife é uma grande cidade turística e, para alívio dos turistas, oferece boas informações para os seus visitantes. Como não dá para citar aqui tudo o que tem pra fazer por lá, recomendo vocês a buscarem os pontos que mais interessam antes, e assim que chegarem lá, irem a um Centro de Atendimento ao Turista: tem em vários pontos da cidade, mas é melhor garantir logo uns panfletos e mapas no que fica no aeroporto mesmo.
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| Feira da Sulanca, Caruaru, 2016. |
Dependendo de suas preferências de passeios, é bom conferir o que tem pra fazer na capital e no interior: Recife e Olinda são coladas, assim como as praias do Litoral Sul (que incluem Porto de Galinhas); o interior se divide em Zona da Mata, Agreste e Sertão com diversas opções de passeios, como as rotas de engenhos, de artesanato, etc. Na Páscoa, é legal visitar o espetáculo da Paixão de Cristo na cidade de Nova Jerusalém; no São João (que dura o mês de junho todo), as principais festas são na cidade de Caruaru, e lá você pode ainda conhecer suas grandes feiras. Minhas preferências são pelos produtos artesanais (enfeites, brinquedos) e os acessórios de couro (bolsa, sandália), mas o que movimenta mesmo a economia da cidade são as roupas vendidas a preço de banana na Feira da Sulanca (apenas domingo e segunda) e em outras menores ao longo da semana – grande parte das roupas são produzidas na região, que tem um forte polo têxtil. Na estrada, gosto de comer no Rei das Coxinhas, em Gravatá, e no Norte Bolos, na cidade de Bezerros. Imperdíveis.
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| Calçadão da praia de Boa Viagem |
Do clima, vale notar que para quem quer praia, é bom evitar o período de outono-inverno (mais ou menos de junho a setembro), porque chove, o mar fica mais escuro, e o passeio perde muito a graça. Nessa época, é legal aproveitar o interior do estado, porque a temperatura fica mais baixa, principalmente em cidades como Triunfo, Caruaru e Garanhuns, essa última inclusive, sedia um famoso festival de inverno em julho. No verão, a recomendação se inverte, pois, essas cidades ficam quentes e secas, enquanto que Recife e Olinda são as melhores pedidas, principalmente na época carnavalesca – que já começa depois do Ano Novo.
NOSSA VIAGEM
Saindo do aeroporto, às 5h da manhã, nos deparamos com uma cidade já em movimento e o sol alto no céu (4 e pouca começa a amanhecer). Recife já se mostrava preguiçosamente para nós e a única coisa que pude pensar foi: “Estava com saudades!”.
Pagando de nativa, saí como guia do nosso intrépido grupinho. A praia de Boa Viagem foi a primeira parada, com direito a uma caminhadinha e água de côco no lindo calçadão. Ao contrário do que muita gente fala, pode sim tomar banho nessa praia. A história dos tubarões é verdadeira: reza a lenda que, após a construção do Porto de Suape, os tubarões tiveram o seu habitat natural prejudicado e acabaram por se aproximar da costa e, no caso, dessa praia. No entanto, seguindo algumas regrinhas de convivência, cabe tubarão e todo mundo lá dentro. A praia, em vários trechos, tem uma barreira de arrecifes (daí o nome da cidade) que ajudam a separar o bicho homem do bicho tubas. Só que não pode passar dessa barreira sob nenhuma hipótese, e quando o mar está enchendo ou já cheio, há a possibilidade dos tubarões passarem por cima delas, então tem que ficar no rasinho. Parece complicado, mas não é. É só procurar sempre ficar nas partes rasas, e de preferência escolher o trecho de praia entre a
Padaria de Boa Viagem e o
Hotel Golden Tulip, pois é um onde se formam as melhores piscinas naturais.
