quarta-feira, 4 de março de 2015

Caminhos da Índia




   Esses dias li um livro tão incrível , que só o que pensava enquanto lia era : tenho que escrever sobre ele! Mas escrever o que e como, cara-pálida?! Acabei de escrever uma resenha na faculdade, então quero dar um tempinho - digamos assim - antes de escrever outra; aí meu impulso foi o de escrever uma crítica. Mas, o que eu lá sei sobre críticas?

    Minha visão de críticas não é muito boa. Eu geralmente leio críticas (de críticos diferentes) quando estou em dúvida sobre um filme e ás vezes leio até depois que assisto. Costumo muito olhar as do site omelete, mas ainda não entendi o motivo de continuar fazendo isso; toda vez passo raiva com o que leio, pois é sempre as mesmas opiniões ridículas - eles gostam de um determinado tipo de filme e sempre vão fazer criticas boas para aquele estilo – mesmo o filme sendo um lixo; e quando não gostam, eu posso amar o filme, mas vai tá lá escrito na crítica coisas tão absurdas que nem parece que vimos o mesmo filme. Já ouvi falar em algum lugar que esses autores na verdade, parecem querer mais status que o filme, e acham que jogar uma palavrinha complexa aqui e ali no texto e falar mais mal do que bem é sinônimo de um trabalho bem feito. Bom, eu continuo procurando, um dia encontro algum sensato que consiga dar uma opinião útil para mim.

    Voltando ao objetivo inicial, é melhor eu sair escrevendo sem dar nome aos bois mesmo...

   Eu estava fazendo uma pesquisa sobre a cultura indiana - tô com essa agora, primeiro foi com a árabe (músicas e literatura), agora foquei as buscas em filmes indianos e literatura. Eu queria entender um pouco sobre a cultura, costumes, os deuses, aí acabei encontrando um site que falava um pouco sobre isso e no final recomendava vários livros, entre eles o “Em busca de um final feliz”. Como eu estava, há um tempo, atrás de um livro um pouco mais diferente do que os que eu geralmente leio, a sinopse deste me chamou a atenção : falava que era um relato de uma americana que viveu por três anos em uma favela de Mumbai. Não ia ser tão mágico quanto o livro indiano que eu esperava ler, mas com ele eu com certeza iria conhecer, pelo menos um pouco, da cultura indiana - então me pareceu perfeito comprá-lo.
  
   Apesar do título ser piegas e pouco atrativo – só me parece aqueles livros de autoajuda – ele está em sintonia com a história, que a grosso modo não passa disso : uma luta diária por sobrevivência, sem deixar apagar a esperança de um final feliz.
               
   Pelo título não podemos culpar a autora. Ela, Katharine Boo, chamou sua obra de Behind the Beautiful Forevers, que significa em português “Por trás dos belos para sempres”. Mais legal, não?!

   Achei interessante o fato de citarem bastante os personagens Sunil e Manju (no prefácio do Zeca Camargo que vem no livro, e também espalhados pela internet) e deixarem um pouco de lado o Abdul. Neste livro só há personagens fortes e inesquecíveis, mas se eu tiver que citar só uma pessoa deste livro, eu não penso duas vezes, pra mim o Abdul é o mais importante. Ele inicia e encerra a história, e apesar de ter um carisma muito menor que os outros, fiquei muito tocada com a sua força e muito preocupada com o seu destino – todos são batalhadores, disso não tenho dúvidas, mas a reviravolta que ocorre em sua vida é tão injusta e cruel que me faz torcer ainda mais por ele e desejar que tudo fosse diferente. 

28 de Fevereiro de 2012 - Manju (esq) e Asha

    Andei chamando eles de personagens, mas na realidade isso eles não são. Este livro é um relato real, da vida de pessoas reais. Como a própria autora fala ao final do livro, ela morou na favela de Annawadi, ao lado do Aeroporto Internacional de Mumbai - Índia, por três anos, e a partir daí ela conta, sendo o mais fiel possível a realidade, sem alterar nada – até o nome completo das pessoas são verdadeiros.
              
