quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Ai que saudade...

     

      Esses dias resolvi escrever sobre saudade. Só que já comecei enfrentando problemas desde quando pensava em como iniciaria o meu texto. Bem que deveria ter imaginado que qualquer coisa relacionada a um sentimento tão complexo como este resultaria em uma tarefa nada fácil.

Primeiro problema: A palavra.

       Saudade, segundo o dicionário online Dicio: “s.f. Sentimento nostálgico provocado pela distância de (algo ou alguém), pela ausência de uma pessoa, coisa e local, ou ocasionado pela vontade de reviver experiências, situações ou momentos já passados”, é derivada do latim (solitas, solitatis). Sempre ouvi falar que ela é exclusiva da língua portuguesa, porém dando uma googlada, parece que ela não é tão exclusiva assim:
“Desde sempre nos falaram que "saudade" é uma palavra essencialmente do português e que não existe tradução literal em outras línguas. Entretanto, isso não é totalmente verdade. Outros idiomas possuem sim equivalentes da palavra "saudade", porém que nem sempre podem ser aplicados nas frases como nós brasileiros fazemos”.  http://www.megacurioso.com.br/comunicacao/39467-17-palavras-de-outros-idiomas-que-nao-possuem-traducoes-literais.htm
“[...] Mas todas essas expressões estrangeiras não definem o sentimento luso-brasileiro de saudade. São apenas tentativas de determinar esse sentimento que sente os povos de cultura portuguesa. Assim, essa palavra saudade não é apenas um obstáculo ou uma incompatibilidade da linguagem, mas é principalmente uma característica cultural daqueles que falam a língua portuguesa.” http://agazetadoacre.com/noticias/o-mito-da-palavra-saudade/
 Segundo problema: O significado.

Ok, resolvido os problemas de tradução (literalmente), como eu iria descrever o que diabos é saudade?

        Um dia desses, eu estava fazendo uma pesquisa sobre literatura brasileira na internet, e resolvi buscar pelo Manoel Bandeira. Por sorte, encontrei este artigo que faz uma análise de dois poemas dele – “Evocação do Recife” e “Recife”, relacionando-os com a saudade. O autor antes de analisar as poesias, faz um breve comentário/comparação entre a saudade portuguesa e a brasileira.

        Recomendo a leitura – apesar de ser um texto acadêmico, é de fácil leitura e bem rico. Para não carregar demais este texto, vou comentar algumas partes e deixar para vocês lerem o resto direto no link -> http://www.revistas.usp.br/crioula/article/view/64225

       Nesse texto, o autor fala da saudade portuguesa, que “dá uma estranha melancolia sem tragédia que é seu verdadeiro conteúdo cultural, e faz dela o brasão da sensibilidade portuguesa”. Para os patrícios, a saudade é tão triste que provoca dor, enquanto que para os brasileiros a saudade é mais alegre que triste. E é nesse contexto que o autor vai apresentar a análise dos dois poemas, contrastando essas diversas saudades e explicando (por sinal bem melhor do que eu) todos esses conceitos.

Só para dar um gostinho:
Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa de meu avô.”
Evocação do Recife – Manuel Bandeira.

       Eu já havia notado essa tendência dos portugueses (oi vó!), que adoram fazer da vida um fado; e depois da leitura do (ótimo!) “O cortiço" de Aluísio Azevedo, pude enxergar ainda melhor. Para quem ainda não leu (leia!), neste livro há um grande mix vivendo no cortiço. Jerônimo, Piedade de Jesus e sua filhinha, são portugueses, e pelos seguintes parágrafos que o autor apresenta, dá para ilustrar bem o que foi falado no artigo:
“Depois, até às horas de dormir, que nunca passavam das nove, ele tomava a sua guitarra e ia para defronte da porta, junto com a mulher, dedilhar os fados da sua terra. Era nesses momentos que dava plena expansão às saudades da pátria, com aquelas cantigas melancólicas em que a sua alma de desterrado voava das zonas abrasadas da América para as aldeias tristes da sua infância.

