quarta-feira, 30 de março de 2016

Aula de história é pá vê ou pá comer?

Pavê - É pra ver ou pra comer?

Hércules (Disney)
Quando eu era menorzinha, mais ou menos na terceira série (atual quarto ano), tive o meu primeiro sonho do que queria ser quando crescesse: arqueóloga.

Não lembro bem como tudo começou, mas bem me recordo de assistir fielmente o Globo Repórter quando eles mostravam reportagens dentro da floresta amazônica, enquanto me imaginava uma aventureira, exploradora de mistérios e histórias. Acho que meu desenho preferido também deu um empurrãozinho nessa minha paixonite, além de todas as lendas amazônicas estudadas em sala e por aí vai.

HISTÓRIA, HISTÓRIA, HISTÓRIA. De todas as disciplinas dos meus tempos de escola, história sempre foi a minha favorita. Daí, chegando à quinta série, o sonho da arqueologia se intensificou ao longo do período letivo enquanto estudava a antiguidade, por entre a mesopotâmia, egípcios, gregos, romanos, persas e fenícios (...).

Fui crescendo e tendo outras paixões (muitas outras), e logo quis outra coisa pro meu futuro (dou um crédito ao meu eu criança, porque na verdade só decidi o que queria da vida esse ano kkkk). Apesar de outros quereres, fiquei absolutamente apaixonada pelas Civilizações Pré-Colombianas (Maias, Incas e Astecas) quando estudei no primeiro ano do ensino médio. Fiquei tão apaixonada que fiz até trabalho extra para a disciplina (NERD!) e corri para assistir o filme Apocalypto (2006) que começamos a ver em sala.

Nem tudo são flores.


Patriotismos à parte, nunca gostei de História do Brasil. Começou tudo tão errado, tantas injustiças e politicagens tortas, que sempre só me causaram revolta. Muito da idade contemporânea também me desperta os mesmos sentimentos, então não sou lá muito fã – estudei porque temos, não é mesmo?! A exceção à regra foi quando estudei História do Brasil no meu terceiro ano (do médio) em Recife. Tive um professor fantástico, e como estava lá na cidade e às portas do vestibular, ele focou bastante nas revoltas ocorridas em Pernambuco (e não foram poucas!!!), o que tornava tudo mais interessante – dava para imaginar todo o cenário enquanto ele citava os nomes das ruas, e fora que ele parecia um personagem histórico vivo quando contava a sua participação na luta contra a ditadura pelas ruas do centro.

O atual cenário político me remete muito às aulas de história. Porque apesar de tão, óh inteligentes e óh evoluídos, geralmente a história meio que se repete.

São manobras atrás de manobras, que só visa os próprios interesses, e claro, milhões sendo roubados o tempo todo. Mais uma vez estudantes, intelectuais e sans-culottes (sem calção/camada popular) se “aliam” enquanto que a aristocracia, ala conservadora e mídia vigiam bravamente o outro lado da trincheira.

Os corruptos querendo roubar e defender o seu roubo eu até entendo, porque é óbvio. O que realmente me incomoda dessa vez, é a burguesia. Sabe o que é?! Tô achando eles tão perdidos. A grande maioria (leiam maioria, não todos), decidiu lutar abertamente contra o atual governo brasileiro, se considerando cobertos de razão e crucificando todos que ousarem pensar diferente. Acho muito legal essa tomada de consciência política, a luta e as opiniões, admiro até, quando é autêntica. Pena que não vejo essa sinceridade; vejo, entretanto, uma hipocrisia latente e crescente (volto a dizer que não é unânime).

Tomados de discursos vazios, não dá para sabermos por que diabos a pessoa está defendendo este ou aquele lado. Na verdade dá para saber sim. É só assistirmos o jornal, porque o discurso é igualzinho. Assim que ligo a TV, é latente o direcionamento que tomam os apresentadores, e a cuidadosa escolha de palavras; mais tarde nas ruas, escutamos a mesma história copiada e colada. Se fosse um "estudo acadêmico", poderíamos acusar as pessoas de plágio e fundamentos teóricos pobres.

