

Tem um lapisai?
Desde criança eu gosto de crônicas, meu primeiro contato com elas foi com o livro “Um país chamado infância”, de Moacyr Scliar. Achei incrível e não queria mais parar de ler, li muitas, e desde sempre o meu autor preferido é o grande Luís Fernando Veríssimo.
Uma vez, um par de anos atrás, li uma do Fernando Sabino chamada Albertine Disparue, que nem de longe é a melhor que eu já li, mas com um trecho que me chamou a atenção :
“– Você sabe escrever?
– Sei sim senhor – balbuciou ela.
– Veja se tem um lápis aí na gaveta.
– Não tem não senhor.
– Como não tem? Pus um lápis aí agora mesmo!
Ela abaixou a cabeça, levou um dedo à boca, ficou pensando.
– O que é lapisai? perguntou Finalmente.”
Sete letrinhas, lapisai, mas depois dessa eu nunca mais consegui ouvir alguém perguntar: “Tem um lápis aí?” sem lembrar dessa frase. Não faço ideia do resto do texto, mas essa piadinha do autor marcou bastante, e toda vez que ouço a frase não consigo evitar um sorriso.
Outra marcante foi essa, “Jenesequá : Uma Parábola”, agora do Veríssimo :
"Tenho tudo o que o dinheiro pode comprar", disse o milionário, "mas me falta não sei o quê."
Rudi cruzou as pernas, puxou o friso impecável das calças entre dois dedos manicurados e sentenciou:
"Já sei. Lhe falta je ne sais quoi."
ISSO.
O milionário pulou da cadeira. Rudi acertara na mosca. Ainda de pé, o milionário gritou outra vez:
"Isso! É exatamente o que me falta. Jenesequá. Eu quero que você me ajude a consegui-lo. Pago qualquer preço pelo jenesequá."
Ás vezes quando sinto falta de um adjetivo, já sei o que usar : Jenesequá. rsrsComo não poderia faltar, vou encerrar o papo de hoje com uma crônica em homenagem as professoras, que é uma das minhas preferidas :
PEÇA INFANTIL
A professora começa a se arrepender de ter concordado (“Você é a única que tem temperamento para isto”) em dirigir a peça quando uma das fadinhas anuncia que precisa fazer xixi. É como um sinal. Todas as fadinhas decidem que precisam, urgentemente fazer xixi.
-Está bem, mas só as fadinhas – diz a professora. – E uma de cada vez!
Mas as fadinhas vão em bando para o banheiro.
-Uma de cada vez! Uma de cada vez! E você, onde é que pensa que vai?
-Ao banheiro.
-Não vai não.
-Mas tia...
-Em primeiro lugar, o banheiro já está cheio. Em segundo lugar, você não é fadinha, é caçador. Volte para o seu lugar.
Um pirata chega atrasado e com a notícia de que sua mãe não conseguiu terminar a capa. Serve uma toalha?
-Não. Você vai ser o único de capa branca. É melhor tirar o tapa-olho ficar de anão. Vai ser um pouco engraçado, oito anões, mas tudo bem. Por que você está chorando?
-Eu não quero ser anão.
- Então fica de lavrador.
-Posso ficar com o tapa-olho?
-Pode. Um lavrador de tapa-olho. Tudo bem.
-Tia, onde é que eu fico?
É uma margarida.
A professora se dá conta de que as margaridas estão desorganizadas.
-Atenção, margaridas! Todas ali. Você não. Você coelhinho.
-Mas o meu nome é Margarida.
-Não interessa! Desculpe, a tia não quis gritar com você. Atenção, coelhinhos. Todos comigo. Margaridas ali, coelhinhos aqui. Lavradores daquele lado, árvores atrás. Árvore, tira o dedo do nariz. Onde é que estão as fadinhas? Que xixi mais demorado.
-Eu vou chamar.
-Fique onde está, lavrador. Uma das margaridas vai chamá-las.
-Já vou.
-Você não, Margarida! Você é coelhinho. Uma das margaridas. Você. Vá chamar as fadinhas. Piratas, fiquem quietos.
-Tia, o que é que eu sou? Eu esqueci o que eu sou.
-Você é o Sol. Fica ali que depois a tia... Piratas, por favor!
As fadinhas começam a voltar. Com problemas. Muitas se enredaram nos seus véus e não conseguem arruma-los. Ajudam-se mutuamente, mas no seu nervosismo só pioram a confusão.
-Borboletas, ajudem aqui – pede a professora.
Mas as borboletas não ouvem. As borboletas estão etéreas. As borboletas fazem poses, fazem esvoaçar seus próprios véus e não ligam para o mundo. A professora, com a ajuda de um coelhinho amigo, de uma árvore e de um camponês, desembaraça os véus das fadinhas.
-Piratas, parem. O próximo que der um pontapé vai ser anão.
Desastre: quebrou uma ponta da Lua.
-Como é que você conseguiu isso? – pergunta a professora sorrindo, sentindo que o seu sorriso deve parecer demente.
-Foi ela!
A acusada é uma camponesa gorda que gosta de distribuir tapas entre os seus inferiores.
-Não tem remédio. Tira isso da cabeça e fica com os anões.
-E a minha frase?
A professora tinha esquecido. A Lua tem uma fala.
-Quem diz a frase da Lua é, deixa ver... O relógio.
-Quem?
-O relógio. Cadê o relógio?
-Ele não veio.
-O quê?
-Está com caxumba.
-Ai, meu Deus. Sol, você vai ter que falar pela Lua. Sol, está me ouvindo?
-Eu?
-Você, sim senhor. Você é o Sol. Você sabe a fala da LUA??
-Me deu uma dor de barriga.
-Essa não é a frase da Lua.
-Me deu mesmo, tia. Tenho que ir embora.
-Está bem, está bem. Quem diz a frase da Lua é você.
-Mas eu sou caçador.
-Eu sei que você é caçador! Mas diz a frase da Lua! E não quero discussão!
-Mas eu não sei a frase da Lua.
-Piratas, parem!
-Piratas, parem. Certo.
-Eu não estava falando com você. Piratas, de uma vez por todas...
A camponesa gorda resolve tomar a justiça nas mãos e dá um croque num pirata. A classe é unida e avança contra a camponesa, que recua, derrubando uma árvore. As borboletas esvoaçam. Os coelhinhos estão em polvorosa. A professora grita:
-Parem! Parem! A cortina vai abrir. Todos a seus lugares. Vai começar.
-Mas, tia e a frase da Lua?
-“Boa noite, Sol.”
-Boa noite.
-Eu não estou falando com você!
-Eu não sou mais o Sol?
-É. Mas eu estava dizendo a frase da Lua. “Boa noite, Sol.”
-Boa noite, Sol. Boa noite, Sol. Não vou esquecer. Boa noite, Sol...
-Atenção, todo mundo! Piratas e anões nos bastidores. Quem fizer um barulho antes de entrar em cena, eu esgoela. Coelhinhos nos seus lugares. Árvores, para trás. Fadinhas, aqui. Borboletas, esperem a deixa. Margaridas no chão.
Todos se preparam.
-Você não, Margarida! Você é coelhinho!
Abre o pano.
LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
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