E o canto daquela guitarra estrangeira era um lamento choroso e dolorido, eram vozes magoadas, mais tristes do que uma oração em alto-mar, quando a tempestade agita as negras asas homicidas, e as gaivotas doidejam assanhadas, cortando a treva com os seus gemidos pressagos, tontas como se estivessem fechadas dentro de uma abóbada de chumbo.”
[...]
“Nisto começou a gemer à porta do 35 uma guitarra; era de Jerônimo. Depois da ruidosa alegria e do bom humor, em que palpitara àquela tarde toda a república do cortiço, ela parecia ainda mais triste e mais saudosa do que nunca:
‘Minha vida tem desgostos,
Que só eu sei compreender...
Quando me lembro da terra
Parece que vou morrer...’

E, com o exemplo da primeira, novas guitarras foram acordando. E, por fim, a monótona cantiga dos portugueses enchia de uma alma desconsolada o vasto arraial da estalagem, contrastando com a barulhenta alacridade que vinha lá de cima, do sobrado do Miranda.
‘Terra minha, que te adoro,
Quando é que eu te torno a ver?
Leva-me deste desterro;
Basta já de padecer.’

Abatidos pelo fadinho harmonioso e nostálgico dos desterrados, iam todos, até mesmo os brasileiros, se concentrando e caindo em tristeza; mas, de repente, o cavaquinho do Porfiro, acompanhado pelo violão do Firmo, romperam vibrantemente com um chorado baiano. Nada mais que os primeiros acordes da música crioula para que o sangue de toda aquela gente despertasse logo, como se alguém lhe fustigasse o corpo com urtigas bravas. E seguiram-se outras notas, e outras, cada vez mais ardentes e mais delirantes. Já não eram dois instrumentos que soavam, eram lúbricos gemidos e suspiros soltos em torrente, a correrem serpenteando, como cobras numa floresta incendiada; eram ais convulsos, chorados em frenesi de amor; música feita de beijos e soluços gostosos; carícia de fera, carícia de doer, fazendo estalar de gozo”.
Parece que somos um pouquinhos diferentes da terrinha não é mesmo, ó pois?!

      Saudade eu sinto o tempo todo, praticamente de tudo. Família, amor, amigos, passado, estação do ano, lugar, música, livro, evento... ufa! Sinto até saudade de um doce bem gostoso assim que termino de comê-lo, então daí dá pra imaginar...

      Aproveitando essa época de carnaval, resolvi focar na minha saudade que está mais latente por esses dias, que é estar em Recife e Olinda agora. Com a vida adulta jogando umas verdades na minha cara, vi que mais uma vez não poderia ir para lá ... só que vai chegando pertinho do dia do galo e a saudade vai apertando um pouco mais no coração.

      Assumindo a minha incapacidade de escrever sobre saudade, resolvi deixar outra arte falar. Ou melhor, cantar. Se você parar para pensar, são infinitas as músicas que choram, digo, cantam a saudade. Tem a Lembrança De Um Beijo – Santanna; Pedaço de Mim – Chico Buarque; Noites Brasileiras – Luiz Gonzaga, dentre milhares.
      Separei alguns exemplos relacionados à temática de hoje. E já que é para massacrar este coração que vos fala, vamos começar por um frevo – cantado por meu amigo Luan que gentilmente cedeu o vídeo pra este post. Valeu, man!

Frevo n.° 2 do Recife 
Voltei, Recife


Evocação nº 1


Olinda: Teu nome é irreverência
“Olinda, quero cantar
A ti, esta canção  

Teus coqueirais, o teu sol, o teu mar
Faz vibrar meu coração 

De amor a sonhar, minha olinda sem igual
Salve o teu carnaval”
– Hino do Elefante de Olinda 
Foto: Jan Ribeiro/Pref.Olinda – Bloco Eu acho é pouco

Recife: Teu nome é multicultural 
“É lindo ver o dia amanhecer,
ouvir ao longe pastorinhas mil,
dizendo bem, que o Recife tem,
o carnaval melhor do meu Brasil” – Último Regresso, Bloco da Saudade

Foto: Hesíodo Góes/ PCR

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