   Com o livro em mãos, passei a ler no meio do caos que tava minha vida pessoal esses dias – estudando e trabalhando ao mesmo tempo. Mas foi graças a esse livro que posso dizer que chamar qualquer fase da minha vida de caótica é um completo absurdo e exagero. Durante a leitura li tanta coisa louca, que meu único consolo era pensar que era impossível que isso fosse vida real, “é claro que a autora inventou uma coisa ou outra” – mas vou logo alertando vocês....é verdade, sim! Ela conta no final como foi a produção do livro, e por mais loucas que sejam as histórias que a Boo nos vai contando, tudo não passa de realidade. Talvez por ter me iludido, ou graças às habilidades da escritora em passar a história, eu não achei o livro tão pesado assim, e consegui ler numa boa, mesmo correndo o dia todo de lá pra cá.

    Pude tirar muitas lições. O povo é trabalhador demais, e tenta por tudo não perder as esperanças – porque quando ela vai embora, aí sim é literalmente o fim. A corrupção é gritante ao longo do livro, e acabei inevitavelmente lembrando muito do nosso amado Brasil. Acredite, lá o negócio é tão ruim, que chega a ser piada comparar com aqui. Essas situações de injustiça e corrupção, como em qualquer lugar do mundo, é sempre culpa das próprias pessoas que agem errado no seu cotidiano e o grau dos problemas só vai aumentando de acordo com o nível de influência/poder do cidadão....enfim, isso é pano para outra manga.
               
   Não quero falar demais para não estragar pra ninguém que for ler também, porém posso adiantar uma coisa que foi gritante para mim nessa leitura : o poder das mulheres desse livro. Alguns personagens fortes são homens, mas na verdade eles são ainda meninos, jovens construindo a vida; só que entre os adultos, quem manda mesmo são as mulheres – tanto criando (vide Fátima) quanto resolvendo os problemas, são elas quem realmente mandam em suas casas e lutam bravamente pela sobrevivência delas e de suas famílias. Os maridos sempre têm alguns defeitos, dificultando ainda mais a vida dessas mulheres – o que evidencia ainda mais o problema dos casamentos arranjados, tradição por lá, que graças a Deus não temos aqui (eu espero!!kkk)

    Tenho um problema sério com finais pela metade. Gosto demais de finais que concluem a história, e gosto ainda mais quando são felizes. Ultimamente, de tanto ver esses finais incompletos, tô começando a me acostumar com eles. Dessa vez, confesso que foi burrice minha, ou até mesmo ingenuidade (acho que tentei pensar até o último minuto que tudo não se passava de ficção) acreditar que o final desse livro seria certinho, contando tudo que ia acontecer. A mulher passou três anos na favela, viu um monte de coisas, e outras tantas contaram pra ela o que já tinha acontecido; seria impossível ela contar um final – a não ser que caísse uma bomba, ou uma invasão alien acabasse com tudo, fazendo a história ter um fim. Portanto, fica tudo meio que suspenso, como se ela na verdade esperasse que se a gente quiser saber mais, fosse até lá também para conversar com eles e saber como é que estão as suas vidas agora. Olha que deu vontade de fazer isso, viu?! Ainda não tive tempo de fazer uma pesquisa apurada na internet, mas deve ter um monte de novidades sobre o pessoal de Annawadi lá; o que me deixa bastante conformada sobre esse final do livro – e acho que pela primeira vez, não fiquei nem de longe decepcionada ao ler as últimas linhas.

    Ao invés de decepção, o livro me deixou foi com muitas saudades. Saudades de um povo que eu nem conheço, e que muito menos sabem quem eu sou – pelo que eu li acho que nem passam muito tempo preocupados com os leitores enxeridos das suas vidas – eles não tem tempo pra isso. Comecei a ler querendo saber mais, e vejo que continuei sem saber de nada da Índia. Lá é um mundo muito misterioso e diferente da minha realidade, do que eu conheço; posso até ler mais um pouco, assistir um filminho e pá, mas nada vai substituir uma viagem para lá. Aí sim, vou desvendar mesmo o que é a Índia.

Annawadi

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