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| "A" praia |
Os shoppings
Para quem gosta de shopping center, está indo para o lugar certo. Ainda não encontrei um shopping melhor do que qualquer um desses dois que vou falar agora. Os principais shoppings da cidade são o
Shopping Center Recife e o
Rio Mar. O primeiro é um pouco melhor para as compras, porque é “menor” e tem grandes lojas, tal como a americana
Forever 21. O Rio Mar é o mais novo e o maior, por isso acaba sendo uma ótima pedida para passear e admirar seu design, principalmente o lindo terraço com vista para o Recife Antigo – também é onde se encontra algumas grifes tais como
Valentino e
Burberry, além da
Livraria Cultura e a sorveteria
Freddo. Como vou ao shopping Recife mesmo antes de saber andar, o passeio nele acaba sendo menos sobre consumo e mais afetivo do que qualquer outra coisa.Meu preferido, sem dúvidas.
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| Eu, vó e vô no reflexo do shop. Rio Mar, com Recife ao fundo. |
SUPER TOUR EXPRESS
Como tínhamos muito pouco tempo para conhecer a cidade, fizemos um tour compacto pelo centro. Minhas amigas, coitadas, estavam com a pior guia turística do mundo! Porque ao mesmo tempo em que eu era guia, eu também era uma turista saudosista, e acabei levando elas para lá, sem as pompas de um passeio turístico, e sim seguindo os passos dos locais (ou os meus antigos passos): sempre na pressa nervosa dessa cidade grande, saltando por entre estações de metrôs, ônibus, integrações, calçadas e atravessando ruas correndo – as pessoas com essa mania de querer ganhar tempo, só não sabemos para o quê mesmo!
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| Fonte na pça. Maciel Pinheiro - Foto by: Nycacia Delmondes |
Começando pelo centro comercial, não consigo descrever a sensação boa de andar por essas ruas tão tumultuadas, sujas e fedidas. Os prédios antigos, já descascados, para mim, montam um cenário tão bonito, que fica difícil explicar. Andei várias vezes por essas ruas no tempo em que morei na cidade, muito para resolver problemas, mas outras tantas para passear, ou brincar carnaval. Minha mãe, recifense, estudou em escolas por lá e sempre contou histórias de idas ao
Cinema São Luís, das ruas, dos passeios e compras nas lojas – e acabei me apropriando dessas memórias e também me identificando com o lugar. Tive minhas próprias lembranças quando passeava por entre aquelas ruas, acumulando boas memórias de banhos de chuva, sessões de cinema, compra de filmes e jogos piratas (opa!), as esperas pelos ônibus ou metrôs, conhecendo praças e prédios históricos, ou comendo um cachorro-quente na conveniência de posto. Falando bem a verdade, eu nasci, mais precisamente, no
Hospital do Exército, na
Rua do Hospício, bairro da Boa Vista – mais centrão do que isso, impossível. Será que vem daí esse amor todo?!
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| Mapinha |
Em nossa visita, conseguimos percorrer as principais ruas do centro comercial e histórico do Recife. Prepare as pernas para andar muito! Primeiro, saindo da estação central do metrô, exercitamos os quadris desviando de uma verdadeira muvuca de pessoas e vendedores ambulantes. Passamos pela antiga
Estação Central de trem, que foi transformada em museu (visita legal) e logo em frente já começamos a ver as estátuas que fazem parte do
Circuito da Poesia: essa primeira é a de Luiz Gonzaga.
Em seguida fica a
Casa da Cultura, que fica na antiga prisão da cidade. Muito bom para fazer compras de coisas regionais. O prédio conserva ainda a estrutura da cadeia, onde cada cela é uma lojinha – e apenas uma das celas ficou preservada.
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| Esq. pra dir. Nyc, Paulina e eu, na Imperatriz |
Recife, conhecida como
Veneza brasileira, tem seu apelido por causa do centro da cidade, que parece uma ilha, ligado por inúmeras pontes (se não me engano, sete), muitas ainda construídas durante o governo holandês. A primeira que atravessamos, e minha preferida, é a
ponte da Boa Vista. Dessa ponte feita de ferro podemos ver um pouco do
mangue, tão característico de Recife, depois atravessamos a famosa
Rua da Aurora e saímos direto na
Rua da Imperatriz. Essa última, uma rua de comércio que não deixa vez para carros, abriga a ótima
Livraria da Imperatriz (que me salvou duas vezes esse ano, quando procurei livros de Milton Hatoum e de Jorge Amado, ouviu essa
Saraiva e
Cultura?!) e a
Padaria Imperatriz – imperdível comer a sua fatia de pizza de mussarela. Ao final da rua, na
Praça Maciel Pinheiro, tem a estátua da Clarice Lispector – pena que essa região está muito descuidada, mas ainda valeu a pena lutar com mil pombos para conseguir tirar uma foto com ela.