Mal informados, medrosos e com pouco estudo – esta é a nossa classe média. Estamos apavorados com o que os outros pensam de nós; por isso nos dedicamos incansavelmente a nossas aparências e cuidadosamente “escolhemos” gostar apenas do que é socialmente aceitável – indo desde livros, músicas, aparência... e a sociedade que determina tudo isso vai desde a nação até mesmo ao grupinho social que andamos. Claro, não apenas devemos gostar dessas coisas superiores, como devemos confrontar os que pensam o contrário. Por exemplo, o que seria da minha reputação se eu deixasse escapar que li a trilogia do Cinquenta Tons de Cinza e sei dançar até o chão?! Merda, falei.

O ápice de nossa classe média pobre fica claro, para mim, nessas manifestações. Sabe por quê?! Deixa-me explicar:

A nossa geração, infelizmente é a do selfie, ou melhor, selfish (egoísta); somos a geração da ostentação. Pode reparar, estamos obcecados por aparência, consumismo e principalmente por atenção. Tendo facebook há seis anos, e baseado na minha total falta de popularidade nos primeiros anos (como se tivesse aumentado haha), vi que posts não são comentados e curtidos sozinhos. Dã!

O Facebook é uma sociedade paralela, com suas próprias regras de convívio, onde só receberás interação se também interagir com seus coleguinhas. Regra número 1: alimentar a sua página com o que todo mundo quer ler/ver. Observando as publicações de alguns amigos meus, vi que falando o que todos já esperam, ou seja, postando fotos de uma vida interessante, ou falando de um assunto popular, você é sucesso certo, e passa de 100 curtidas facim. Se resolve soltar um tantinho de sinceridade e mostrar um pouco sobre a sua vida real, você automaticamente se torna desinteressante. Já conversei até com uma psicóloga sobre isso: no face todo mundo vive uma vida de sonhos, não existe tempo ruim, só sucesso, alegria, diversão e etc etc.

Pensando numa sociedade que tem um bebê monstro para alimentar (o face), sedento por novas fotos bombásticas diariamente, nada melhor do que você postar que participou de um fato emblemático do seu país: ir para as ruas e tirar a presidente do poder!!!Já pensou em você no futuro folheando o livro de história do seu filho e dizendo –“Filho, eu estive aqui”.
Que tal ser igual ao meu professor de história e se tornar uma história viva?

É aí que tá o problema, meus caros amigos que bravamente leram até aqui. O negócio quer ser histórico, quer ser épico e heroico antes de realmente o ser. O importante não é modificar a política totalmente acanalhada que temos no nosso país. O importante é estar lá nas ruas, protagonizando tudo isso, batendo fotos e registrando tudo na web. O importante é você compartilhar a sua foto na avenida, pintado de Brasil, mais nacionalista impossível – e só depois postar aquele gif de gatinho brincando que ninguém resiste.

O ruim dessa história não é lutarmos por nossos direitos. O duro é lutarmos para parecer (ou aparecer) que estamos lutando. Tá na moda. É cool. É como os filmes de super-heróis e de séries que estão na moda – é tudo tão épico, tão artificialmente épico, tão grandioso na sua capa... pena que quando procuramos o conteúdo, vemos que é fraco fraco.

Passeata dos Cem Mil? Fora Collor? Que nada. Minha geração tem o Fora Dilma. Que é tão grandioso e significativo quanto. Pelo menos é o que esperam os participantes deste último. Será que agora posso perguntar o fundamento teórico deles?!Ai, não! Porque já que eles vêm com o discurso de um (e único) partido ladrão, FHC que prestou e que o Brasil só desenvolveu nos últimos 12 anos porque, Maktub, estava escrito e as coisas seguiram o seu curso de crescimento normal e esperado – teria crescido do mesmo jeito se EU tivesse sido a presidente.

Disso tudo, guardo uma curiosidade. E se só pudessem participar das manifestações quem se comprometesse em não postar foto em nenhuma rede social (incluindo o whatsapp)? Quero dizer, se fosse algo puramente ideológico, irmos lá para reclamarmos nossos direitos, sem nem passar maquiagem ou arrumar a blusinha dentro da calça. Será que dava 1% na próxima? Aí veríamos quem realmente tá interessado.


Passeata dos Cem Mil - 1968
Fora Collor - 1992
Fora Dilma
P.S- “Camila, sua hipócrita, você bate selfie e posta no face”. Sim, apesar de não parecer, sou normal e sigo algumas regras sociais. Amo fotografia, tiro selfie e também posto vida perfeita no facebook, sim! Só que sou contra a dependência e obsessão que isso tudo se tornou para muita gente:

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