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| Estátua de Clarice, em frente a sua antiga casa - Foto by: Nycacia Delmondes |
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| Liv. Imperatriz e eu <3. Foto by: Nycacia Delmondes |
Na
Rua da Aurora, uma das mais famosas da cidade, segue em funcionamento o clássico
Cinema São Luís; tem uma estátua do caranguejo gigante – evocando o movimento
Manguebeat e, também tem o
Museu de Arte Moderna – que eu nunca havia visitado, e além de ser legal, é gratuito. É bom conhecer nessa região as Igrejas barrocas, especialmente a
Capela Dourada, o
Mercado de São José e o
Teatro de Santa Isabel, que segue funcionando. Algumas pontes depois, já no Bairro do Recife, destaco a
Igreja Madre de Deus e o seu antigo convento, que hoje é o
Shopping Paço Alfândega – que além de bonito, tem o
Café São Braz, tradicional da cidade e no seu último andar, um terraço com uma linda vista do rio e do mar. Ao lado, tem uma
Livraria Cultura, que também vale a visita.
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| Science, Chico. |
A
Rua da Moeda é um dos pontos principais do cenário alternativo recifense – boa para visitar os seus barzinhos durante a noite, e principalmente no carnaval. Aqui encontra-se a estátua do Chico Science, representando bem a cara da rua. Encerrando o passeio no
Marco Zero, temos ainda o novo
Cais de Santa Rita (parecido com as
docas de Belém) com ótimos bares e o
Centro de Artesanato. Essa região fica bem legal nos finais de semana, principalmente mais próximo do carnaval, quando se tem vários ensaios de maracatu por essas ruas e aos poucos começam as prévias de carnaval. Acredite quando eu falo que esses lugares citados aqui, não formam nem um terço do que se tem para visitar, considerando só o centro da cidade!
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| Fotos by: Nycacia Delmondes |
Guiar alguém numa cidade na qual você não mora, ou morou pouco é algo muito curioso e engraçado. Tirando as coisas novas que abriram e você não sabe, têm também alguns lugares importantes, que você já visitou tanto, que aos poucos vai perdendo o interesse e não quer mais ir. Outro ponto é quando você reconhece um prédio, sabe que ali têm mil histórias, mas não se lembra de nenhuma para contar na hora – muitas vezes não lembra nem o nome dele: “Então é isso gente, aquele é um prédio muito fodão mesmo, mas só olhem de fora e não me façam perguntas! ”. E dirigir então?! Recife foi onde tirei minha habilitação e onde melhor já dirigi, mas é frustrante pegar o volante, saber todos os caminhos e de repente, confundir as entradas, não lembrar o nome das ruas, nem como chegar nelas, fora as constantes modificações no trânsito e uma série de pequenas chatices. Só que isso é apenas no impacto inicial! Logo logo, já estou em forma novamente, com a mão sentada na buzina, costurando os carros e xingando todo mundo, como uma boa recifense.
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| "Então gente, ali é uma ponte." |
Em contrapartida, quando estamos acompanhadas por novos visitantes, também é uma oportunidade de rever o que mais gostamos, relembrarmos as histórias e descobrirmos de novo o porquê de amarmos tanto aquilo tudo. Apresentamos tudo com orgulho, que só aumenta quando vemos o outro lentamente, começando a se apaixonar, assim como foi com você um dia.
Sobre Olinda, só tenho uma dica: vá para a
Cidade Alta – o centro histórico – e deixe acontecer naturalmente.
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De volta a Boa Viagem, separe uma noite para conhecer a
Pracinha de Boa Viagem, tanto para comer (pastel do China – a maior fila da feira; tapioca redonda; queijo assado, ou até mesmo acarajé) quanto para comprar tudo o que você imaginar em brincos, colares, pulseiras, bolsas e artesanatos.
Falando em noite, chega a ser cansativo só de pensar em citar todos os artistas bons que tem por lá, os bares e restaurantes – porque em Recife, isso é levado muito a sério: poucos bares ficam abertos por muito tempo, a população é muito exigente e enjoa rapidamente dos lugares, o que faz os bares se dedicarem muito, desde a estética de seus drinks, pratos e da própria decoração, como até mesmo dos banheiros. Dos cantores que tocam nos barzinhos, recomendo dois: a dupla sertaneja
Felipe & Gabriel, que não falo aqui porque o Felipe é meu primo, mas sim pelo ótimo show para quem quer dançar e se divertir muito; o outro é a banda de pop e rock
Papaninfa, que tem como cantor o Rafael Furtado, que já participou do
The Voice, e é simplesmente incrível.
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| Paulina, Nyc, eu e Laura - a recifense (e chef) que sabe fazer os melhores pedidos! |
Para conhecer um pouco sobre essa cidade, sem sair de casa, vale assistir aos filmes e documentários feitos por lá. Recife tem uma ótima produção cinematográfica, inclusive tem o curso de Cinema na UFPE (um dos poucos no Brasil). Conta com exemplos como:
Lisbela e o Prisioneiro, Aquarius, Que horas ela volta?, Boi Neon, O som ao redor, A Febre do Rato, Amarelo Manga, a ótima série
Amores Roubados etc. Recomendo os documentários que assisti no youtube mesmo (exceto o último):
Um lugar ao sol (sobre os moradores de cobertura);
Recife Frio (curta de ficção e humor);
Guia prático, histórico e sentimental da cidade do Recife (baseado no livro de Gilberto Freyre) e o
Rio doce CDU, que mostra uma nova perspectiva da cidade, incluindo aí a periferia, através de uma das mais longas linha de ônibus da cidade.
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| Escrevendo no aeroporto. Flagra by: Nycacia Delmondes |
FAMÍLIA
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| Foto esq. Duda e eu. Foto dir. Sophia, Bia, Duda, Laura e yo. |
Como a metade (materna) da minha família é de Recife, a cidade torna-se familiar em todos os sentidos da palavra. Viajar para Recife, significa voltar para a casa da vovó, rever primas, tias e mais uma galera – afinal, a família é enorme! Em especial, vovó, vovô e minhas tias-primas, que me acompanham nessas aventuras, e que tornam cada vez mais difícil a saída da cidade, e cada vez mais feliz, o meu retorno.
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| Sente o cheiro do pão! - Foto by: Nycacia Delmondes |
Muitos lugares evocam as lembranças. E às vezes, elas aparecem através dos cheiros, alguns até mesmo peculiares! Recife é conhecido pela sua fedentina (“Num dia de sol Recife acordou. Com a mesma fedentina do dia anterior” – A cidade, Science C.), que é a mais pura verdade: o cheiro do mangue, do canal que corta a cidade, as ruas sujas do centro. Mas quem sou eu para reclamar, pois logo quando chego, inspiro bem forte e se Recife não estiver fedendo, algo está errado.
Ela também tem cheiros maravilhosos, como o do sal da praia no calçadão de Boa Viagem; o cheiro único do cinema UCI do shopping Recife (coração das minhas férias escolares); o perfume da vovó, ou o da comida dela e da tia Laura. O queijo coalho assado da praia, o cheiro de balinhas do
Planeta Bombom...
Recife e Olinda são cidades históricas, artísticas e lindíssimas. Onde o velho, o moderno e a natureza se encontram. Nem sempre em harmonia, mas sempre com muita paixão. Ás vezes penso em um dia faltar às minhas visitas anuais, e conhecer novos lugares – mas não dá. Entre tapas e beijos, o amor fala mais alto e é a saudade quem sempre me traz pelo braço.
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| Família |
Putz, tive uma mistura de sentimentos conforme fui lendo seu texto Camila, mas posso dizer que no final ficaram os de saudade e carinho! Parabéns cara por mais esse texto lindo.
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